O fantasma da ditadura está de volta

João Marcos Carvalho

Hoje, 15 de janeiro de 2021, completam-se 36 anos que Tancredo Neves foi eleito presidente da República (1985), fato que encerrava o período ditatorial iniciado no nefasto 1º de abril de 1964 com o golpe militar-empresarial-midiático patrocinado pelo governo dos EUA.

Com 480 votos, Tancredo, candidato das forças de oposição, venceu Paulo Maluf, apoiado pelos golpistas, que obteve 180 votos.

A eleição foi indireta, disputada no Congresso Nacional.

No ano anterior, o povo brasileiro se mobilizou na memorável campanha das Diretas Já, quando multidões foram às ruas exigir o fim do governo discricionário imposto pelas armas.

Todos queriam eleger o presidente do Brasil.

Mas os reacionários, que formavam maioria nas duas Casas legislativas, impediram que a emenda Dante de Oliveira, restauradora das eleições diretas, fosse aprovada.

Sem outra opção, Tancredo foi à luta e venceu no Colégio Eleitoral, pondo fim aos “Anos de Chumbo”, período obscuro de nossa história, quando os militares impuseram suas vontades por meio das baionetas.

Época tormentosa em que o País assistiu uma tsunami de arbitrariedades, como a cassação de mandatos legitimamente conquistados, aposentadorias forçadas, engessamento do Judiciário, prisões ilegais, atentados à liberdade de imprensa, expatriamentos, tortura, sequestros, assassinatos e desaparecimentos de corpos de opositores.

E é justamente nesta data, que marca os 36 anos do renascimento da Democracia após 21 de ditadura, que na condição de veterano legalista, concito os defensores da liberdade a tomarem, novamente, posição de luta nas trincheiras da resistência.

Desde de 31 de agosto de 2016, quando, através de um novo golpe, uma presidenta legitimamente eleita foi destituída, abriu-se novos caminhos para aventureiros autoritários, hoje representado pela sombra sinistra da figura malígna de Jair Bolsonaro, um fascista psicopata que, há dois anos na Presidência da República, não passa um dia sequer sem cometer atentados contra o Estado Democrático e de Direito.

A relação destes crimes é tão longa que seria necessário um espaço quase infinito para publicá-la aqui.

O certo é que o capitão miliciano está, a olhos vistos, se preparando para perpetuar-se no poder por meio de um golpe dentro do golpe ainda em curso, só que desta vez armado e sangrento.

Essa ação subversiva em marcha conta com o apoio explícito e escandaloso de milícias civis – que estão sendo preparadas para ações terroristas, incentivadas pela flexibilização da compra de armas e munições – , das Forças Armadas, cada vez mais usufruindo das mamatas do poder, e das forças policiais estaduais, prestes a serem retiradas do controle dos governadores com a adoção do excludente de ilicitude, que nada mais é do que a licença para matar indiscriminadamente brasileiros considerados (sob a ótica da polícia), ferozes e nocivos ao bem-estar comum.

Neste contexto, o candidato a ditador conta ainda com uma forte aliada: a pandemia do coronavirus.

Vem daí seu desprezo pela vacina.

Ele avalia que, uma vez vacinada, a oposição vai para as ruas para derrubá-lo.

Tudo que ele teme é o povo unido.

Portanto, cabe aos lúcidos, patriotas e defensores da legalidade barrar, por todos os meios possíveis, as sandices autoritárias deste troglodita desprezado pelo mundo civilizado.

Nessa linha, evitar uma reprise catastrófica dos tempos obscurantistas, vividos entre 1964 e 85, é dever de quem acredita na Democracia como bem universal e inegociável.

E que, nesse sentido, a era bozozóica possa, finalmente, ser encerrada, lacrada e descartada no lixo da história.

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