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Janeiro Crítico: algumas questões para a Psicologia Alagoana

As minhas pesquisas sobre a Psicologia no Estado de Alagoas me levaram a economia política para compreender o fator primordial na conformação de atuações tradicionais e “acríticas” em Psicologia no Estado. A questão aqui não é apenas questionar “modelos tradicionais” em Psicologia, mas sobretudo implicar a realidade local no quefazer do psicólogo. Isto é, entender a determinação de questões sociais subjacentes as formas de dominação social no Estado e de que maneira o subdesenvolvimento, atrelado a um regime sócio-político de violência são agravantes no sofrimento psíquico da população, mas também no impacto no desenvolvimento psicossocial, comunitário e promoção humana.

Fica evidente neste território as contradições que emergem deste emaranhado de tendências históricas em permanência, mas também em contraste com aspectos modernos e tecnológicos. A questão da pobreza, por exemplo, tece suas raízes históricas no passado colonial e na estrutura que sustenta privilégios e servidão. Ora, o que pode o psicólogo em Alagoas? E qual os limites e desafios de sua prática? São perguntas que, apesar de aparecerem como novidade, são questões que circulam no universo Psi a muito tempo, mas a despeito das particularidades locais não avançaram ou se materializam em uma nova práxis.

Neste texto em particular não entrarei em pormenores sobre a formação em Psicologia, vale um outro texto só para isso. Mas cabe, porém, considerar que muitas de nossas dificuldades vêm da formação e de nossa incapacidade de superar academicismos, um excesso de tecnicismo e idealismo que se manifestam na romantização do “olhar do psicólogo”.

Entretanto, se trata menos do que o psicólogo consegue “ver” na sua prática que desvela conteúdos individuais no fenômeno psicológico, pois sabemos da importância dessas nuances. É interessante que este olhar possa estar além desse pressuposto básico da prática em Psicologia e se inserir no fenômeno a partir da descodificação da experiência cotidiana comum, entendendo que o sujeito e suas manifestações psíquicas e comportamentais são mais do que aparentam ser de forma isolada, mas condicionados por situações sócio-históricas.

O psicólogo alagoano, a despeito de seu “mutismo profissional” (veja aqui), não deixa transparecer o que vive nas entranhas do seu lugar-comum, ou de sua acomodação a realidade opressora como seu modo “natural” e “comportado” de ser (veja aqui). O que se espera do psicólogo, como um profissional da docilidade, é a calma e a capacidade de “conciliar” visões divergentes, dando ênfase, é claro, ao ganho dos mais poderosos e “donos do poder”.

A nossa miséria, no entanto, se encontra no status de “profissional palestrante” onde a voz é concedida por terceiros na intenção de fazer crescer seu “nome”, clamando por espaço entre os “de cima” mesmo que exista um infinito de possibilidades entre os “de baixo”.

Nas entrelinhas das palavras a cima há circunstâncias concretas que decidimos ignorar, mas que se apresentam para nós de maneira contundente neste momento de crise econômica e sanitária: não estamos conseguindo maior inserção na sociedade alagoana através do mercado de trabalho “típico”. Ou seja, a partir de modelos tradicionais em Psicologia.

A maior evidência desta hipótese é que há um hiato no mercado de trabalho que se estende da clínica até a escolar e desta até a organizacional e do trabalho. Este hiato será melhor trabalhado a seguir. Logo, precisamos de mais espaços de atuação e isso envolve consonância com a realidade concreta da nossa população, que, afinal de contas, também é a nossa. Para isso precisamos qualificar nossa análise nos seguintes aspectos:

1 O Subdesenvolvimento Regional

2 Estrutura Produtiva pouco diversificada

3 Índices Socioeconômicos Negativos

4 Regime Político Violento

O primeiro ponto que temos a considerar é efeito, mas também causa, dos outros pontos da análise. O controle político e econômico do Estado tem raízes históricas no latifúndio e na economia voltada à exportação. A literatura disponível sobre a economia alagoana direciona causa comuns ao subdesenvolvimento, mas também enfatizam o papel do regime político para sustentar o controle do excedente econômico nas mãos de alguns poucos (Cícero Péricles, 2014; Fábio Gomes, 2014; Guilherme Lopes, 2017). É unânime a percepção da alta concentração fundiária e de renda no Estado, bem como a existência de entraves políticos através de “manobras” e “acordos” entre os “de cima” para garantir lucro em momentos de “crise”.

Portanto, fica evidente a situação problemática na economia alagoana que se não é vista como crônica, deve ser vista como especificamente desenhada para manutenção das estruturas de dominação e enriquecimento ligados a oligarquias locais, sobretudo com vínculos na atividade canavieira e ao poder político.

A hipótese de Lopes sobre o movimento de especialização regressiva da economia alagoana a partir do setor sucroalcooleiro se soma a de involução econômica levantada por Guedes e são a base constitutiva da situação socioeconômica de penúria diária à população, sejam habitantes de regiões rurais ou urbanas. O aumento na densidade demográfica na capital (Maceió), mas também nos centros urbanos de destaque no interior, aumentam a tensão nas cidades por conta do déficit habitacional e o desemprego. O aumento no setor de serviços e comércio até em pequenas cidades interioranas existe através da ajuda expressiva de políticas sociais e de distribuição de renda, fato especificamente apontado pelos economistas como característico das últimas décadas na região Nordeste.

O fato é que os psicólogos, conscientes ou não, sofrem com o impacto desta estrutura produtiva e economia subdesenvolvida que tem como característica a estagnação. A carência de indústrias e geração de emprego em setores diferenciados, prejudicam, então a atuação profissional dos psicólogos nas áreas de trabalho voltadas ao contexto industrial, ao contexto organizacional e do trabalho de um modo geral, seja focada em recrutamento e seleção ou no desenvolvimento e capacitação de pessoal.

O desemprego acentuado tem como consequência a informalização do trabalho e a precarização da maioria da população, sendo o serviço particular em Psicologia (geralmente clínico) algo extremamente restrito, um luxo que uma grande parcela da população não pode pagar. Isto se intensifica nas áreas e regiões interioranas e rurais do Estado, onde a pobreza se acentua e as poucas alternativas econômicas sufocam os sujeitos em modos de vida extremamente opressores e precários.

Portanto, esta área acaba se restringindo a espaços privados de atuação, o que não é diferente no contexto escolar onde as atuações permanecem tradicionais, individualizantes e com forte presença na rede particular de ensino, sobretudo as escolas da classe média e rica da capital e de interiores de maior dinamismo econômico. Já a clínica particular, atividade mais comum em Psicologia, também apresenta as mesmas características citadas a cima.

A grande questão é que todos estes fatores interferem na média de preços dos serviços em Psicologia, na renda mensal dos psicólogos em atuação, na qualidade dos vínculos trabalhistas, na informalidade do trabalho do psicólogo, na necessidade de complementar renda em outras áreas e serviços, na submissão a contextos de trabalho precários e jornadas de trabalho intensas, na oferta de serviços voluntários ou sem ganhos consideráveis, na qualidade do serviço prestado, na dificuldade de manter a carteira profissional ativa (pagamento de anuidade ao Conselho Regional de Psicologia), na implicação social do trabalho e na eventual desistência da profissão pelos profissionais.

Este contexto somado a carência de estudos específicos sobre o trabalho do psicólogo em Alagoas não é sintoma isolado, é efeito da cronicidade de nossa dependência técnica e científica de outras regiões do país. O que temos como panorama geral das tendências em desenvolvimento no Estado é a abertura de mais cursos de Psicologia com concentração no setor privado, também incentivados por políticas e programas de financiamento a formação superior. O que acarreta em mais profissionais no mercado e a pouca disponibilidade de emprego até nas áreas consideradas tradicionais.

Esta é a base material da desvalorização sistemática dos nossos serviços, mas não só. É, sobretudo, a restrição do nosso quefazer e compromisso ético-político com as maiorias populares por conta da conformação ideológica que se levanta a partir desta situação histórico-concreta. Para entendermos melhor este contexto é preciso levar em consideração a ênfase no individualismo e em uma Psicologia de mercado que existe desde a formação.

Neste contexto, a Psicologia adquire uma função modernizadora das relações entre indivíduos em “liberdade”, na promoção de características individuais e sobretudo portadora de um know-how diferenciado sobre a vida humana, sobre a expressão emocional e afetiva de sujeitos e comunidades, sobre a capacidade de resiliência, invariavelmente vazia e descontextualizada e de como fazer a assepsia e categorização de sujeitos indesejáveis, ou comportamentos socialmente inviáveis e desadaptativos ao modo de produção capitalista. A disciplina, como componente normatizador, é o eixo primordial desta concepção de Psicologia; sua relação com o mercado e a ideologia do indivíduo neoliberal cria manifestações problemáticas de “psicólogos empreendedores” e dispositivos de culpabilização individual.

Entra em cena a criação de novos nichos de mercado a partir desta tendência em processo de criação de hegemonia: a Psicologia do Empreendedor, a Psicologia que facilita o sucesso, a Psicologia pragmática que lança os indivíduos à modernização, às tendências tecnológicas e ao crescente processo de flexibilização do trabalho, já que o desejo natural do mundo moderno é um “homem novo, multifuncional, focado, disciplinado”, etc.

É este tipo de Psicologia, com tendência ao irracionalismo e a mistificação da realidade, que tem ganhado força nos ambientes acadêmicos e nas palestras dos profissionais que trazem as “boas novas”, todas “vindas de fora” e por isso são eventos “pagáveis”, mesmo que no quesito realidade concreta da profissão esteja muito distante da nossa vida cotidiana.

Isto acontece por razões específicas da história de Alagoas, sobretudo, seu frágil desenvolvimento econômico, sua não inserção nos círculos críticos em geral vindos do Sul e do Sudeste e pôr a maioria dos profissionais não encontrarem nas condições econômicas locais outros nichos de atuação, ou até mesmo o usufruto. em totalidade, do conhecimento vindo de outras regiões. Tudo o que é de fora configura o que tem de “melhor” e mais novo em Psicologia, pois aqui “não tem” viabilidade, pois há algo de “utópico” no conhecimento psicológico aplicado às Alagoas.

O descompasso entre teoria e prática não deve ser visto por nós como natural, mas um movimento contraditório em processo de síntese. Isto é, teoria e a prática não são unidades isoladas, mas imbricadas. O que aparece como negação de partes mascara o fato de que toda prática precede uma teoria e de maneira similar o seu inverso: toda teoria precede uma prática. O aparecimento desta contradição fundamental nos coloca de frente a uma questão histórica de defasagem técnica e científica na produção de uma teoria/prática voltada a sujeitos ideais e a partir da representação (componente imagético-discursivo) de sujeitos de outra formação sócio-histórica.

A domesticação teórico-prática faz parte do bojo de características que se naturalizam no cotidiano do psicólogo formado ou em formação. O impacto em seu trabalho se dá em vários níveis e sobretudo carrega para longe do seu horizonte a politização das relações de trabalho e o inegável processo de proletarização e precarização do trabalho do psicólogo nas últimas décadas.

A ideia de que a pandemia geraria a necessidade e a procura por serviços psicológicos particulares (atendimento clínico) foi e é uma visão equivocada. Esta percepção não tem como base a realidade material dos sujeitos alagoanos. Se por razões específicas os casos de ansiedade e depressão atingem níveis alarmantes, esta situação não configura imediatamente e de maneira necessária a procura por profissionais. A quantidade de pessoas empobrecidas no Estado se agrava na pandemia, mas já era uma realidade antes dela.

Este cenário gera um continuum de descompasso teórico-prático, inadequação epistemológica e crise prolongada da Psicologia e de seu papel na sociedade alagoana que permanece pobre, marcada por violência política e institucional direcionada as camadas populares e pauperizadas da capital ao sertão. Do ponto de vista crítico, almejando outros caminhos para o conhecimento Psi em Alagoas, haveremos de questionar as estruturas que nos aprisionam e que tornam nosso “olhar” distante do povo.

Saiba mais:

Carvalho, C. P. (2014). Economia Popular: uma via de modernização para Alagoas. (Ed. rev.). Maceió: EDUFAL.

Gomes, F. G. (2014) Ensaios sobre o Subdesenvolvimento e a Economia Política contemporânea. São Paulo: Hucitec.

Lopes, G. C. L. A. (2017, setembro) Estrutura produtiva de Alagoas: O movimento de especialização regressiva (1985-2010). Anais do VIII Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Regional, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil, 8, recuperado de https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/sidr/article/view/16846

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