Sem suporte em Maceió, autistas adultos buscam atendimento em cidades vizinhas

Por Silvio Rodrigo, autista nível 1 de suporte.

Adultos autistas de Maceió relatam enfrentar um cenário de desassistência na rede municipal de saúde, marcado por dificuldades para acessar atendimento psiquiátrico, psicológico e outros serviços especializados considerados fundamentais para o acompanhamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na vida adulta.

Em entrevistas ao Repórter Nordeste, os autistas ouvidos descrevem uma rede pública considerada ineficiente e de difícil acesso. Diante da escassez de consultas e da baixa disponibilidade de vagas na capital alagoana, muitos passaram a buscar atendimento em municípios da Região Metropolitana, como Rio Largo e Pilar.

Embora relatem maior facilidade para marcar consultas nessas cidades, afirmam que ainda enfrentam longas filas de espera, que podem ultrapassar três meses.

Outra alternativa encontrada tem sido a procura por associações sem fins lucrativos e por serviços gratuitos oferecidos em clínicas-escola de universidades privadas. Ainda assim, os entrevistados apontam dificuldades para obter acompanhamento contínuo, seja pela alta demanda, seja pela escassez de profissionais com experiência no atendimento de autistas adultos.

Segundo os relatos, a falta de acesso regular a especialistas compromete até mesmo tratamentos básicos. Muitos afirmam não conseguir manter o acompanhamento psiquiátrico necessário para renovação de receitas de medicamentos de uso contínuo. O mesmo ocorre com terapias consideradas essenciais para a qualidade de vida e autonomia da pessoa autista, como terapia ocupacional, fonoaudiologia e psicoterapia.

As denúncias encontram respaldo nos dados da primeira edição nacional do Mapa Autismo Brasil (MAB 2026). O levantamento aponta que 27,9% da população autista brasileira é composta por adultos entre 18 e 76 anos. Apesar disso, a estrutura de atendimento ainda permanece fortemente concentrada na infância.

O estudo revela que 69,6% dos diagnósticos foram emitidos entre 2020 e 2024, indicando uma crescente demanda de adultos recém-diagnosticados que buscam acesso a tratamento e acompanhamento especializado.

A realidade descrita pelos entrevistados também reflete um problema regional. O MAB mostra que Norte e Nordeste apresentam os maiores índices de dependência do Sistema Único de Saúde (SUS) para diagnóstico e tratamento do autismo.

Entretanto, essa dependência esbarra em limitações estruturais da rede pública. O Nordeste registra o maior percentual de autistas sem acesso a qualquer tipo de terapia no país: 23,5%.

A busca crescente por instituições do terceiro setor e clínicas-escola universitárias também é explicada pelos dados do levantamento. Segundo o MAB, o diagnóstico e o acompanhamento clínico de pessoas autistas no Brasil concentram-se principalmente em duas especialidades: neurologia, responsável por 67,1% dos laudos, e psiquiatria, com 22,9%.

Diante da insuficiência desses profissionais na rede pública, especialmente para o atendimento de adultos, associações e universidades acabam absorvendo uma demanda que deveria ser atendida pelo sistema público de saúde.

Os indicadores sobre acesso a tratamentos especializados reforçam o quadro de vulnerabilidade. No Nordeste, apenas 41,1% dos autistas conseguem acesso à psicoterapia. O percentual cai para 36,7% quando se trata de terapia ocupacional e para 33,7% em atendimentos de fonoaudiologia.

A dificuldade torna-se ainda mais grave diante da realidade econômica enfrentada por parte significativa dessa população. O MAB aponta que 35,5% das famílias de autistas na região Nordeste vivem com até dois salários mínimos ou não possuem renda. Além disso, cerca de 30% dos autistas adultos no Brasil estão desempregados.

Para os entrevistados, a combinação entre baixa renda, falta de especialistas e ausência de acompanhamento contínuo cria um ciclo de exclusão que impede o acesso a cuidados básicos em saúde mental.

Sem consultas regulares para renovação de receitas e sem oferta suficiente de terapias especializadas, a situação vivida por autistas adultos em Maceió deixa de ser um problema isolado e revela uma questão estrutural que afeta milhares de pessoas em todo o país.

A estudante de Pedagogia Alícia D’Almeida, de 23 anos, afirma que nunca conseguiu acesso regular a atendimento especializado pela rede municipal de saúde de Maceió. Diagnosticada com autismo, ela relata uma trajetória marcada por tentativas frustradas de obter acompanhamento psicológico, psiquiátrico e terapêutico pelo sistema público.

“Eu infelizmente não sou assistida em nenhum lugar. Já procurei terapia ocupacional, um psiquiatra ou um psicólogo, mas nunca tem vaga para mim ou algo assim. Eu não vou diretamente, quem corre atrás é minha mãe. A última consulta regular que tive foi com uma psiquiatra particular, mas ela cobrava R$ 300 por mês. Hoje não faço nenhum acompanhamento, nada”, conta.

Sem conseguir atendimento na capital, Alícia buscou alternativas em outros municípios da Região Metropolitana. Segundo ela, uma das poucas consultas que conseguiu foi em Rio Largo, mas o acesso também foi marcado por longas esperas.

“Eu consegui uma consulta em Rio Largo, mas demorou muito. Cheguei lá às seis da manhã e só fui atendida ao meio-dia. Dormi sentada na cadeira esperando para, no final, ter uma consulta de apenas 20 minutos”, relata.

O caso de Alícia ilustra uma realidade descrita por outros autistas adultos ouvidos pela reportagem. Sem acesso contínuo a especialistas e terapias essenciais, muitos acabam interrompendo tratamentos, recorrendo a serviços particulares que não conseguem manter financeiramente ou enfrentando longas filas de espera em municípios vizinhos.

O estudante de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), André Cabral, de 29 anos, autista e diagnosticado também com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), conseguiu manter acompanhamento regular no município de Pilar, na Região Metropolitana de Maceió.

Segundo ele, a reputação negativa dos serviços de saúde mental da capital o levou a permanecer vinculado à rede de outro município, onde já havia iniciado tratamento durante um período em que residiu na cidade.

Atualmente, André é acompanhado pelo Ambulatório de Saúde Mental Mentes Brilhantes, localizado na Chã do Pilar. Para ele, a principal diferença está na rapidez dos encaminhamentos e na existência de uma rede de cuidado minimamente estruturada para atender pessoas neurodivergentes.

“Nesse Mentes Brilhantes eles também fazem encaminhamento para neuropsicólogo, o que é ótimo para quem está no processo de descoberta do autismo. E eles fornecem medicamentos. Coisa de um mês depois eu já fui encaminhado para o psiquiatra”, relata.

O estudante afirma que sua experiência contrasta com os relatos frequentes de autistas que tentam acessar os mesmos serviços em Maceió. Enquanto a capital concentra a maior parte dos equipamentos de saúde do estado, entrevistados apontam dificuldades persistentes para conseguir consultas regulares, renovação de receitas e acesso a profissionais especializados no atendimento de adultos autistas.

Diante desse cenário, municípios da Região Metropolitana têm se tornado uma alternativa para quem busca acompanhamento contínuo pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Cinthia Silva, de 26 anos, afirma que atualmente está sem qualquer tipo de acompanhamento na rede pública e descreve uma trajetória marcada por dificuldades de acesso e experiências negativas nos serviços de saúde mental de Maceió.

“No momento estou sem atendimento no SUS, mas as experiências que tive foram péssimas. Psicólogas me tratando como se eu fosse uma criança doente. E, em relação aos especialistas, é difícil encontrar nos postos de saúde. Tem um psicólogo de quem gostei aqui no posto perto de casa, mas não tem vaga. Ou seja, atendimento para autistas adultos no SUS está complicado. Não tem nos postos de saúde”, relata.

Cinthia afirma que a realidade era diferente quando residia no município vizinho, Rio Largo. Segundo ela, havia maior facilidade para acessar acompanhamento especializado e manter o tratamento de forma contínua.

“Quando eu morava em Rio Largo, no postinho perto de onde eu morava tinha psiquiatra e o atendimento foi bom”, lembra.

O relato reforça uma percepção recorrente entre os entrevistados: embora também enfrentem limitações estruturais, municípios da Região Metropolitana de Maceió têm sido vistos por parte dos autistas adultos como alternativas mais acessíveis para obtenção de acompanhamento em saúde mental.

Na capital, por outro lado, as principais queixas envolvem a escassez de profissionais especializados, a dificuldade para conseguir vagas e a ausência de uma rede de cuidado capaz de atender às demandas específicas da população autista adulta.

O Repórter Nordeste entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Maceió, por meio de sua assessoria de comunicação, para questionar a existência de demanda reprimida de autistas adultos por atendimento especializado em saúde mental na capital.

A reportagem perguntou se a Prefeitura reconhece as dificuldades relatadas pelos entrevistados e quais medidas vêm sendo adotadas para ampliar a assistência a esse público.

Também solicitou informações sobre a existência de serviços especializados para autistas adultos na rede municipal, os fluxos de acesso a acompanhamento psicológico, psiquiátrico e neurológico pelo SUS, a adoção de protocolos específicos de acolhimento e acompanhamento, além do número de autistas adultos atualmente atendidos pela rede pública de saúde do município.

A resposta oficial da Prefeitura de Maceió sobre a assistência à saúde mental de pessoas adultas no espectro autista confirma o cenário de desassistência denunciado pelos usuários ao Repórter Nordeste.

Ao ser questionada sobre a existência de serviços ou protocolos específicos para o público adulto, a gestão municipal informou que “o fluxo é o mesmo para crianças” e que o protocolo para o autismo segue a linha de cuidado da pessoa com deficiência “independente da faixa etária”.

Na prática, essa ausência de diferenciação ignora as demandas específicas da maturidade e empurra os pacientes para o topo de extensas filas de espera gerais nos Centros Especializados em Reabilitação (CER) e em instituições filantrópicas parceiras.

Segundo a pasta, o fluxo de acesso para adultos é o mesmo adotado para crianças e adolescentes, com encaminhamento para os CERs e acompanhamento multiprofissional.

A secretaria também informou que a rede municipal dispõe de neurologistas, psiquiatras e psicólogos em serviços de referência, além da possibilidade de acompanhamento em Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades Básicas de Saúde.

A administração municipal admitiu não saber quantos autistas adultos são acompanhados atualmente na capital, justificando que “o Ministério da Saúde ainda não desenvolveu um sistema próprio para verificar a quantidade por faixa etária”.

No entanto, dados estatísticos da primeira edição nacional do Mapa Autismo Brasil (MAB 2026) revelam que os adultos já representam 27,9% das pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país.

Em Alagoas e nos demais estados do Nordeste, o apagão de dados municipais colide com uma dependência vital da saúde pública, já que a região apresenta maior inserção do SUS para diagnóstico e tratamento em comparação às regiões Sul e Sudeste.

A Prefeitura indicou que, além dos CERs, “algumas pessoas no espectro podem ser acompanhadas nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades de Saúde de referência”, reforçando a importância do diagnóstico precoce.

Todavia, os dados do MAB desnudam a fragilidade dessa justificativa para quem já é adulto: 69,6% dos laudos no Brasil foram emitidos tardiamente de forma recente, entre 2020 e 2024.

Sem especialistas capacitados na atenção primária municipal, os autistas adultos de Maceió dependem de clínicas-escola e do terceiro setor, ficando à mercê de barreiras financeiras em uma região onde 35,5% das famílias ligadas ao TEA vivem com até dois salários mínimos ou nenhuma renda.

Confira resposta na íntegra:

Existe algum serviço ou equipamento especializado para o atendimento de autistas adultos na rede municipal?

O fluxo é o mesmo para crianças. Nos Centros Especializados em Reabilitação – CER. São habilitados pelo Ministério da Saúde para atender as pessoas com deficiências sem limite de idade. Além dos CERs a Rede de Saúde possui neurologistas, psiquiatras e psicólogos nos serviços de saúde de referência.

Quais são os fluxos e locais de referência para que autistas adultos tenham acesso a acompanhamento psicológico, psiquiátrico e neurológico pelo SUS municipal?

Nos Centros Especializados em Reabilitação – CER. São habilitados pelo Ministério da Saúde para atender as pessoas com deficiências sem limite de idade.

Pontos de Atenção

AAPPE
Rua Maria Breda – Jatiúca, Maceió – AL
(82) 2121-8686
ADEFAL
Rua Clementino do Monte, 312B – Farol, Maceió – AL
(82) 2121-8686
APAE MACEIÓ
Rua Radialista Haroldo Miranda, Prado, Maceió – AL
(82) 98154-0309
CER III PAM Salgadinho
Rua Mizael Domingues, 241 – Centro, Maceió – AL
(82) 3315-5311
Crescer
Rua Frei Canecas, 75 -Farol, Maceió – AL (82) 3025-5557
Pestalozzi
Rua Comendador Firmino Lopes, 242 – Farol, Maceió – AL
(82) 3201-2350
UNCISAL
Rua Jorge de Lima, 113 – Trapiche, Maceió – AL
(82) 3315-6809

Exceto a Casa do Autista que atende crianças e adolescentes
Rua General Hermes, 795 – Cambona, Maceió – AL
(82) 3201-6100
Exceto Assista Clínica Guri que atende crianças e adolescentes
Rua Empresário Jorge Montenegro, 15 – Santa Amélia, Maceió – AL
(82) 3432-3831

Existe um protocolo específico de acolhimento e acompanhamento para autistas adultos na rede de saúde de Maceió?

Há à rede como um todo para pessoas com deficiência e, o autismo entra com linha de cuidado intelectual e o protocolo segue independente da faixa etária.

Quantos usuários autistas adultos são atualmente acompanhados pela rede municipal e quais serviços concentram esse atendimento?

O Ministério da Saúde ainda não desenvolveu um sistema próprio para verificar à quantidade por faixa etária de monitoramento.

A Prefeitura reconhece a existência de uma demanda reprimida de autistas adultos por atendimento especializado em saúde mental? Em caso positivo, quais medidas estão sendo adotadas para ampliar a assistência a esse público?

O Ministério da Saúde preconiza e destaca a importância do diagnóstico precoce, de modo a seguir com a assistência na infância e promover o acompanhamento contínuo. O fluxo para adultos segue o mesmo padrão para crianças nos Centros Especializados em Reabilitação com assistência multidisciplinar. Além dos Centros , algumas pessoas no espectro podem ser acompanhadas nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades de Saúde de referência.

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