Três em cada 10 brasileiros vivem de benefícios ou esmolas

"Isso é uma vida desgraçada, ninguém merece isso. Quando junto muito é R$ 2,00. Faço isso porque não quero roubar nem matar ninguém. Posso dizer que isso é o suor do meu rosto", disse

No dia do trabalho, o mais novo retrato dos empregados brasileiros, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Eliseu dos Santos: catador de lixo há 30 anos;'vida desgraçada'

(IBGE)- divulgado na última sexta-feira- mostra uma realidade assustadora: 32,7% das pessoas sobrevivem de benefícios federais ou simplesmente de esmolas. Muitas tentam a sorte no lixo- catando latas ou garrafas de plástico.

Com 63 anos, Eliseu dos Santos caminha até 15 quilômetros por dia atrás de sacos de lixo pelas ruas de Maceió. Há 30 anos a rotina é a mesma. Juntando latinhas de alumínio, ele tenta ganhar R$ 5,00 por dia. Não aguenta mais a vida de pedinte.
“Isso é uma vida desgraçada, ninguém merece isso. Quando junto muito é R$ 2,00. Faço isso porque não quero roubar nem matar ninguém. Posso dizer que isso é o suor do meu rosto”, disse.
Perto dali, no bairro de Ponta Verde- o metro quadrado mais caro de Alagoas, a 200 metros da cobertura do senador Fernando Collor (PTB)- Ana Lins dos Santos, de 28 anos, descansa antes de retomar a rotina: catar latinhas de refrigerante. Ela deixou a cidade de Paripueira, a 20 quilômetros de Maceió, e foi morar com o marido nas ruas da capital. Debaixo de um coqueiro, estendeu um colchão, colocou roupas para secar no sol de 30 graus. Mora a 20 metros de um posto policial. Sobrevive de esmolas ou dos pratos de sopa distribuído nas madrugadas por grupos religiosos.
“A gente vive como pode. Cata latinha, compra uma cachaça, dorme e acorda”, disse.
Segundo o IBGE, a cada dois alagoanos, um sobrevive de programas federais- como o Bolsa Família- ou arrisca viver de esmolas.
Ana Lins: com medo, esconde o rosto da miséria. Ao fundo, lagoa da Anta, em Cruz das Almas, endereço da elite alagoana
No Nordeste, são 37,5% dos habitantes. E o Brasil tem mais de 53 milhões de pessoas na mesma situação de Eliseu e Ana Lins. 32,7% da população.
Alagoas é o terceiro mais pobre do Brasil. O Maranhão tem 25,7%; o Piauí, 21,3%.
Para a cientista política Ana Cláudia Laurindo, as estatísticas não mostram o que existe de real- a destruição simbólica e psicológica do ser humano.
“Há decádas atrás a pobreza tinha uma característica diferente de hoje. A história parece ter regredido, o indivíduo nas ruas vive em bandos por coação, quando esse estágio já deveria ter sido abolido desde as eras mais primitivas da humanidade. São gerações que não conhecem vizinhos, a coversa na porta. Só a despossessão para além do material: além do simbólico, do cultural, do religioso”, disse.
“Seria um problema resolvido se houvese uma pequena desconcentração de renda na elite, e falo deste caso em Alagoas. Não é uma revolução. Mas, a inclusão para se eliminar esse fenômeno da nova barbárie, pessoas que apenas comem para manter o corpo de carne vivo, não tão diferente dos animais que perambulam nas ruas “, analisa a cientista social.
No outro extremo, pelo IBGE, dos 161, 9 milhões de brasileiros, 0,74% recebem mais de 20 salários mínimos por mês; no Nordeste, essa proporção cai para 0,38%. Em Alagoas, é ainda menor: 0,3% da população está na classe dos ricos.
“A História também tem que ter um freio de mão. Para barrar essa destruição da essência humana, pessoas que passem a ter direitos não em estágio de selvageria”, afirmou Laurindo.

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