Reacendendo ideias sobre a Semana dos Museus

"Não ir a um museu é perder o direito de acesso à trajetória do ser histórico, que constrói a sua economia, o seu modo de viver. Perde a cidadania do acesso ao conhecimento".

A semana que passou foi comemorada como a 10ª Semana Nacional de Museus, com extensa programação sobre o

Célia Paiva: "O museu hoje prevê a sociedade do futuro, pois traz informações macroscópicas sobre a humanidade"

tema. Contudo, optamos pelo apagar das luzes para reacender a reflexão sobre a vida de quem nunca foi a um museu, com a Museóloga e Arte Educadora, Célia Paiva.

“Não ir a um museu é perder o direito de acesso à trajetória do ser histórico, que constrói a sua economia, o seu modo de viver. Perde a cidadania do acesso ao conhecimento”.

“Uma criança de dez anos não conheceu nem a máquina elétrica, mas para entender o surgimento do computador, precisa saber desde o pombo correio, pois o museu abre um diálogo do passado com o presente e o futuro”.

“O museu hoje prevê a sociedade do futuro, pois traz informações macroscópicas sobre a humanidade. É espaço de educação, mas não sabemos ainda como fazer essa educação, pois as visitas guiadas não contemplam todas as informações”.

“Quando as pessoas não vão ao museu, forma-se um vazio cultural, mas isso é construção política! Ainda há quem imagine o museu como algo estático, e não é assim. Inclusive, hoje já não comporta usar aquela frase que diz “quem gosta de passado é museu”. ”

Nosso interesse sobre museus persegue o impacto de sua existência na sociedade, o que eles são além de imponentes?

“Museus são construções que favoreceram à aristocracia, junto com a utopia de devoluçãos às classes menos favorecidas, dos seus patrimônios sociais, advindos da exploração do trabalho.”

“Mas museu nenhum representa o assalariado. No Brasil, Inglaterra, França, todos representam os poderosos!”

“Ainda assim, as camadas populares devem ter acesso a eles, pois socialmente, o conhecimento que está demonstrado lá, está a serviço da educação, apesar de que o processo de ampliação de instrumentos pedagógicos que satisfaçam professores e museólogos esteja em construção”.

Como nossa controversa Alagoas figura nesse cenário da museologia?

“Muito já foi caminhado em Alagoas na área de museus, principalmente com o estreitar dos vínculos com as instituições nacionais. Antes, tínhamos alguns museus inexpressivos em quantidade, na capital e no interior”.

“O Instituto Histórico é a instituição museológica mais velha do estado. No interior de Alagoas, o museu Darras Noya, em Santana do Ipanema vem de aproximadamente 1965, voltando-se para a historia da comunidade”.

“A proliferação da atualidade é devida à proximidade com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que possuía um departamento de museus e hoje tem o Instituto Brasileiro de Museus, mostrando que o Ministério da Cultura também viveu outro momento político.”

“Um marco contemporâneo da museologia alagoana é o Memorial Pontes de Miranda, em espaço de exposição. Do ponto de vista museológico, o Memorial à Republica é um espaço a ser construído sobre a pergunta: de qual Republica fala a exposição? Pois conta o factual. Não discute a Republica, nem o panorama hitórico, político e social da proclamação. ”

“Para mim, representa o velho slogan: “A Terra dos Marechais”, e nesse ponto, está correto. Mas é uma exposição que não foi acabada”.

Alagoas é uma sociedade caminhando sobre as truculências sociais. Aqui convivemos com situações extremas…

“A sociedade alagoana está dividida entre o marginal e o aristocrático. A classe media é inexpressiva.”

Como fechar esse artigo sem a ilusão de esgotar essa temática?

“Tudo vem pelo viés da educação formal e informal. Como sou professora vou pelo da educação formal: nesse universo só é possível penetrar pelo estudo. Se não melhorarmos o patamar do nosso suporte de conhecimento, não alcançaremos a cultura com seus precisos degraus”.

“Com relação ao museu, lá as culturas têm que ser visualizadas, estudadas. Que o universo museológico represente essa valorização. Que nele não encontremos apenas ouro e prata; mas também a receita do chá da rezadeira, o chapéu do pescador, sem exclusão. Esse é o sonho de uma museóloga que quer ver a sociedade como um todo refletida no museu. Esse é o meu sonho!”

Respostas de 2

  1. Fiquei muito feliz lendo este artigo da profa. Célia.
    Frequentemente ouvimos a expressão popular “Quem vive de passado é museu”, reforçando a idéia de museu enquanto artefato cultural estático e sem vida. É preciso refletir que nossa capacidade de pensar, sentir e agir não é somente um patrimônio genético e não é resultado de uma vivência interna solitária, mas é construída e alimentada pelo outro e pelos vários elementos que o constitui. O discurso Pós-Moderno vem alimentando a idéia de velocidade e de que o novo é sempre melhor, desqualificando a experiência vivida, apagando a história… O que é lamentável. Viver o presente reconhecendo o lugar e a importância de nossa história em cada momento é uma forma de valorizar quem somos e o que o outro representa para nós pessoal e culturalmente.
    Parabéns pela excelente matéria!!
    Meu abraço.

  2. Um museu é um mundo que dialoga entre o passado e o presente. Nada substitui a agradável sensação de receber cartinhas escritas a mão pelos Correios de uma pessoa querida, embora tenhamos os recursos eficazes dos e-mails. O novo não substitui o velho apenas enriquece a experiência. Talvez nossos jovens não aprenderam ainda a valorizar o velho, o antigo, confundindo com antiquado, ultrapassado, mas cabe a nós professores mudar essa ideia.

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