STF julga como CNJ apura patrimônio de juízes

O relatório do Coaf usado para subsidiar a investigação mostra que juízes e servidores de tribunais movimentaram R$ 855,7 milhões entre 2000 e 2010 de forma atípica

Carolina Brígido-O Globo

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) corre o risco de ser impedido de  apurar a evolução patrimonial de juízes com base em informações do  Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O Supremo  Tribunal Federal (STF) está prestes a julgar uma ação que vai definir se  o conselho pode ou não receber do Coaf relatórios com movimentação  bancária acima do padrão. No início de fevereiro, os ministros  autorizaram o CNJ a investigar juízes. A discussão agora é diferente:  será decidido de que forma podem ocorrer essas apurações. Portanto, o  resultado da votação não será necessariamente em prol do conselho.

“Os temas em discussão são diferentes. Está em jogo saber se o CNJ  poderia ter usado os dados do Coaf. Os votos não devem ser iguais aos do  outro julgamento”, disse um ministro do STF.

“São poucos os  pontos em comum nas discussões. Vamos decidir se o ato da corregedora  foi quebra de sigilo ou apenas transmissão de informações corriqueiras”,  afirmou outro ministro.

A polêmica foi iniciada a partir de uma  ação proposta pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), pela  Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e pela Associação  Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) contra uma  investigação na qual a corregedoria do CNJ descobriu movimentações fora  do padrão feitas por juízes e servidores de 22 tribunais. As entidades  sustentam que o CNJ não tem competência legal para acessar informações  protegidas pelo sigilo bancário. Em dezembro, o ministro Ricardo  Lewandowski suspendeu a investigação por liminar.

O relatório do  Coaf usado para subsidiar a investigação mostra que juízes e servidores  de tribunais movimentaram R$ 855,7 milhões entre 2000 e 2010 de forma  atípica. Segundo o documento, 1.016 integrantes do Judiciário operaram  R$ 274,9 milhões em espécie entre 2003 e 2010. O relatório também revela  que em 2002 apenas um servidor do Tribunal Regional do Trabalho (TRT)  do Rio de Janeiro foi responsável por 16 movimentações financeiras no  valor total de R$ 282,9 milhões.

A expectativa é de que o assunto  seja levado ao plenário do STF em abril. Os ministros decidirão se  arquivam a investigação ou se autorizam o conselho a retomá-la. Alguns  ministros criticam a liminar de Lewandowski por não ter fundamentação  plausível para justificar uma decisão tão drástica.

Quase todos os  ministros do STF concordam que a discussão será bem diferente da  ocorrida em 2 de fevereiro, quando a maioria decidiu que o CNJ tinha o  direito de investigar faltas disciplinares de juízes antes da atuação  das corregedorias dos tribunais nos estados. O julgamento terminou com 6  votos a 5. Em abril, os ministros terão de responder à seguinte  questão: pode o CNJ usar dados do Coaf para subsidiar essas  investigações?

A Corte também está dividida sobre essa questão.  Alguns integrantes do STF pensam que usar esse tipo de dado é uma forma  de quebrar o sigilo bancário e fiscal de pessoas sem autorização de um  juiz, um ato ilegal. Outros ministros argumentam que o CNJ foi criado  para investigar desvios de conduta e que há lei específica autorizando o  conselho e demais órgãos de fiscalização administrativa a obter esse  tipo de informação para zelar pela moralidade no Judiciário.

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