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Orgulho Autista: Adultos cobram direito à cidade e acessibilidade em Maceió

Imagem gerada por Inteligência Artificial,

Por Silvio Rodrigo, autista nível 1 de suporte.

Neste dia 18 de junho, data em que se celebra o Dia do Orgulho Autista, as discussões em Maceió precisam avançar para além dos consultórios médicos e jogam luz sobre um debate urgente: o direito do autista adulto ao espaço urbano.

Conhecida internacionalmente por suas praias e forte apelo turístico, a capital alagoana enfrenta o desafio de garantir acessibilidade cognitiva, sensorial e autonomia para essa parcela da população que, muitas vezes, é invisibilizada pelas políticas públicas.

Entrevistas realizadas pelo Repórter Nordeste com autistas adultos mostra que, ao contrário do estereótipo de isolamento, os adultos autistas ocupam ativamente a cidade, embora enfrentem barreiras e a falta de assistência direcionada após a maioridade.

Os depoimentos dos entrevistados desafiam a ideia de que o autismo pertence apenas ao universo infantil ou de que pessoas autistas vivem à margem da cidade e de seus espaços de convivência.

Na realidade, a experiência desse público em Maceió é moldada por uma relação intensa com a arquitetura, o lazer e a cultura local.

Para os entrevistados, transitar pela capital significa vivenciar um forte contraste sensorial, onde a orla marítima e suas paisagens naturais funcionam como um refúgio essencial de previsibilidade e autorregulação, enquanto o ambiente construído impõe uma sobrecarga constante através da poluição sonora, do trânsito caótico e da disponibilidade geográfica desigual de zonas públicas de descompressão.

O direito de ir e vir de forma independente esbarra diretamente na precariedade da infraestrutura de mobilidade e na falta de empatia coletiva.

O auxiliar administrativo William Freitas, de 32 anos, que é autista, relata que o transporte público da capital é uma das principais fontes de desgaste físico e mental.

“Existir em Maceió, para os autista adultos, é um desafio. O autismo não vai embora quando crescemos, é um condição para a vida toda. O autista adulto precisa ser reconhecido como uma pessoa com deficiência”, desabafa.

Segundo ele, os ônibus são velhos, barulhentos, quentes e superlotados, além de operarem com total imprevisibilidade de horários, o que gera crises de ansiedade.

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Freitas aponta ainda o desrespeito cotidiano às vagas reservadas, destacando que passageiros sem prioridade ocupam os assentos e ignoram sua necessidade.

Diante disso, o trabalhador conta que precisa disfarçar suas crises dentro do coletivo e já chega exausto ao emprego, evidenciando o esforço diário de ter que fingir normalidade em um ambiente hostil.

A desigualdade geográfica e econômica dentro de Maceió também aprofunda a exclusão.

“Os melhores lugares para lazer sempre são na parte baixa de Maceió, poderia ter mais opções de lazer na parte alta. Poderia ter mais lazer acessível e que você não precise gastar rios de dinheiro para participar”, reflete Freitas.

Ele enfatiza que o autista de baixo poder aquisitivo é o que mais sofre com a falta de amparo, enfrentando uma rotina onde o acesso a serviços básicos é uma batalha constante.

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O auxiliar administrativo narra a dificuldade para conseguir atendimento médico pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a total escassez de terapias voltadas para a idade adulta e o desconhecimento geral da população, que muitas vezes ignora símbolos de identificação legal, como o cordão de girassol e a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA).

Para André Cabral, de 29 anos, a relação com a capital é marcada por contradições comuns a muitos que compartilham de sua condição.

Ele afirma que Maceió é uma cidade de que gosta, mas na qual, paradoxalmente, não consegue se sentir pertencente.

Cabral enfatiza que o município está longe de ser acolhedor com pessoas autistas adultas e que, de forma geral, a estrutura urbana e social local tem muito a melhorar para que se torne verdadeiramente inclusiva.

Esse desabafo desconstrói a narrativa de que o autismo se restringe ao espaço doméstico ou de que a casa constitui o único lugar legítimo de pertencimento e circulação para pessoas autistas.

Ao contrário, evidencia a necessidade de políticas urbanas inclusivas e da construção de espaços de convivência capazes de acolher diferentes formas de experienciar a cidade, respeitando as necessidades sensoriais que condicionam e moldam a interação com o ambiente.

“Acredito que o transporte e a saúde precisam ser priorizados. O que vemos são praças revitalizadas e investimentos voltados ao turismo, como se apenas os visitantes merecessem atenção. A população também precisa de assistência e de serviços públicos de qualidade”, conclui Cabral.

Cauê Bittencourt, 29 anos, pesquisador e autista, avalia que os espaços públicos em Maceió ainda são limitados e, muitas vezes, oferecem experiências muito semelhantes entre si.

Na sua percepção, esses espaços deveriam contar com maior fiscalização em relação ao excesso de barulho e incorporar princípios de Design Universal, garantindo acessibilidade para diferentes perfis de usuários.

O Design Universal é o conceito de projetar produtos, ambientes e serviços para que possam ser utilizados pelo maior número possível de pessoas, independentemente de sua idade, capacidade física, motora ou cognitiva, sem a necessidade de adaptações posteriores.

Em vez de criar soluções separadas para pessoas com deficiência, ele propõe que os espaços e objetos já nasçam acessíveis, confortáveis e intuitivos para todos.

Em relação ao acesso aos serviços de saúde, ele destaca que, além dos entraves burocráticos já conhecidos, falta flexibilidade nos atendimentos.

Segundo Cauê, a busca por equidade exige o reconhecimento de que pessoas autistas possuem necessidades distintas e, por isso, demandam adaptações específicas para que o acesso aos serviços seja efetivamente inclusivo.

Para que essa população tenha garantido seu direito à cidade, o poder público municipal precisa superar abordagens estritamente clínicas e infantilizadoras do autismo, reconhecendo o autista adulto como sujeito de direitos e parte legítima da vida urbana.

Sob a perspectiva do modelo social da deficiência, as principais barreiras não estão apenas nas características individuais, mas também em ambientes, serviços e políticas que desconsideram a diversidade.

Assim, construir uma cidade inclusiva significa planejar transportes, espaços públicos, serviços de saúde, lazer e participação social de modo a acolher diferentes formas de existir e habitar o espaço urbano.

Mais do que assegurar acesso, trata-se de garantir pertencimento, autonomia e cidadania plena às pessoas autistas em todas as fases da vida.

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