Tributo a Belchior com João Calabar e Dinho Zampier

Por Maria Tereza Pereira
Fotografias cortesia divulgação Dinho Zampier.
TRIBUTO A BELCHIOR COM JOÃO CALABAR E DINHO ZAMPIER

Nesta quinta-feira, 28, a Toca do Calango, Jaraguá, apresenta João Calabar e Dinho Zampier com Tributo a Belchior. O show tem início às 20h00. Os dois talentosos artistas alagoanos traduzem qualidade musical em forma de expressão contemporânea traduzida de uma genialidade que atravessa gerações. Com repertório imperdível como Sujeito de Sorte, Alucinação e Comentários a Respeito de John, entre tantos outros sucessos que embalaram e embalam pessoas de várias idades. Os ingressos estão disponíveis no Sympla.

Brasileiro, nordestino, cearense de Sobral, Ceará. (1946-2017). Imortalizado e respeitado por todas as gerações, Antônio Carlos Gomes Belchior, mas escolheu o nome Belchior e dessa maneira consagrou-se como um dos maiores cantores e compositores brasileiros. O músico Dinho Zampier e o cantor, compositor e intérprete João Calabar estarão apresentando o Tributo a Belchior com toda dedicação merecida.

DINHO ZAMPIER – músico, tecladista, produtor cultural, alagoano, nascido em Maceió. Entusiasmante, responsável por projetos e repertórios musicais clássicos da MPB, POP e JAZZ. Estudioso e responsável por diversos projetos musicais. Divide e ao mesmo tempo soma nos palcos consagrados artistas e outros em promissora ascensão, como João Calabar, natural de Porto Calvo, Alagoas.
JOÃO CALABAR – ou João Calabar Alves da Silva, é o artista que ao interpretar, traz em si uma alma criativa na cena musical independente. Nascido em Porto Calvo e criado entre a cidade histórica e Maragogi, em seus trabalhos mistura ritmos da bossa nova, sonoridades alternativas, temperados com poesia da tropicália e folclore de Alagoas. Calabar é também o nome expressivo para João, nome de registro e artístico.
O Repórter Nordeste conversou com os artistas como João Calabar, cantor, compositor, arranjador, intérprete musical, artista alagoano em brilhante ascensão, que teve sua estreia em 2023, quando lançou “Epifania”, como diz o título do EP, uma aparição, trabalho autoral que revelou seu trabalho composto por quatro faixas (Epifania, Urubus, Agouro e Matriz). Essa identidade musical de autor e ator com essência sensível e poética sabe posicionar sua voz tanto nas canções autorais como em suas interpretações “Calabar Canta Gal” e desta vez já em palcos de Maceió, São José dos Milagres, Arapiraca e de novo em Maceió, canta Belchior. João canta ao lado do tecladista Dinho Zampier.
Como afirma Dinho Zampier, esses projetos que homenageiam ícones musicais, em parcerias diversas, tem o objetivo de presentear o público com o que tem de melhor de artistas consagrados, no entanto, preserva a essência original, com recursos técnicos diferentes, embora com a mesma aura (elã vital, traço de criação personalizado). Belchior, por exemplo, dispensa comentários. É só chegar e receber toda dedicação em que foi construído o espetáculo.

1. João Calabar, lembra o icônico Belchior, quando canta em versos, que é um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. Quais as semelhanças entre vocês?
“Presentemente eu posso me considerar um Sujeito de Sorte”, a vida tem sido generosa comigo, muito generosa, apesar de tudo. Veja, a gente começa apresentando Belchior na veia, “Apenas um rapaz Latino Americano” é a segunda música do repertório. Quando meu professor de teatro Caio Ricardo, assistiu a primeira apresentação desse show, muito atento ele chegou pra mim e considerou, nessa segunda canção do repertório, ele muito atento comentou, “quando você está cantando Apenas um rapaz Latino Americano, você não está dizendo do Belchior, você está dizendo de você”. E ele tem toda razão, e é por esse motivo que no repertório, ela está como segunda música da apresentação. E não tem como eu não me identificar com isso. Eu me encontro em vários momentos da letra, inclusive na canção de abertura Sujeito de Sorte, me considero mesmo um sujeito de sorte.
O que eu quero dizer com isso, é que a identificação com a poesia com as letras de Belchior, e que acontece com todas as canções presentes nesse especial. Eu me encontro com Belchior na profundidade, é isso que me interessa.

2. João, quando surgiu a vontade de ser artista, tem influência e ou incentivo da família?
Espera, eu vou olhar pra mim mesmo pra poder te responder isso. Faço uma retrospectiva, pra saber do momento, se teve um momento em que a vontade apontou para esse lugar, “o ser artista”. O que eu consigo dizer, é que o centro da minha vontade sempre foi a de se expressar, então a arte foi o lugar pra isso e ainda bem, porque sinto que não seria compreendido fora da arte. Se dentro dela uma vez ou outra não sou compreendido, imagine se dentro dela vez por outra não sou compreendido, que dirá fora dela. Então a arte é o lugar encontrado para a expressão.

João afirma, “preciso dizer que as influências e incentivos musicais na família nunca existiram”. Mas preciso usar também da minha honestidade, para dizer que nenhuma barreira também foi posta. Só apontei para essa necessidade de se expressar, apontei para o lugar da arte e ninguém ficou na minha frente e eu não deixaria que ficassem não. Como diria Belchior, “Saia do meu caminho, eu preciso andar sozinho. Deixem que eu decida a minha vida. Não preciso que me digam de que lado nasce o sol. Porque bate lá meu coração”. Belchior disse tudo aqui! Eu me arrepio dizendo isso pra você, porque sempre senti dessa maneira mesmo. A arte me aconteceu de uma maneira natural, eu não sou formado em música, não passei por escola de música. Pra mim a música é a natureza, é a vida acontecendo, as relações passando pela gente, é isso, a gente conversar, estar aqui conversando com você. Eu sempre fui sensível a isso, sempre estive aberto a isso. A arte vem pra gente por que ela tem que vir, eu a recebi e trato tudo isso com muito respeito.
João Calabar, teve sua consolidação como artista musical em 2024, quando lançou o álbum “Corações Leões”. Esse trabalho expande sua sonoridade com músicas ensolaradas e tropicais, conta também com canções reflexivas. Destaca-se na cena cultural, incluindo o projeto Seis & Meia, criou o elogiado espetáculo Calabar Canta Gal.

3 João, como foi a preparação do repertório para este show em homenagem a Belchior?
O Dinho fez uma playlist de canções para esse tributo a Belchior, com músicas que não poderiam ficar de fora e eu fiz o mesmo movimento. A gente juntou as playlists e as músicas eram praticamente as mesmas com raras exceções e tinha coisa que tinha minha e não tinha na dele, foi assim que surgiu o repertório. Então fomos lapidando, tivemos muito tempo para pré-produzir e a gente sempre teve muito cuidado com esse show, sempre mesmo.
Então toda vez que olhávamos para o palco, a gente analisava o que estava bom e o que precisaria melhorar. Costumamos fazer em coletivo, em conjunto, tem coisas individuais e precisamente técnicas, conversamos, mas também tem questões muito técnicas e ele como músico especialista vai procurar se dedicar e voltar toda a atenção pra isso, equacionar e resolver.
Tem coisas que são minhas, vejo como melhorar, a minha apresentação, o meu canto, a maneira como me apresento, qual a intenção, a maneira como me coloco para interpretar uma música, tudo é observado, a ideia sempre é fazer o melhor, que seja prazeroso para toda construção musical do espetáculo e em especial para o público.

4 João, das canções de Belchior, quais ou qual você destacaria?
Sem dúvida, destaco Alucinação – “Eu não estou interessado em nenhuma teoria. Em nenhuma fantasia, nem no algo mais”
“Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”
“Os humilhados do parque com os seus jornais”. (Canção de Belchior, 1976).
Para João Calabar, essa canção diz tudo com total profundidade.
João Calabar, enfatiza o requinte e a profundidade da obra de Belchior.

5 João, sobre a sua formação pessoal, suas influências musicais, o que você coloca em destaque, quais suas inspirações musicais?
Posso lhe dizer que tenho uma formação acadêmica em publicidade, propaganda e marketing, que é outra parada, outro lugar. Adiciono pouca coisa dessa minha formação, para coisas da música, mas nunca me senti publicitário, me sinto um cantor, isso aí me sinto facilmente, me reconheço intérprete.
Eu não tenho uma formação musical acadêmica, a música me ocorreu de forma muito orgânica, como disse, nasceu do desejo de me expressar e arte como lugar dessa expressão, e assim é a música pra mim. Para dizer das minhas influências musicais, elas são tantas, muitas, muitas, muitas, porque eu sou feito de muitos sons, eu me entendo assim. Com essa intensidade.
Então, posso te falar, por exemplo da Banda Sete de Setembro de Porto Calvo, uma espécie de orquestra filarmônica da cidade, que ensaiava em frente à casa da minha bisavó, em um galpão, que eles chamavam de sede, quando eu era pirralho, aí ouvia aquilo, aquele som com muita curiosidade, muito cuidado e atenção.
Os meus dois trabalhos autorais “Epifania”, 2023 e “Corações Leões”, 2024, ambos têm a presença de metais, que fiz questão de constar, isso é resultado da influência desse lugar, foi originado nisso, está em minha memória.

6 João, como você vê a carência de espaços públicos com estrutura para o público, a sociedade, estudantes, assim também para os artistas de um modo geral e em especial os artistas musicais?
Eu gostaria muito que Alagoas fosse bem reconhecida por sua expressão artística e cultural, porque nós temos muito a dizer, mas muito mesmo a dizer, sabe? Só que infelizmente, Alagoas sempre fica “compreendida” em um lugar raso. Digo, compreendida pelas pessoas de fora, mas muitas vezes compreendida pelas pessoas daqui, também. Isso acontece, quando se coloca em um lugar de praias bonitas e paisagens paradisíacas, e só!! Eu considero esse conceito deprimente, porque isso nos desconsidera na nossa complexidade e profundidade, desconsidera a pluralidade das identidades que compõem esse Estado, entende? Eu atribuo a responsabilidade ao dessa situação ao poder público.
Há de se fazer uma louvação a leis de incentivo à cultura que vem lá cima, nos últimos anos, o que nos últimos anos nos possibilitou a fala como uma escuta um pouco mais atenta, a partir disso, as leis de incentivo à cultura pudessem agir com mais capilaridade e chegar em algumas comunidades que antes não chegavam. Mas ainda não é o suficiente, porque as expressões artísticas em Alagoas estão morrendo.
João, questiona: “Quem é que vai dar continuidade ao grupo de Pastoril de Porto Calvo, porque o grupo é formado por senhoras. Cadê os jovens? Quem recebe incentivo? Cadê o Bumba Meu Boi de Maragogi? Existe a praça do Boi, lá em Barra Grande. Mas cadê o Boi do grupo, cadê o Bumba Meu Boi? Cadê o poder público para dar suporte?
João Calabar e Dinho Zampier são dois de nossos grandes exemplos de potência cultural, em Alagoas. A superação de qualquer entrave, acontece como uma maneira de persistir, coragem e muita criatividade para validar a diversidade artística e cultural. Eles além de produzir arte, gostam e recomendam a prática de esportes como lazer e resiliência.
João Calabar, comentou que descobriu o remo como um esporte que ele tomou gosto. Faz musculação, caminhada e corrida. Ano passado, ganhou junto com a equipe de Maragogi, o 3º lugar na competição de canoa havaiana, Festival de Velas de Maragogi, em Alagoas. Quando não está ocupado com a música se dedica a esportes, como forma de se melhorar em todos os sentidos.
Dinho Zampier, gosta de andar de bicicleta, tira tempo para suas pedaladas, estar com os filhos, com a família e com os amigos.
Imortalizado dentro de uma de uma de suas icônicas canções com a frase “Viver é melhor que sonhar”, Belchior percorreu uma longa estrada, aprendeu filosofia, teologia, e canto gregoriano, em uma escola de frades, no Ceará. Nos anos 60 ingressou no curso de medicina da Universidade Federal do Ceará, mas abandonou no quarto ano, para seguir sua paixão pela música. Ao conversar com Dinho Zampier e João Calabar, observa-se que esses artistas abraçam seus sonhos pela arte, mas procuram viver com a melhor qualidade física e emocional possível, a convivência com bons amigos e as práticas esportivas conciliam arte com preparação física, emocional, buscam materializar os sonhos com aproveitamento de inspiração, boa estrutura física aliada ao lazer.
Poderíamos lembrar entre outras canções “Como Nossos Pais”, a letra diz em uma de suas estrofes “Mas é você que ama o passado e que não vê… Que o novo sempre vem”.

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