A fabricação do “falso autista” no Brasil da escassez

Fala sobre autismo nível 1 gera polêmica no Roda Viva

Por Silvio Rodrigo, autista nível 1 de suporte

A recente entrevista do neuropediatra Salomão Schwartzman ao programa Roda Viva (06/07) não apenas repercutiu, ela operou como catalisadora de um processo social já em curso: a intensificação de manifestações capacitistas direcionadas, sobretudo, a adultos autistas classificados como nível 1 de suporte, anteriormente designados sob a rubrica de síndrome de Asperger.

O ponto mais sensível da fala de Schwartzman não reside apenas no questionamento da noção de espectro, conceito consolidado nas últimas décadas no campo da psiquiatria e da psicologia, mas na insinuação de que haveria uma espécie de “fraude diagnóstica” generalizada.

Segundo essa perspectiva, indivíduos estariam se apropriando da identidade autista para acessar supostas “benesses” garantidas por lei, uma vez que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é juridicamente reconhecido como deficiência.

Essa formulação não emerge no vazio. Ela dialoga com uma gramática política mais ampla, historicamente mobilizada em contextos de crise: a construção de sujeitos suspeitos de usurpação indevida de direitos.

Trata-se de um dispositivo retórico recorrente, que desloca o foco das insuficiências estruturais do Estado para a moralidade dos indivíduos que acessam políticas públicas.

No caso brasileiro e, mais amplamente, nas formações sociais marcadas pelo capitalismo dependente, esse deslocamento ganha contornos ainda mais agudos.

A precarização das condições de vida, aprofundada por décadas de políticas neoliberais, não apenas reduz o acesso a direitos, mas também reorganiza o campo dos afetos sociais.

A escassez material converte-se em escassez simbólica: direitos passam a ser percebidos como privilégios, e não como garantias universais.

É nesse terreno que se enraíza o que podemos chamar de ressentimento social. Longe de ser apenas um sentimento individual, trata-se de uma estrutura afetiva coletiva, amplificada pelas redes digitais, que opera por meio da comparação e da hierarquização da dor.

O autista nível 1, frequentemente invisibilizado em suas dificuldades por não corresponder ao estereótipo clássico da deficiência, torna-se alvo privilegiado dessa dinâmica.

Sua existência tensiona categorias simplificadoras: não é “deficiente o suficiente” para merecer direitos, nem “normal o suficiente” para escapar da marginalização.

Historicamente, contextos de crise econômica e social profunda têm produzido moralidades punitivas.

No período entre guerras do século XX, regimes fascistas institucionalizaram essa lógica ao transformar populações consideradas “improdutivas” ou “desviantes” em alvos de políticas de eliminação.

O próprio Hans Asperger, cuja obra foi posteriormente reapropriada de forma ambígua, esteve inserido em um contexto em que crianças com deficiência eram classificadas segundo critérios de utilidade social, distinção que, em muitos casos, determinava sua sobrevivência.

Evidentemente, não se trata de estabelecer equivalências simplistas entre contextos históricos distintos.

No entanto, há uma continuidade estrutural na forma como crises produzem dispositivos de exclusão: a intensificação da vigilância moral sobre determinados grupos e a legitimação de discursos que questionam sua legitimidade como sujeitos de direitos.

No presente, o que se observa não é a ausência de dados, embora seja relevante notar que alegações sobre “epidemias de falsos diagnósticos” carecem de respaldo empírico robusto, mas a irrelevância dos dados diante da economia do ressentimento.

Uma vez instaurada, essa economia não se orienta pela verificação factual, mas pela necessidade de produzir culpados.

Assim, a figura do autista nível 1 emerge como bode expiatório funcional: alguém suficientemente próximo para ser comparado, mas suficientemente diferente para ser deslegitimado.

Em um cenário de retração de direitos e aprofundamento das desigualdades, a pergunta que se impõe não é por que tais discursos encontram ressonância, mas por que eles se tornam socialmente necessários.

A resposta, ainda que incômoda, aponta para o coração do problema: em sociedades estruturadas pela escassez e pela competição, a empatia torna-se um recurso raro.

E, quando isso acontece, o reconhecimento do outro deixa de ser um imperativo ético para se tornar uma ameaça política.

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