Por Silvio Rodrigo, autista nível 1 de suporte (será?)
Nos últimos meses, observa-se uma intensificação significativa dos discursos sobre autismo nas redes sociais e na mídia, especialmente em torno do chamado autismo nível 1 de suporte.
Longe de se tratar de um simples aumento de interesse público, o fenômeno revela uma reconfiguração mais profunda: a emergência de uma narrativa que combina desconfiança, moralização e disputa política em torno do diagnóstico e dos direitos das pessoas autistas.
Uma das ideias centrais que tem ganhado força é a de um suposto “inflacionamento” dos diagnósticos.
Sob essa perspectiva, haveria um crescimento artificial do número de pessoas identificadas como autistas, motivado não por avanços nos critérios clínicos ou maior acesso à informação, mas por interesses individuais, como a busca por benefícios sociais, reconhecimento ou pertencimento.
Essa leitura, embora frequentemente apresentada como técnica ou neutra, carrega implicações políticas claras.
O eixo organizador dessa narrativa é a noção de funcionalidade. Indivíduos classificados no nível 1 de suporte passam a ter sua condição questionada sob o argumento de que seriam suficientemente “funcionais” para não se enquadrarem como pessoas com deficiência.
A partir daí, estabelece-se uma hierarquização interna: aqueles com maiores necessidades de suporte são mobilizados como parâmetro para deslegitimar os demais.
Em vez de ampliar o debate sobre direitos, constrói-se uma disputa por legitimidade baseada na intensidade do sofrimento e na capacidade produtiva.
Esse movimento não ocorre no vazio. Ele é impulsionado, em parte, pela lógica algorítmica das plataformas digitais, que privilegia conteúdos polêmicos, simplificadores e emocionalmente carregados.
O autismo, assim como outras categorias da saúde mental, passa a ser explorado como tema de alto engajamento dentro da economia da atenção.
Ao mesmo tempo, há uma dimensão política evidente: questionar diagnósticos e restringir o reconhecimento de direitos dialoga diretamente com agendas de contenção de gastos públicos e redefinição do papel do Estado.
Há ainda uma terceira camada, de caráter aparentemente mais sofisticado, que mobiliza argumentos acadêmicos para relativizar os diagnósticos.
A ideia de que categorias psiquiátricas não seriam “ontológicas”, mas construções históricas e sociais, é deslocada de seu contexto crítico e apropriada de maneira simplificada.
O que poderia servir a uma análise complexa das classificações médicas passa a ser utilizado como ferramenta de deslegitimação da experiência concreta dos sujeitos.
Nesse cenário, um elemento ganha destaque particular: a mobilização da categoria de identidade.
Parte desses discursos sustenta que indivíduos diagnosticados estariam adotando uma “identidade autista” de forma voluntária e até oportunista.
O diagnóstico, nesse enquadramento, deixa de ser um instrumento clínico e político e passa a ser tratado como um rótulo ao qual o sujeito adere para explicar suas dificuldades, comportamentos ou traços de personalidade.
O efeito mais significativo dessa operação é o deslocamento da responsabilidade pelo estigma.
As barreiras sociais, o capacitismo e os processos históricos de exclusão deixam de ser centrais na análise.
Em seu lugar, emerge a figura de um indivíduo que “se rotula”, que “se identifica demais”, que usaria o diagnóstico como justificativa para seu suposto “mau funcionamento”.
O problema, assim, é individualizado.
Essa leitura ignora um aspecto fundamental: a identidade não se constitui de forma isolada.
O reconhecimento como autista é mediado por instâncias externas: família, escola, instituições médicas e o próprio Estado.
Antes de ser uma identidade assumida, o diagnóstico é uma atribuição.
Reduzi-lo a uma escolha pessoal é apagar o conjunto de relações sociais que o tornam possível e significativo.
A partir dessa simplificação, consolida-se uma figura moral específica: o “doente pela identidade”.
Trata-se de um sujeito sob suspeição permanente, cuja legitimidade é questionada não apenas em termos clínicos, mas éticos.
No caso do autismo nível 1, essa figura é frequentemente associada à ideia de desvio: alguém que não se adapta, que não corresponde às exigências de produtividade e que recorreria ao diagnóstico como forma de justificar sua inadequação.
Essa construção se articula com uma crítica mais ampla à contemporaneidade.
Elementos como o uso intensivo de redes sociais, o “excesso de telas” e as transformações nas formas de sociabilidade são mobilizados como explicações para uma suposta degeneração dos comportamentos.
O sujeito autista, nesse enquadramento, deixa de ser alguém que demanda reconhecimento e suporte e passa a ser interpretado como sintoma de um mundo em crise.
O resultado é a produção de um pânico moral difuso, no qual determinadas formas de existência são tratadas como ameaça.
A noção de direitos universais é corroída e substituída por uma lógica de escassez e competição: não se discute a ampliação de garantias, mas quem “merece” mais ou menos acesso a elas.
Do ponto de vista histórico, esse movimento reatualiza mecanismos antigos de exclusão.
A ideia de que certos sujeitos são “menos funcionais” ou “menos adaptáveis” sempre operou como justificativa para sua marginalização.
O que muda, agora, é o vocabulário: a linguagem da produtividade, da eficiência e da racionalidade econômica substitui formas mais explícitas de estigmatização, mas mantém sua estrutura.
No limite, o que está em disputa é o próprio significado de inclusão.
Entre uma perspectiva que a entende como responsabilidade coletiva, implicando transformações sociais, e outra que a reduz à adaptação individual.
Talvez o aspecto mais inquietante desse processo seja a naturalização da suspeita como forma de relação social.
O autista, sobretudo aquele que escapa aos estereótipos mais visíveis, passa a ocupar o lugar de uma presença incômoda, permanentemente questionada.
Não porque não exista, mas porque sua forma de existir tensiona expectativas normativas de comportamento, produtividade e adaptação.
Nesse sentido, o debate atual diz menos sobre quem são os autistas e mais sobre o tipo de sociedade que estamos dispostos a sustentar.










