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Como movimentar o psicólogo estagnado?

Quando Silvia Lane lança a proposta do comprometimento da psicologia com as transformações sociais necessárias ao nosso contexto, ela rejeita os pressupostos teóricos americanos e distantes da nossa materialidade histórica.

E não por acaso: ela procura, a cima de tudo, afirmar a capacidade da psicologia em compreender sistematicamente a realidade que estamos inseridos.

De modo que torna plausível e necessário o conhecimento, em profundidade, dos desafios sociais e políticos do nosso povo, pois ele é determinante na prática e qualidade do fazer psicológico em qualquer área de atuação.

Se por um lado a psicologia brasileira produziu bastante nas últimas décadas, por outro, precisa, a partir de agora, entender a dinâmica das relações sociais atuais levando em consideração a conjuntura política e econômica vigente.

Não podemos deixar de nos posicionar, enquanto categoria profissional, contra as relações que se estabelecem entre ideologia dominante e psicologia.

Que, em última instância, aparece com frequência em nosso contexto seja através da criação da anomia através das práticas institucionais, como por exemplo, políticas de cerceamento da liberdade de expressão e de posicionamento político ou na criação de práticas discriminatórias, discursos de ódio e disseminação da violência política, através de estratégias de manipulação  do conhecimento psicológico, para coadunar com práticas, discursivas ou não, de criminalização da esquerda e do progressismo no Brasil.

Não dá para se abster das condições materiais que a maioria da população em Alagoas, por exemplo, vive e constrói seus modos de vida.

É verdade que descobrem vias de sobreviver em meio a estagnação econômica e social deste Estado, mas não podemos negar o fato de que precisam da atuação contundente e qualificada de um profissional da psicologia para compreensão, acompanhamento e inserção nas camadas pobres e desassistidas através de uma perspectiva libertadora, emancipatória e política.

Se nossos colegas renegam a política e tentam balancear o mal-estar diário que vemos em nossa sociedade com campanhas que apenas atingem a população da orla de Maceió, por exemplo, estamos falhando enquanto categoria neste momento histórico de arrocho salarial, crise econômica e violência estatal através de cortes em áreas fundamentais para a  manutenção da qualidade de vida e bem-estar psicossocial da maioria dos moradores do nosso Estado (Alagoas) e da nossa cidade (Maceió).

Não podemos cair na ideia, construída pelo mercado, de que somos “profissionais liberais” e por conta disso devemos estar alheios às necessidades históricas e ao solapamento das pessoas que vivem em regiões periféricas, em situação de rua ou sem acesso a saúde, educação e a cidadania.

De outro lado, porém, compreendo que sofremos com a falta de postos de trabalho, apesar da demanda, e com o isolamento que destinam de modo violento os profissionais de psicologia.

Tornou-se lugar comum sofrer com a desvalorização paulatina destes profissionais em nossa sociedade, pois bem cedo descobre-se os atravessamentos políticos municipais e estaduais que ditam os critérios de seleção profissional através do apadrinhamento e indicação política.

Este também é nosso contexto e não podemos isentarmo-nos da responsabilidade histórica deste tipo de acontecimento.

Quando vamos fortalecer nosso sindicato?

Quando vamos lutar por postos de trabalho e condições justas e igualitárias para a contratação e seleção de pessoal?

O mundo não parou, meus caros, e o homem em movimento é o fato que Silvia Lane, com toda sua potência intelectual, buscou compreender através da dialética do materialismo histórico.

Neste mundo de competição de forças políticas nós temos nos ausentado, ficando sentados em nossas cadeiras na academia e formando lacunas na práxis fundamental a nossa ciência e profissão.

Se toda psicologia é social e política, o que temos produzido com posturas de pureza apolítica e “neutra” é aprofundar o abismo da desvalorização e do desmonte do trabalho digno.

Cobrar nosso protagonismo histórico é levantar a estima de nossos estudantes e profissionais.

Não podemos ouvir que fazemos psicologia apenas por amor, se na prática não estamos nos amando enquanto categoria trabalhadora, autônoma e de extrema relevância na sociedade que vivemos.

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