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O amor no espiritismo laico

Todo apego literal comete excesso, perde nuance ou atrasa história. Talvez seja mesmo contraproducente cultivar manutenções com instinto meramente conservador, sem avaliar a importância das transformações.

Abrir frestas no pensamento areja a mentalidade!

Permite reformulações que podem ampliar horizontes.

Toda essa introdução positiva foi feita para afirmar concordância com Mauro Spínola, no livro “Reencarnação: um revolucionário paradigma existencial”, de que “os espíritas e as instituições espíritas em geral descuidam – mais que isso, relutam – em relação à necessidade da contínua atualização do espiritismo, claramente proposta por Kardec”.

O livre pensamento  é um campo aberto, um refúgio onde encontramos incentivo nas relações libertárias, porque existe uma compreensão tornada hegemônica de que o espiritismo é religioso, fatalista e imutável em seus conceitos de crença. Essa perspectiva corresponde a uma visão majoritária no Brasil, mas felizmente não é única.

Pois “mantém-se ainda ativo o pensamento espírita livre, voltado para a busca contínua de atualização e de real inserção e interação do espiritismo na cultura moderna”, afirma Spínola.

Allan Kardec esteve sobre as possibilidades do seu tempo, e sob muitos desafios ousou utilizar um método para fundamentar o que lhe chegava na condição de revelação, haja vista ser impossível passar um bisturi material na essência imortal para provar sua existência.

Cumpriu sua meta, compilou teorias, nem todas perfeitas e nenhuma leviana. Contudo, ainda na linha de escrita de Spínola: “Kardec estruturou o espiritismo com base no livre pensamento. Pesquisou, observou, analisou os fenômenos e propôs, com liberdade, um modelo científico para a sua compreensão, estabelecendo uma nova base para os estudos da imortalidade e da comunicação dos espíritos”.

Assim sendo, não encerrou o movimento de pesquisas sobre tão vasto tema em suas obras. Manter ativo o diálogo, com vistas a atualização do pensamento espírita, não é somente um movimento de desenvoltura intelectual, mas de contribuição para o amadurecimento humano/espiritual.

Instigada pelo laicismo espírita, associo buscas sobre reencarnação e evolução espiritual na análise dos efeitos conservadores do religiosismo, tornado parte da estrutura teórica que guia a prática dos centros espíritas principalmente no Brasil, onde vivo e observo.

Spínola pontua:

“A reencarnação, enquanto permeada por conceitos ideológicos judaico-cristãos, tem se tornado instrumento para justificar sofrimentos humanos, explicá-los com base em supostos pecados do passado, e até mesmo para considerar que são necessários e impostos por Deus para o nosso progresso. ferindo totalmente a razão, discursa-se (sempre reclamando a justiça divina) sobre possíveis causas para mortes prematuras, doenças incuráveis, acidentes graves, mortes violentas provocadas. Afastam-se a razão, a capacidade de descobrir, investigar, questionar, duvidar e analisar”.

Seguindo este raciocínio, a utilidade desta concepção ao poder dominante, promotor de desigualdades, injustiças e miserabilidade histórico/social é plena como categoria formadora do pensamento de um povo. Pois amacia os pontos que seriam críticos, elevando ao nível de sublimação para quitar débitos, distribuindo as senhas transcendentais que levarão os sofredores,  em outro tempo a uma existência de méritos (como supostamente já estão aqueles que vivem entre privilégios hoje).

Libertos das comoções, das coerções místicas e correlatas, o espírito encarnado ou não, consegue compreender com autonomia as capacidades de viver plenamente que todos teríamos na Terra, se não existissem os sistemas de exploração.

Sistemas estes que saqueiam a objetividade e subjetividade, manipulando necessidades e controlando acessos; cultivando enfermidades e e reelaborando sensações, roubando ao ser pleno a identidade de plenitude, afetando mentes e sentidos, matando a esperança da felicidade neste mundo para projetá-la através de crenças às outras experiências encarnatórias.

Há muito o que observar, sobre o que falar e principalmente, motivos para renovar atitudes, abraçando a vida grandiosa que nos permite migrar entre mundos para em coletivo proceder, conquistarmos patamares evolutivos baseados na solidariedade.

Ser espírita laico não é sinônimo de menos amorosidade, mas, ao contrário, nos libera os sentimentos para acolher nossas verdades, nos permitindo amar sem culpas, nojos, medos.

“Na perspectiva laica, o espiritismo livra-se da estrutura de pensamento religioso, mas se desenvolve em pleno e contínuo diálogo com as mais diversas formas de pensamento filosófico, científico e religioso”, diz Spínola e concordamos com ele.

Permitir renovar, liberta.

Fonte bibliográfica: SPÍNOLA, Mauro de Mesquita. Reencarnação: um revolucionário paradigma existencial. [S.I.]:CpDoc; CEPA, 2023.

 

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