Livro de Audálio Dantas volta aos porões da ditadura

Kubitschek Pinheiro- Correio da Paraíba

Trinta e cinco anos depois da morte do jornalista Vladimir Herzog a Editora Civilização Brasileira está lançando As Duas Guerras de Vlado Herzog, de autoria do jornalista Audálio Dantas, que reconstitui todos os detalhes da prisão e morte do jornalista Herzog. O livro vai da fuga desesperada dos Herzog da Europa rumo ao Brasil à morte do jornalista na carceragem do DOI-Codi de São Paulo: refaz a trajetória do menino judeu que se transformou em uma das vítimas mais emblemáticas da ditadura militar no Brasil. O próprio autor denunciou o crime na época, quando era presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Em entrevista ao CORREIO pelo telefone, Audálio Dantas comenta que recorreu às suas próprias memórias, além de leituras, depoimentos, e da apuração rigorosa do contexto da morte de Vlado (era assim seu nome quando foi batizado na Iugoslávia – já naturalizado brasileiro, preferiu o Vladimir).

“Acompanhei, ao longo dos anos, praticamente tudo que se escreveu a respeito em jornais, revistas, livros e teses acadêmicas. A leitura de inúmeros textos levou-me à conclusão de que eu tinha uma dívida a pagar. Era preciso, em muitos casos, tentar repor a verdade dos fatos, preencher lacunas de informações, apontar inverdades e até omissões propositais. Escrever este livro tornou-se, para mim, uma tarefa irrecusável”, relata Dantas.

Sobre o título do livro, Dantas explica que a primeira guerra se deu quando o menino teve fugir dos alemães com os pais Zigmundo e Zora Herzog da Iugoslávia para a Itália: foram os horrores da Segunda Guerra Mundial.

“Fugiam da guerra que despedaçava a Europa e da perseguição nazista aos judeus. Essa é a primeira guerra do menino Vlado. A segunda, ele viveria no Brasil. A paz que ele e seus pais acreditavam ter encontrado aqui terminou um dia na escuridão de uma sala de tortura”, afirma.

Segundo ele, o livro é uma tentativa de reconstituição de um tempo ruim. “É centrado nos tumultuados dias de outubro de 1975, quando a fúria dos agentes do lado mais escuro da ditadura militar golpeou a fundo a categoria dos jornalistas”, comentou e segue: “Mostra também os acontecimentos do ponto de vista de quem os viveu intensamente. Eu, por exemplo, que não tenho dúvidas de que aqueles foram os dias mais angustiantes da minha vida. Ninguém esquece o culto ecumênico no dia 31 de outubro daquele ano”, lembrou.

Vlado ou Vladimir desembarcou com a família no Brasil em dezembro de 1946 e, com sacrifício, foram acolhidos em São Paulo por uma congregação israelita. Homem de esquerda ligado ao teatro popular de Augusto Boal, ao Cinema Novo e à toda efervescência do Brasil pós-golpe militar, em 1966 Herzog foi morar em Londres e trabalhar na BBC.

Vlado era o marido de Clarice, que se tornou personagem da canção “O bêbado e a equilibrista”, o clássico de João Bosco e Aldir Blanc. O miolo do livro é cheio de fotografias como a do filho Ivo, que aos dez anos dá as costas para o Brasil e contempla a foto do pai, no Auditório Vladimir Herzog do Sindicado dos Jornalistas de São Paulo.

Quando indagamos sobre a possibilidade do livro virar filme, o autor se emocionou. “Evidente, seria muito bom”. E acrescenta: “Ao escrever este livro, não tive a pretensão de esgotar o assunto, mas, sim, acrescentar novas informações e jogar um pouco mais de luz sobre o que se pode considerar um dos capítulos mais importantes da história recente do Brasil”.

Audálio Dantas é nordestino: nasceu em Tanque d`Arca, Alagoas, em 1932. Em 1954 começou como repórter da Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo). Indagado se seu livro vai chegar aos olhos gerações futuras, o autor foi enfático: “Claro, está aí o Vlado que muita gente não sabia e poderá continuará não sabendo. Aliás, está aí minha contribuição”.

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