Personalidade capitalista ou loucura do capital?

Parar e refletir neste momento de acentuação da crise social e sanitária mundial é complicado de muitas formas, mas não deixo de tentar enxergar a dinâmica que rege as relações de classes no Brasil.

Para isso, no entanto, é necessária toda cautela para analisar e depurar os fatos que acontecem dia após dia. A história em movimento é o fio da meada que precisa ser analisado a fim de não cair na simplificação, na redução do debate político.

Algo, no entanto, me chamou atenção: existe uma tendência a inferências a respeito da saúde mental do presidente, um discurso que tenta sustentar que seu comportamento dá sinais de psicopatologia e ligeiramente classifica-o no que seria o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA).

De maneira geral, os transtornos de personalidade são descritos no DSM V como “um padrão persistente de experiência interna e um comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo”.

Já o TPA ‘’um padrão difuso de desconsideração e violação dos direitos de outras que tem como indicadores o fracasso em ajustar-se às normas sociais relativas a comportamentos legais, tendência a falsidade e a mentiras repetidas, impulsividade, irritabilidade e agressividade, descaso pela segurança de si e dos outros, irresponsabilidade e ausência de remorso” (ver American Psychiatric Association, 2014)

Veja bem, esta descrição é extremamente sedutora se quisermos encaixar a conduta do presidente em diversos momentos de sua vida e trajetória política. O discurso político que apela para a violência e ao absurdo é sem dúvida seu ponto forte e é quase óbvia a possibilidade de diagnosticá-lo, colocá-lo em uma caixa que podemos olhar com mais facilidade para os seus contornos que inevitavelmente estavam tão difusos devido a instabilidade de suas posições.

Não estou aqui fazendo uma crítica ao psicodiagnóstico ou coisa do tipo, já que esta atividade conduzida por um profissional qualificado e com as condições necessárias para uma avaliação psicológica séria tem importância ímpar no manejo de casos e intervenções clínicas.

Quero apontar, sobretudo, para a facilidade que é confrontá-lo individualmente como uma pessoa “louca” ou que conduz a degeneração psíquica, em detrimento de uma análise da situação política brasileira, de sua formação social e da tendência consideravelmente violenta e opressora das relações de classes na América Latina.

Para Florestan Fernandes, considerado pai da sociologia no Brasil, uma característica constitutiva das relações entre classes na América Latina é a aglutinação na mão da burguesia de toda as força política decisória na ordenação das funções do Estado para a manutenção da ordem política, isto é, manter uma relação de superexploração do trabalho por conta das características dependentes do capitalismo que aqui se desenvolveu (ver Fernandes, 1975).

Sendo assim, a burguesia, incapaz de se movimentar devido ao padrão dependente de acumulação de capital descrito por Florestan, precisa afirmar sua supremacia de classe através da contenção dos movimentos populares. Isto explica, por exemplo, os processos ditatoriais na América Latina ao longo do século XX e nos direciona a uma categoria de análise que conjuga as variadas funções do autoritarismo burguês no capitalismo dependente: o imperialismo.

Mas por qual razão precisamos entender isto? Se por um lado Bolsonaro pode apresentar sinais de um transtorno de personalidade, por outro, esta personalidade encontrou meios para se colocar como chefe de Estado e isto deve nos trazer explicações que fogem do nível individual e psicologizante de análise.

Os horrores do liberalismo ao redor do mundo e o modo de produção capitalista, a despeito de sua ordem internacional, criou inúmeros líderes e cada um com seus requintes e suas “personalidades problemáticas” e suas “questões individuais doentias” para justificar os mais distintos atos desde a escravidão até o neocolonialismo (ver Losurdo, 2006).

O Coronel Ustra, por exemplo, não teve sua personalidade analisada dentro de um manual de diagnóstico, mas cumpriu uma função no endurecimento das forças conservadoras e autoritárias da burguesia nacional sob o apoio do imperialismo norte americano.

É uma tarefa chata para um momento onde as respostas precisam vir logo pois sentimos um risco iminente? Com certeza.

No entanto, tudo isso nos traz implicações políticas a longo prazo e logo será uma certeza que o que estamos vivendo com este governo faz parte de uma movimentação constitutiva da formação social do país e da organização capitalista mundial.

Dadas as deficiências históricas criadas na construção desta relação entre classes, a Psicologia enquanto ciência e profissão está no palco desta disputa estrutural e que, de maneira inevitável até então, vive e se alimenta no palco das políticas burguesas e na formatação de ataques massivos a consciência da classe trabalhadora.

Os dispositivos técnico-científicos criados pela Psicologia estão, conjunturalmente, aliados à logica da pacificação dos elementos de insurreição e das vias revolucionárias da luta de classes na América Latina e sua ação paliativa, pouco reconhecida, pouco valorizada e desvinculada da realidade dos povos deve-se a sua subordinação política à lógica dominante.

Logo, é mais fácil “criar um louco” e colocar sobre ele as circunstâncias das lástimas e dos impropérios bárbaros da desigualdade e da malevolência que o ser humano pode conter. O homem é o lobo do próprio homem e sua “natureza individualista e capitalista” cresce como erva-daninha nas consciências comuns apostando, afinal de contas, na natureza psíquica e comportamental dos traços autoritários e dos crimes contra humanidade.

 

Saiba mais:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Transtornos de Personalidade. P. 645-649. In: ______. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentias: DSM-5. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Transtorno de Personalidade Antissocial. P. 659-663. In: ______. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentias: DSM-5. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

FERNANDES. F. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. 2 ed. Zahar Editores, 1975.

LOSURDO, D. Contra-história do liberalismo. Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2006.

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