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Manipulação do imaginário

Na escassez de referências sadias relativas à reprodução do pensamento, que nos faz compreender a saga humana como algo além dos interesses do mercado e dos ardis do poder, volto a olhar os clássicos, lendo como quem busca ar puro para salvar os pulmões, a vida.
Encontro Montaigne, propriamente no capítulo entitulado “A força da imaginação”.
Antes disso estou incomodada com a percepção da sociedade do descaramento que se constrói em discursos tendenciosos. Adentrando todas as instâncias, no sem limites que a ética do vale-tudo permite. Não sou adepta da teoria da culpabilização. Antes, analiso as forças de coerção que atuam sobre nós.
A manipulação do imaginário é um recurso respeitável. Montaigne então confirma esse pensamento dizendo: sou desses sobre os quais a imaginação tem grande domínio. Todos são atingidos por ela, mas alguns há que ela derruba.
Sim! Esse é o caminho para compreender os recursos de convencimento utilizados para defender o indefensável. Os mestres da defesa elaboram minucioso mapa da estrutura de valores que coibem ou liberam as reações do público previsto. Escolhem atentamente os quadros mentais a serem montados apostando no poder de influência. Mesmo na sociedade da tecnologia a imaginação ocupa grande espaço no cotidiano.
Sob os efeitos das políticas neoliberais que abrem todas as comportas em benefício do consumo exacerbado e as relíquias de uma educação pautada nos valores da ortodoxia religiosa, nossa sociedade oscila entre os mais delicados arcabouços de julgamentos, onde o poder do dinheiro e do moralismo tendem a definir os rumos da verdade aceita.
Por essa razão a maioria de nós não se indigna com o assassinato, porque antes recebemos uma lista ideologicamente marcada dos perfis dignos de morte, onde encontramos homossexuais, drogaditos, ladrões pobres (sendo rico existe o benefício do poder aquisitivo) e questionadores.
A manipulação do imaginário social legitima o descaramento, a corrupção e o crime. Por essa razão consideramos normal as mentiras ditas convencionalmente.
Terminamos então com Montaigne asseverando que é verossímil que seja por efeito da imaginação, agindo de preferência sobre as almas das gentes do povo, inclinada à credulidade, que as visões, os milagres, os encantamentos e os fatos sobrenaturais encontram quem neles mais acredite. Tanto e tão bem os doutrinaram que chegam a pensar verem as coisas que em verdade não vêem.

Uma resposta

  1. Compreendo sua colocação, no entanto preciso fazer uma ressalva: não podemos pensar no imaginário social como sendo algo homogêneo. A meu ver a realidade é afetada, em sua interpretação, por esse imaginário enlatado, apenas para a camada social distante da realidade apresentada em seus retalhos. Para a camada social que a vive ela tem outras cores e dissabores. Por isso, os resultados da manipulação não são tão previsíveis como gostariam seus autores, há muito de imprevisível, que se explorado, pode levar a resultados contrários ao que se pretendia originalmente. As vezes me pergunto se aquilo que vejo como banalização da violência já seria resultado do imprevisível da manipulação da realidade?

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