A popularização de destinos turísticos do litoral sul da Bahia entre visitantes israelenses tem uma relação direta com a indústria do entretenimento de Israel.
Lançada em 2012, a série de comédia Malabi Express transformou Morro de São Paulo, distrito de Cairu, em cenário de uma produção televisiva de grande identificação entre o público jovem do país do Oriente Médio.
Mais de uma década depois, o crescimento do fluxo de turistas israelenses na região passou a ser acompanhado por conflitos com moradores, denúncias de racismo, episódios de violência e disputas envolvendo manifestações de solidariedade à Palestina.
Com paisagens de águas cristalinas, praias e piscinas naturais, Morro de São Paulo serviu de cenário para a história de três amigos que, após concluírem o serviço militar obrigatório em Israel, viajam para Salvador e se estabelecem na ilha de Cairu.
Na trama, os personagens passam a vender malabi, uma sobremesa popular no Oriente Médio, enquanto se envolvem em situações cômicas, confusões e relacionamentos amorosos.
A produção foi inspirada no livro autobiográfico de mesmo nome, escrito pelo comediante, ator e escritor israelense Miki Geva.
Em entrevista ao G1, em 2025, o autor contou que a obra surgiu de uma experiência pessoal: o relacionamento com uma brasileira e uma viagem a Morro de São Paulo. Após o sucesso comercial do livro, surgiu a oportunidade de adaptá-lo para a televisão.
A identificação do público israelense com a história também está relacionada a um costume bastante difundido entre jovens do país: realizar viagens internacionais após o cumprimento do serviço militar obrigatório.
Nesse contexto, a série ajudou a associar o litoral baiano a um destino de lazer, festas, relacionamentos e experiências turísticas para essa parcela da população.
Caso de Itacaré ganha repercussão entre artistas e políticos; entenda
Turismo transforma comércio e cotidiano de Morro de São Paulo
A presença de visitantes israelenses também provocou mudanças na dinâmica comercial de Morro de São Paulo.
Com o crescimento da demanda, restaurantes, lanchonetes e estabelecimentos turísticos passaram a adaptar seus serviços para atender esse público, incorporando bandeiras de Israel, cardápios e letreiros em hebraico e opções gastronômicas associadas à cultura judaica.
A presença da comunidade também se refletiu na instalação de espaços religiosos, como uma sinagoga e um Beit Chabad, instituição vinculada ao movimento judaico Chabad-Lubavitch.
Nos últimos anos, especialmente entre 2024 e 2026, a circulação de turistas israelenses também ganhou visibilidade em outros destinos do litoral baiano, como Itacaré, Boipeba, Maraú, Ilhéus e Serra Grande.
O que inicialmente representava uma aproximação entre o público israelense e as comunidades turísticas da Bahia passou a ser atravessado por tensões culturais e políticas.
A intensificação das denúncias de desrespeito à população local e a repercussão internacional da ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza, iniciada em outubro de 2023, contribuíram para deteriorar as relações em parte desses destinos.
Nas redes sociais, internautas passaram a resgatar episódios da série Malabi Express, questionando a representação da Bahia como um território de festas e diversão para jovens estrangeiros.
Alguns também associaram a produção à promoção de uma modalidade de turismo que classificam como sexualizado.
Denúncias de racismo e violência ampliam conflitos
Em Itacaré, os conflitos ganharam maior dimensão após uma sequência de denúncias envolvendo grupos de turistas israelenses. Moradores e trabalhadores do turismo relatam episódios de vandalismo, ofensas racistas, intimidação e desrespeito aos costumes locais.
Segundo o depoimento da vítima, o grupo estaria quebrando vasos de plantas utilizados na decoração da rua.
Ao perceber a situação, outra mulher teria repreendido os visitantes. Quando a vítima também questionou o comportamento dos turistas em inglês, um dos homens teria arremessado o próprio celular contra sua cabeça.
Além da agressão física, a mulher relatou à polícia que os envolvidos imitaram sons de macacos durante a confusão, comportamento associado a manifestações de racismo.
O episódio se soma a outros relatos de moradores e trabalhadores de Itacaré, que denunciam comportamentos hostis atribuídos a grupos de visitantes israelenses.
Entre as reclamações estão ofensas racistas, incluindo expressões como “macaco” e “escravo”, danos ao patrimônio, perturbação do sossego, conflitos com funcionários de hotéis e estabelecimentos comerciais e recusas ao pagamento de taxas de serviço.
As denúncias também apontam episódios de festas prolongadas, consumo excessivo de álcool e desrespeito às normas de convivência em espaços públicos.
Conflitos ultrapassam Itacaré
As tensões não estão restritas a Itacaré. Relatos de conflitos envolvendo turistas israelenses também foram registrados em Morro de São Paulo, Boipeba, Maraú, Serra Grande e Ilhéus.
Em Itacaré, a situação ganhou repercussão nacional após denúncias de tentativa de vandalização de um mural produzido coletivamente por moradores e artistas em solidariedade ao povo palestino.
O episódio desencadeou manifestações nas redes sociais, críticas à postura da prefeitura e cobranças por providências das autoridades brasileiras.
A controvérsia também passou a envolver questões diplomáticas e políticas, especialmente diante das reivindicações por fiscalização da entrada de estrangeiros e responsabilização de pessoas envolvidas em violações de direitos humanos.







