Inicio este texto sem a pretensão de tudo saber, pois a vastidão de saberes livres traz a beleza do inalcançável que marca uma existência terrena, que por sua vez, sempre pode ser limitada a territórios e guetos.
Pular o estigma de gueto é hoje uma meta firmada, uma liberdade vestida após todas as investidas da sociedade repressora da qual já perdi o temor.
Como pessoa proibida de aproximar de terreiros, cresci analfabeta nas vozes dos tambores; hoje me custa reaver partes da riqueza cultural e de fé que permeia e movimenta a relação espiritual que interliga África e Brasil, no contato tardio com a Umbanda.
Contudo, foi no Espiritismo que troquei medo por respeito às inteligências desencarnadas, e nestes caminhos, conheci um Preto Velho que me acolheu amorosamente no doloroso luto que vivenciei. Quando não suportava mais ouvir gente burguesa e asséptica falando em carma, uma equipe espiritual rica de africanidades lavou minhas feridas com banhos de alfazema em reuniões domiciliares que ocorriam em bairro de elite.
Conflitos! Toda uma doutrinação livresca trazia incômodos, mas a realidade desalojava conceitos. O mais difícil de compreender: a equipe de médiuns era completamente desinformada, preconceituosa, plena de crendices, dada a negociar proteção e sucesso para os seus empreendimentos com as entidades, que muitas vezes passavam lições que eram solenemente ignoradas.
Não posso negar, porém, que convalesci e recuperei forças no contato semanal com essa equipe espiritual que era composta por pretos, pretas e crianças, a despeito de todos os “certos e errados” da formação kardecista que me foi apresentada nos estudos.
O texto abaixo que é de Eduardo de Xangô, me falou ao coração e despertou análises:
” Se o terreiro que você frequenta localiza-se em bairro de classe média, tu é privilegiado sim… E isso explica muito sobre apoios de “umbandistas” (não todos, mas boa parte) à pautas conservadoras e de direita. Da Umbanda muitos só levam o cheiro da gira, porque a essência mesmo tão passando bem longe… Não adianta pé descalço no chão do terreiro enquanto da varandinha gourmet do apartamento que mora está vomitando senso comum e repassando falácias de whatsapp. Nesse quadrado de isolamento não estão vivendo a cena, não estão vendo as lutas acontecendo, estão vestindo com orgulho a fantasia de capitão do mato, a carapuça do opressor. Negligenciando debates, julgando como pautas menores as lutas dos negros, das feministas, dos LGBTs, e como cereja desse bolo vem com papo de meritocracia e empreendedorismo como forma de solucionar todos os problemas institucionais do país… Essa Umbanda cínica e “branca”, cis, heteronormativa, que sabe mais de bruxaria nórdica do que de mitologia africana, que apela para a eugenia kardecista, que não sabe diferenciar raça de etnia, que não sofre e nunca sofreu a perseguição que as periferias sofrem, é tudo, menos Umbanda… Tem mistificação aí meu chapa, nego véio descer nisso aí pra tratar de dilemas burgueses é de uma contradição das brabas… “
Hoje também aproximei minha sede de saberes de um terreiro que pode ser considerado periférico, frequentado por gente simples, entre as quais muitos votaram em Bolsonaro e apoiaram o projeto opressor que está no poder, sem sequer saber que fizeram isso.
A repetição de termos africanos não significa compreensão real do significado de muitos deles, e cosmovisão africana é ainda mais distanciada. Há mais reminiscências do catolicismo do que referências ao Panteão. No entanto, há lindeza na Jurema, há zelo, há alimento espiritual para encarnados mal nascidos, desamparados pela sorte histórica de um país desigual.
Entre obrigações e festejos, há resistência. Muitas vezes despercebida e tomada pelo hábito da sobrevivência aos preconceitos e perseguições. O toque ecoa. Única certeza.
Mais do que em certezas, estou navegando nas águas que salvam subjetividades e com estas, corpos. Onde estará o jeito correto de relacionar com a espiritualidade? Para mim, hoje, na capacidade de salvamento da identidade de resistência; e para mim ontem, no carinho que a equipe demonstrava para com meu filho desencarnado e meu coração que sangrava.
Eu como minúsculo exemplo, em um oceano inteiro de necessidades diferentes, capacidades diversas de entabular relacionamentos e vivenciar a fé, uso a liberdade literária para reflexionar.
Quanto mais cortinas são abertas mais necessidades são apresentadas. Há um trabalho educacional intenso a ser feito para as gerações vindouras, que talvez possam libertar mais do que hoje, os múltiplos olhares que a resistência pede.
Por estas horas, que a candeia não se apague, assim roguemos em cânticos e preces. De espírito livre para aprender, sigamos.
