Diário do Nordeste
Jorge Amado foi generoso com as câmeras, ainda que nem sempre a recíproca tenha sido verdadeira. A produção audiovisual baseada em sua obra é enorme, mas marcada por altos e baixos, indo desde o grande sucesso de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), de Bruno Barreto, até sua constrangedora versão norte-americana “Meu Adorável Fantasma” (1982), dirigida por Robert Mulligan. O escritor é o brasileiro mais adaptado para cinema e televisão, e não só por aqui.

Acima: Tieta, de Cacá Diegues, e Jorge Amado em companhia de Sônia Braga. Ao centro, Juliana Paes em “Gabriela”
Uma busca no site iMDb (Internet Movie Database) revela que seus livros já renderam filmes em países tão distantes quanto Egito e Checoslováquia. “Gannat al shayateen” (2000), de Oussama Fawzi, é a versão de “Dona Flor” em árabe e “Podzemí svobody” (1997) foi rodado para a TV como uma adaptação do romance “Os Subterrâneos da Liberdade”.
Versões
A primeira transposição para o cinema de um livro de Jorge Amado aconteceu em 1948, quando o norte-americano Edmond Bernoudy rodou “Terra Violenta”, baseado em “Terras do Sem Fim”. Depois veio “Seara Vermelha” (1964), do italiano Alberto d´Aversa, adaptado do livro homônimo – e um tanto esquecido – sobre a destruição de uma família que tem que se mudar para cidade grande. Ambos foram gravados no Brasil. O longa “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dirigido por Bruno Barreto, então com apenas 21 anos, se tornou um marco do cinema nacional. Sustentou durante 34 anos o recorde de público para um filme brasileiro, com quase 11 milhões de espectadores, em uma época em que a população brasileira era de 100 milhões de pessoas. Ou seja, de cada dez brasileiros, um entrou no cinema para assistir “Dona Flor”. O recorde só foi quebrado, em 2010, por “Tropa de Elite 2”, que o superou em 1.470 espectadores.
Depois da película, a protagonista Sônia Braga se tornou um ícone do universo de Jorge Amado no cinema e na televisão e referência de “baianidade” – apesar de ter nascido no Paraná. A combinação Jorge Amado, Bruno Barreto e Sônia Braga se repetiu em 1983, com a gravação de “Gabriela, Cravo e Canela”. Apesar de mais uma vez Sônia se mostrar convincente como a protagonista ingênua e sensual e dos apoios luxuosos de Marcello Mastroianni como o turco Nacib e de Tom Jobim na trilha sonora, o filme não conseguiu obter o mesmo sucesso de público e crítica de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”.
Nos primeiros anos da retomada do cinema brasileiro, o diretor Cacá Diegues também rendeu suas homenagens a Jorge Amado, com sua versão, filmada em 1996, de “Tieta”. Mais uma vez Sônia Braga é a protagonista baiana, e o filme começa com uma bênção do próprio Jorge Amado.
No ano passado, sua neta, Cecília Amado, fez sua estreia no cinema e não se intimidou de levar às telas um dos mais famosos romances do avô, “Capitães da Areia”.
Televisão
A televisão também bebeu (e ainda bebe) da fonte da literatura de Jorge Amado. No dia 19 de junho, estreia na Rede Globo a novela “Gabriela”, escrita por Walcyr Carrasco e protagonizada por Juliana Paes. É um desafio e tanto, se considerado que a primeira versão, adaptada por Walter George Durst em 1975, com Sônia Braga no papel-título rendeu uma das novelas mais marcantes da TV brasileira.
Jorge Amado parecia ter uma boa relação com a Rede Globo, que transformou vários de seus livros em novelas e minisséries. “Terras do Sem Fim” (1981) foi uma novela baseada nos romances “Terras do Sem Fim”, “Cacau” e “São Jorge dos Ilhéus”. “Tieta do Agreste” deu origem à novela “Tieta” (1989), que se destacou pelos embates entre a protagonista, vivida por Betty Faria, e sua irmã, Perpétua, de Joana Fomm, recheados de bordões.
Já na virada do milênio, o escritor baiano se mantinha como aposta da emissora. “Porto dos Milagres” (2001) foi baseada nos romances “Mar Morto” e “A Descoberta da América pelos Turcos”. Entre as minisséries, a Globo emplacou “Tenda dos Milagres” (1985), “Capitães da Areia” (1989) e “Tereza Batista” (1992), com Patrícia França, versão de “Tereza Batista Cansada de Guerra”. “Dona Flor e Seus Dois Maridos” virou minissérie em 1998, com Giulia Gam, no papel que havia sido de Sônia Braga no cinema. O texto foi adaptado por Dias Gomes (em seu último trabalho na TV), Marcílio Moraes e Ferreira Gullar. Convidado a escrever novelas, nunca aceitou. Em entrevista ao “Estado de S. Paulo”, em 1981, lembrou da oferta. “Recusei, dizendo que não se tratava de preço, mas que não era capaz de fazer o que me pediam”.







