Coaracy Fonseca: O cafetão de jogadores e o inusitado

Coaracy Fonseca é promotor de justiça e ex-procurador Geral de Justiça Os nossos olhos são verdadeiras lentes de uma máquina fotográfica de última geração….

Coaracy Fonseca é promotor de justiça e ex-procurador Geral de Justiça

Os nossos olhos são verdadeiras lentes de uma máquina fotográfica de última geração. Há pessoas que são dotadas de uma percepção diferenciada. De onde vem, ninguém sabe, talvez a ciência venha a explicar um dia.

Lisboa, muitos anos atrás. Um viajante de soslaio fitou, na fila do aeroporto ao retornar à terra mãe, o olhar de um indivíduo sutil e, de um flash, tirou a fotografia de sua alma pútrida e insidiosa, própria dos covardes e pusilânimes, de seres rastejantes, destituídos, por completo, de caráter.

Era o cafetão de jogadores.

Um indivíduo sutil, nascido já em vestimenta de libré, a roupa própria dos lacaios. Como todo rufião de luxo, transita com pés de seda pelos corredores dos Palácios Reais para ofertar seus préstimos e introduzir em meio aos ansiosos por prazer seus produtos de mercância que, ao tempo em que se despiam, colhiam informações próprias da alcova, segredos preciosos, que serviriam, em momento certo, para o objetivo alvitrado pelo rufião, que se valia de mulheres públicas – “sendo ele um homem “público” – e também miseráveis, tudo visando ao seu propósito mor: sentar ao lado dos príncipes, valendo-se de chantagens.

Sempre pronto a agradar, é mestre da alcovitagem e chaleira de primeira linha. Os príncipes, talvez embevecidos pelo prazer ou receosos de um escândalo público, não percebiam o perigo que aquele ser da escória da humanidade representava para eles e suas famílias, pois seus objetos de venda adentram aos lares e com primorosa inteligência criam laços de amizades sinceras, “aparentemente sinceras”. Ora, quem já não contou segredos a um amigo ou uma amiga prestativa, sempre disposta a ajudar?

Da casa grande, mantida com dinheiro público, o cafetão e seus agregados, abrigavam o QG. De lá, de onde se acham donos, e não são, pois ninguém é dono daquilo que não lhe pertence, ofertam seus produtos legais e ilegais, pois o lenocínio e o tráfico de pessoas para fim de prostituição ainda é crime no Código Penal, se houver conexão internacional é da competência da Justiça Federal.

Seguindo nessa linha de realismo fantástico, vertente literária que muito aprecio, dizia-se, à boca miúda, que o cafetão, por ser aliado de um grupo mafioso, tinha acesso a informações de inteligência e segurança pública. Que perigo, meu Deus! A segurança das pessoas entregue em mãos de uma escória.

À boca miúda, também se dizia, que uma alta autoridade da República imaginária, que pontificava em um grande Palácio Real, seria o seu protetor, do rufião de luxo. Mas, nos tempos incertos em que vivemos, esta própria autoridade talvez não saiba que, quanto maior o cume, maior a queda.

Confiar em cafetão é um perigo, pois são mercadores, não têm pátria. Assim nos ensina a história da humanidade.

Hoje acordei com a esta estória imaginária em minha mente, que integrará a minha coletânea de crônicas inusitadas, na vertente do realismo mágico ou fantástico.

Ler é o melhor remédio.

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