Você sustenta as contas de uma casa. Paga a água, a luz, o telefone, o gás, separa o dinheiro da passagem de ônibus ou de combustível. Paga o colégio ou a faculdade. Ajuda mais gente nesses momentos de aperto .
O governo repete que as contas dele se parecem com as contas da sua casa. Diz o tempo inteiro que é preciso cortar e economizar. A amiga ou o amigo desiste do plano de saúde.
Para economizar mais, começa a andar a pé. Fica mais saudável e dependente do SUS.
Daí começa a pensar que todo mundo em casa usa demais o WhatsApp, o Face, o Instagram. Você decide não pagar mais a conta do celular nem colocar mais crédito.
Mas o governo diz que você precisa economizar mais para guardar dinheiro.
A conta de luz ficou mais cara depois que a companhia energética foi privatizada. Ora, se a amiga ou o amigo colocar todo mundo para dormir mais cedo, logo quando o sol se põe, não precisará mais de luz dentro de casa. Terá uma economia fantástica.
Sem luz, não precisa da televisão. Pode vender o aparelho e faturar um bom dinheiro. Pode vender também todas as lâmpadas e a geladeira.
Ora, ninguém vive sem comer. Como vai se conservar a comida? Hora de mudar o cardápio.
Ao invés de comprar em supermercados, ir para as feiras livres. O peixe seco é mais barato que a carne e a galinha; opção também para o charque mais gordo. Muita farinha de cuscuz. Tira o pão, o leite. O inhame, batata-doce, o coentro com mais agrotóxicos são mais baratos.
Mas lembre que o importante é economizar para ajudar o país a crescer.
Na sua lista de cortes, você percebe que os meninos podem estudar em uma escola pública e as meninas podem transferir o curso para uma universidade paga pelo governo.
Só que ainda não é suficiente.
O gás está quase R$ 70. Dá para substituir por lenha. Os meninos ficam um horário sem fazer nada. Eles passam a catar lenha. Dá para eles começarem a ganhar dinheiro. Coloca neles uma roupinha mais velha e vão pedir esmola no sinal.
A casa respira economia. Só que.. dá para cortar mais.
Os quartos podem ser alugados baratinho já que a casa não tem luz. Não precisa mais de água. Dá para se virar nos banheiros pela rua, os meninos já aproveitam para revirar o lixo atrás de comida e levam um pouco para casa.
Nada mais de feira nem de fogão nem de gás nem de lenha nem de panelas. Móveis, mesa, cadeiras, sofá. Tudo foi vendido.
A casa virou um grande oco, com todos os cômodos alugados.
Os meninos deixaram a escola e a faculdade porque o governo diz que lá só aprendem coisa ruim.
Todos estão felizes, o dinheiro que eles economizaram não dá para nada.
O governo tomou a casa porque todos precisam se sacrificar pela pátria.
O filho teve uma dor de cabeça. Foi internado no hospital e morreu horas depois.
O médico disse que foi virose.
Sem nada, pediu um caixão ao governo que lhe disse não.
Na praia, o velório não teve dor, os rostos estavam sugados de economias e um desespero engolido a seco.
Eram patriotas resumidos a pele e osso.
Num dos sacos de lixo revirado na rua e trazido como lembrança de suas tragédias, eles enrolaram o menino misturando carinho e a brutalidade dos bichos.
Jogaram o corpo ao mar.
Olhavam fixo para o horizonte. E assim ficaram por horas, dias, meses e anos. Derreteram e viraram areia.
Finalmente, a pátria conseguiu economizar.





Uma resposta
Arrepiei-me com o texto. Um retrato do que querem que façamos. Que nos tornemos miseráveis, que vivamos o retrocesso!