Denúncias de moradores, comerciantes e trabalhadores do turismo contra turistas israelenses têm provocado tensão em Itacaré, no sul da Bahia, e ampliado o debate sobre respeito à população local, disputas pelo território e fiscalização da atividade turística.
Os relatos incluem episódios de racismo, ameaças, assédio contra mulheres, desrespeito à cultura local e depredação do patrimônio público.
A situação ganhou repercussão nas redes sociais após um grupo de turistas tentar vandalizar um mural produzido coletivamente por moradores em solidariedade ao povo palestino.
O episódio teria ocorrido na sexta-feira (30 de outubro) e se tornou o estopim de uma série de manifestações e denúncias públicas.
Segundo relatos de ativistas e moradores, os turistas envolvidos seriam integrantes das Forças Armadas de Israel.
Uma ativista identificada como Beatriz publicou um vídeo denunciando o que considera um processo de ocupação e desrespeito às comunidades locais por parte de grupos de turistas israelenses que frequentam cidades do litoral baiano.
“O sul da Bahia vem sendo invadido por soldados israelenses”, afirmou. Na gravação, ela relata festas com música em volume elevado até a madrugada, conflitos com comerciantes e moradores e dificuldades de diálogo sobre os impactos da presença desses grupos no turismo regional.
Entre as reclamações apresentadas por moradores estão a instalação de símbolos de Israel em estabelecimentos comerciais, a retirada ou alteração de murais da cidade, descarte irregular de lixo e sujeira em áreas costeiras após festas.
Também há denúncias de comportamentos racistas, agressões contra mulheres e intimidação de moradores.
Segundo os relatos divulgados nas redes sociais, alguns turistas também teriam adotado comportamentos hostis contra a população local, incluindo manifestações de desprezo pela cultura e pelos costumes da região.
Beatriz afirma ainda que, na sua percepção, os episódios de hostilidade se tornaram mais frequentes após a vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro de 2026.
A ativista também sustenta que os conflitos não estão restritos a Itacaré e menciona situações semelhantes em Morro de São Paulo, outro importante destino turístico da Bahia.
Veja vídeo:
O que está acontecendo em Itacaré é grave! Moradores relatam episódios de intimidação e agressões por soldados israelenses em folga. Em vez de proteger a população e fiscalizar, a prefeitura apagou comentários nas redes para evitar cobranças.
#BahiaLivre #BahiaLivreDosSionistas https://t.co/vSIa76qgBq
— feliniana (@drogueirinha) November 5, 2026
Prefeitura é criticada após posicionamento
Diante da repercussão das denúncias, a Prefeitura de Itacaré publicou uma nota na quinta-feira (5), na qual afirmou que o episódio envolvendo o mural ocorreu em um imóvel particular e não teve participação do município.
A administração também declarou que não se posicionaria sobre o genocídio palestino.
No comunicado, a prefeitura reafirmou o compromisso com a liberdade de expressão, o respeito às diferenças e a convivência pacífica.
Também destacou a tradição de hospitalidade da cidade e afirmou que Itacaré permanece aberta a visitantes de diferentes nacionalidades.
“A Prefeitura de Itacaré reafirma seu compromisso com a liberdade de expressão, o respeito às diferenças e a convivência pacífica. Esclarece que os recentes acontecimentos envolvendo um imóvel particular decorrem de uma relação privada, sem participação do Município, e repudia qualquer forma de violência, intolerância ou discriminação”, diz um trecho da nota.
A manifestação provocou novas críticas de moradores e ativistas, que consideraram o posicionamento insuficiente diante da gravidade das denúncias.
Após a repercussão negativa, a prefeitura desativou os comentários da publicação.
Internautas também acusaram a administração municipal de apagar manifestações contrárias ao comunicado e restringir a interação no perfil oficial.
Em outro vídeo, Beatriz afirmou que os turistas denunciados seriam agressivos, fariam ameaças à população e circulariam armados.
A ativista também criticou a postura da administração municipal diante dos acontecimentos e cobrou providências das autoridades estaduais e federais.
Confira nota na íntegra:
Jornalista denuncia assédio de turista israelense em Salvador
A repercussão do caso ganhou outra dimensão na sexta-feira (6), quando a jornalista Carolina Carvalho publicou um vídeo relatando um episódio de assédio sexual e intimidação que teria sofrido em Salvador, na Bahia.
Segundo seu relato, dois homens se aproximaram dela para pedir informações. Ao perceber que eram turistas, Carolina se dispôs a ajudá-los. A conversa, entretanto, teria se tornado invasiva, com aproximações físicas e perguntas sobre seu endereço e local de moradia.
Ao questionar a nacionalidade de um dos homens, a jornalista afirma que ele respondeu ser de Israel. Quando decidiu encerrar a conversa e deixar o local, os dois teriam começado a segui-la e a intimidá-la, chamando-a de racista, xenófoba e antissemita.
Carolina registrou um boletim de ocorrência e afirmou ter sido orientada a procurar o consulado de Israel para tentar identificar o suspeito.
“Eu fiquei indignada com o poder de impunidade que ele tem em um território que não é o dele. Não significa que ele não seja bem-vindo, mas tem que entender que existem regras, e que aqui turismo sexual é crime”, declarou.
Em nota, a 14ª Delegacia Territorial (DT/Barra) informou que investiga a denúncia. Segundo a unidade policial, diligências estão em andamento para identificar os suspeitos e esclarecer as circunstâncias do caso.
Confira relato:
▶️Mulher denuncia israelense por assédio sexual e acusações de xenofobia na Barra
🎥Reprodução @/carolinacarvalh_
Confira⤵️ https://t.co/ac03lyHOMo— Bahia Notícias (@BahiaNoticias) November 6, 2026
Segundo os ativistas, a discussão não deve ser tratada como uma tentativa de impedir a entrada de turistas estrangeiros no Brasil, mas como uma reivindicação por regras que assegurem a soberania nacional e protejam as comunidades que recebem visitantes.
Entre as medidas defendidas estão o fortalecimento da fiscalização sobre a entrada de estrangeiros e a discussão de restrições à aquisição de propriedades por militares e ex-militares envolvidos em conflitos armados.
A principal reivindicação, entretanto, é que as autoridades garantam o respeito aos moradores, trabalhadores do turismo e mulheres, diante das denúncias de violência e intimidação.
Até o momento, os relatos divulgados nas redes sociais também levantam questionamentos sobre a capacidade de resposta das autoridades municipais e a necessidade de investigação dos episódios denunciados.







