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Punitivismo não muda o comportamento na pandemia; conscientização sim

A procura por referenciais da Psicologia que me dessem subsídios para pensar os sujeitos humanos e suas dificuldades em tempos de pandemia, me levaram ao entendimento das complexidades que permitem ou não, a mudança de comportamento em relação às medidas de saúde pública.

Para considerar o processo de mudança comportamental precisamos entender que não é apenas um ou mais decretos do governo e patrulhas policiais que vão fazer com que diferentes grupos sociais e comunidades aceitem uma mudança radical de rotina.

O primeiro passo é, então, a compreensão desses sujeitos em suas diferenças sem esquecer que também comungam de uma unidade: os processos psicológicos. Estes, estão envolvidos na compreensão da situação pandêmica e necessariamente passam pela assimilação, através da linguagem e da atividade, do sentido sócio-histórico da mudança comportamental.

Explico: sem dúvidas a imposição punitivista e policialesca de instituições públicas geram um efeito, mas o que está em jogo nesta questão não é apenas a mudança de comportamento observável, mas sim a relação dialética entre comportamento, consciência e materialidade histórica.

Isto é, não tem como haver mudança comportamental significativa sem a mediação de elementos internos aos sujeitos, sobretudo no domínio da representação/cognição.

Mas a representação/cognição, sozinhas, não geram mudanças. O que vai gerar a modificação do comportamento de maneira significativa é a atividade. Se o sujeito sócio-histórico está envolvido numa teia de atividades que criam a realidade, é a partir da assimilação dos sentidos e ao mesmo tempo o direcionamento da ação para a realização concreta da mudança que dará conta da nova configuração de sociabilidade.

O uso de máscara, como uma ação de extrema importância para prevenção do contágio, só faz sentido se as inúmeras atividades realizadas pelo sujeito tenham como objetivo suprir não apenas as necessidades imediatas através do trabalho, mas que ele consiga tomar consciência de que a realidade material compartilhada com os outros, refletida através da subjetividade, só tem sentido na partilha com esses outros, na mediação criativa da atividade que “eu” tenho junto com o “outro”.

Este “eu”, então, em relação com os “outros” configuram as mudanças no ambiente, nas instituições, no domínio das tecnologias e conhecimentos socialmente produzidos através do trabalho.

É por esta razão que um sujeito que vive em uma comunidade pobre e que trabalha na informalidade vendendo acessórios no mercado encontrará mais sentido na mudança de seu comportamento se entender que sua necessidade estaria suprida se os “outros” também mudassem e tomassem os cuidados necessários para evitar contágio.

Logo, não é apenas a recompensa imediata pela mudança comportamental que deve reforçar o “novo comportamento”, mas a totalidade de relações e mediações simbólicas e concretas que movimentam corpos, tendões, músculos e nervos assim como ativam conexões afetivas e cognitivas na compreensão de um fenômeno que é necessariamente social e, portanto, histórico.

Destarte, o ponto “x” da mudança não está no indivíduo e sua “capacidade de adaptação” e “reordenação cognitiva” e “natureza adaptativa” e sim na totalidade de fatores que interagem e estabelecem relações de mediação entre o sujeito que se comporta, sua subjetividade e os outros.

Está, sobretudo, na materialidade e na concretude histórica que dão o direcionamento do comportamento nas situações adversas e de mudanças ambientais extremas. É esta realidade que modifica as atividades humanas e dão início a essa “reorganização” do organismo humano as mudanças ambientais.

Quando falamos em resiliência, precisamos ter em mente que esta “sementinha” de potencial humano não cresce quando nós, individualmente, “regamos” e “nutrimos”, mas que aparece na mediação de condições objetivas na teia que individualiza, mas, também, coletiviza nossa razão de ser.

Saiba mais:

DUARTE, A. P. et al. A epidemiologia da COVID-19 na definição de políticas públicas à luz da Teoria Sociocultural e Histórica de Vygotsky. Brazilian Journal of Health Review. Disponível em: <https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/article/view/13428>.

LEONTIEV, A. N. Atividade, Consciência e Personalidade. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/leontiev/1978/activ_person/index.htm>.

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