
Vou contar um “causo” urbano, desses que qualquer maceioense usuário de transporte público conhece, e em corolamenta, como se a sorte política estivesse nos domínios da natureza, e acontecesse na vida da gente como as manhãs de sol e as tardes de chuva.
Durante um tempo que perdi no horizonte da fantástica praia de Cruz das Almas, embolando o pensamento em suas ondas agitadas, esperei um ônibus para ir ao trabalho.
Eis que desponta no início da avenida, como um sonho acalentado por quem está nos abrigos das paradas de ônibus de nossa capital: expostos ao sol, chuvas e ventos…Aqueles faróis acesos sinalizando o fim da espera…
Subo os degraus sujos, radiante pela viagem que iniciaria! Quando após pagar os famosos $ 2,30, responsáveis por brigas, socos, greves e querelas jurídicas entre empresa, funcionários e juízes, percebo um solavanco especial.
O cobrador deu então um sorrizinho na minha direção, anunciando o fim da viagem esperada, mal esta começara!
– O ônibus quebrara!
Mas não havia motivo para preocupação. Já havia pago, portanto estava garantida!
As manobras de retorno ao terminal representavam o meu atraso. O tempo olhando o mar havia sido mais gratificante do que aquele passeio vagaroso pela orla, dentro de um ônibus aos solavancos, tal réptil ferido a capengar.
Cada metro vencido era uma vitória do condutor, partilhada com o cobrador e comigo, única passageira da joça; ontem uma máquina de lotar passageiros.
Lembrei dos dias seguidos de greve, massacrando a população de Maceió, em retaliação à diminuição do preço para $ 2,10, sob imensos protestos dos empresários, que todas as artimanhas possíveis fizeram para recuperar o valor, agora atual.
Ainda li o despacho do juiz que permitiu a autorização do aumento da passagem. Mas nesse instante de perda de tempo dentro de um ônibus quebrado pelo desgaste do uso, pela manutenção precária, eu estava sozinha entre as cadeiras.
Sem dúvida, é assim que nos encontramos agora, como usuários de transporte coletivo em Maceió: sós!
Os empresários não aumentam a frota, descuidam dos veículos, mal pagam seus servidores carrancudos, não prestam conta alguma à sociedade.
Silenciosamente desci, troquei de condução e me permiti refazer o caminho pelo qual já havia passado, chegando muito atrasada ao trabalho. Todas as explicações que tive que dá, eram problemas meus. Os ônibus continuaram seus destinos. Maceió espera o sol e a chuva.






Uma resposta
Compartilho com você este sentimento. Só no mês passado o ônibus da Piedade – que nome irônico, não? – quebrou duas vezes quando ia para o trabalho, fora os constantes atrasos. Penso que se não fosse eu meu próprio patrão, já estaria na rua faz tempo! Uma única coisa a acrescentar: o termo greve deve ser relacionado aos trabalhadores; no caso da paralisação dos empresários, foi um locaute.