Psicologia e pandemia: Eu que lute ou nós lutamos?

A pandemia não é uma experiência individual. A dimensão coletiva dos acontecimentos e a criação de representações sobre este momento passa pela agudez de um antagonismo duro de ser enfrentado.

Se por um lado podemos perceber que estamos juntos nessa, por outro muitos fatores nos separam e alijam a capacidade de pensar coletivamente para criar outras condições de sociabilidade e convivência.

Estamos em um momento onde a intensificação do individualismo, da segregação e da crença de que “é cada um por si” convergem para a incredibilidade de saídas em conjunto, na organização da vida social de forma mais significativa e solidária.

O falso antagonismo “indivíduo vs grupo” revela não só as vias da ideologia dominante, mas da incapacidade de pensar a dialética como palco do movimento objetividade/subjetividade no entendimento dos fenômenos que urgem por uma resposta (ver BOCK).

Ora, podemos falar sobre a experiência emocional do indivíduo sem falar sobre o movimento concreto que a desperta e que a direciona? Se estamos falando de seres que em sociedade e em relação criam a realidade precisamos aceitar a integração de movimentos contraditórios que possuem história e materialidade.

Se a classe trabalhadora está desamparada, a burguesia, sob o controle das ações e funções do Estado, intensifica os limites das necessidades materiais dos sujeitos retirando ou deixando débil a implementação de medidas mais afetivas de combate a pandemia (veja aqui).

Aqui é onde a sobrevivência emerge como força biológica para neutralizar os impulsos coletivistas e solidários e munir, no plano ideológico/prático, o individualismo como solução da conflitualidade latente no jogo político brasileiro.

Não existe só uma tentativa de “amenizar” o conflito entres classes através da “luta pela sobrevivência”, mas de atenuar qualquer situação que fuja deste sentimento de “eu que lute”. No entanto, obviamente, há uma dimensão que nos chama ao autocuidado; o que não devemos esquecer é que soluções para o prejuízo social, econômico e político da pandemia passam pela disponibilidade solidária e organizativa das instituições e movimentos que tem como horizonte a superação do capitalismo.

Situando a Psicologia neste horizonte, um desafio surge como fator determinante na atuação dos(as) psicólogos(as): o que temos a oferecer a classe trabalhadora neste momento?

Sem dúvida há muito trabalho sendo feito e muitas pessoas procurando sanar necessidades imediatas de grupos em maior vulnerabilidade, seja abrindo vagas gratuitas em suas clínicas ou na atuação junto a trabalhadores em empresas e no serviço público.

No entanto, dada a conjuntura, uma dimensão essencial não pode ser ignorada: os fatores de risco a saúde mental e que se aglutinam no cenário atual têm relações diretas com políticas, ações e inações do Estado burguês.

Logo, isto abre margens para reflexões para além da “natureza” abstrata e idealista do sofrimento psíquico e sintomas psicológicos.

Por exemplo, podemos entender que a ansiedade é um dispositivo biológico que é desencadeado em situações de risco iminente por conta das consequências da pandemia e do isolamento social, mas esse determinante biológico não impede de visualizarmos que este modelo de sociedade que coloca o lucro a cima da vida, a mercadoria a cima do homem que a produz não só interfere nos sintomas ansiosos mas o provocam e os intensificam.

Aqui mora a percepção crítica que devemos ter da ênfase “natural” e individual das dificuldades na pandemia, posicionando sobre os sujeitos o peso de seu próprio bem-estar, de sua aceitação incondicional a uma suposta resiliência que emerge da individualidade que, ao que parece, está pronta para se desenvolver “botanicamente”, basta regar.

As condições materiais não são apenas a sustentação física dos sujeitos, mas suas possibilidades de subjetivação e internalização dos elementos sociais e culturais que direcionam seu comportamento e sua atividade. Nesta perspectiva é urgente que nos atentemos que as possibilidades de resiliência dos indivíduos são condicionadas por essas características materiais e históricas.

Se o sujeito não tem água tratada e encanada ou acesso a saneamento básico como lavará as mãos com sabão respeitando as recomendações da OMS? Restará para ele qual resiliência e aceitação se faltam condições básicas para a manutenção e reprodução da vida?

Não há razão para pensar que a pessoas simplesmente devem se sacrificar para que o mercado continue aberto e lucrativo, mas isso não parece lógico para a burguesia brasileira ou de qualquer lugar. Ora, essa situação limite nos coloca questões nodais a serem vistas e pensadas em conjunto.

Na articulação entre pensamento, linguagem e atividade o sujeito histórico se movimenta, transforma ou reproduz as condições materiais e simbólicas que sustentam sua existência. Quem seremos nós nessa encruzilhada?

O pressuposto maior e que envolve cada um de nós neste plano complexo na busca pela sobrevivência é a superação de uma sociedade excludente e que toma dos sujeitos a autonomia e a consciência das relações que o produzem. Urge um acordo comum para que sejamos mais humanos e menos mercadoria.

 

Saiba mais:

BOCK, A. M. B. A Psicologia Sócio-histórica: uma perspectiva crítica em Psicologia. Cap. 1, p. 21-46. In: BOCK, A. M. B. et al (orgs). Psicologia Sócio-histórica: uma perspectiva crítica em Psicologia. 6ª ed. Cortez Editora, 2017.

______. A Psicologia a caminho do novo século: identidade profissional e compromisso social. Estudos de Psicologia, vol. 4, n. 2, 1999. Disponível em: < https://www.scielo.br/pdf/epsic/v4n2/a08v4n2>.

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