Psicologia entre classes: um retorno à práxis

Numa reunião com alunos do curso de Psicologia a inquietação de uma estudante me gerou algumas reflexões: Por qual razão criticamos? Talvez se respondermos esta questão de forma íntima vamos entender as dificuldades individuais em criticar.

Para ela havia algo errado nos professores que se propunham críticos pois nunca davam respostas concretas, nunca davam um caminho a seguir para superar a situação ou objeto criticado.

No entanto, na Psicologia, precisamos lidar com uma constante falta de respostas pois posicionamos os sujeitos humanos com muita cautela para dar conta de suas variáveis individuais e coletivas.

Entender o comportamento humano envolve procedimentos de muita reflexão, leitura e aprimoramento da observação e da escuta a fim de destacar os conteúdos, os conceitos e categorias que envolvem os sentidos e os caminhos de uma consciência ou, até, de uma inconsciência.

O fato é que o incômodo da crítica tem sido uma faca de dois gumes: por um lado gera reflexões e isso incomoda pois direcionamos a percepção ao que está acontecendo ao nosso redor e ficamos mais sensíveis as condições materiais que estamos imersos, e por outro lado, as questões geradas pelo processo crítico não estão encontrando vasão em um complexo de práticas. Melhor dizendo: a ação crítica não está sendo libertadora pois não envolve consolidação de uma práxis.

Práxis aqui não é apenas a capacidade de conciliar teoria e prática, mas uma movimentação horizontal entre teoria, prática e organização política. As possibilidades de transformação da realidade, no entanto, passam pela união dos diferentes segmentos que representam a profissão numa direção comum, enfrentando não só as dissidências teóricas, mas encarnando as condicionantes materiais na nossa maneira de ver os problemas a serem superados por todos nós de maneira coletiva.

Isto é, vivemos em uma sociedade que estrutura relações de poder e possibilidades políticas de acordo com uma estratificação social. Sendo assim, estamos imersos em uma ordem necessariamente contraditória e quando esta estratificação encontra desejos de mudança vindos da base do constructo piramidal das classes sociais é inevitável um confronto, um antagonismo, uma luta de classes.

Se posicionarmos a Psicologia no centro deste confronto e termos em mente que nossas ações se fundamentam nesta construção, é inevitável a configuração dialética em nossa perspectiva crítica. É aqui que as perguntas são sanadas e ou aprofundadas. São nessas searas que se desenvolve uma outra Psicologia possível em caminhos ainda a serem erguidos.

A questão fundamental não é necessariamente a resposta, mas como fazemos as perguntas e o que é preciso para responde-las. Esta lacuna é necessária na construção de um movimento de psicólogos reflexivos e críticos na teoria, aguçados na prática e astutos na organização política.

É preciso salientar que mudanças requerem mobilização e debate, caminhos e alternativas que só existem em coletividade. Não haverá mudanças enquanto mantivermos um só caminho, remediando e normalizando a produção de oprimidos e a reprodução de opressores.

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