Por Silvio Rodrigo, autista nível 1 de suporte
A indústria cultural representa autistas de diferentes maneiras, mas facilmente identificamos padrões sobre o que o universo cultural hegemônico configura como os seus limites e contornos, principalmente sobre aquilo que no mainstream configura-se um autista aceitável, palatável e uma figura “correta” aos olhos dos neurotípicos.
Frequentemente branco, do sexo masculino, apresentado com gosto peculiar pela matemática e pelas ciências naturais, pouco afeito à poesia e, quando gosta de arte, como um gênio da música clássica e erudita.
Uma suposta inteligência natural que escorre para um grande universo cultural elitista e burguês.
Mas e quando ele gosta de bregafunk? E quando ele gosta de reggae?
Como autista que mora em Maceió, capital de Alagoas, eu cresci ouvindo melôs. Dancei ao som de Cleiton Rasta, Luana do Reggae e DJ Thuppa. É de se espantar que o universo cultural da minha cidade esteja apartado de como se configura meu modo de ser autista?
A clínica médica, o saber psicológico e o universo institucional de reabilitação e saúde respeitam as diferenças culturais, sociais e territoriais entre pessoas autistas?
Ou determinados modelos de reconhecimento e interpretação do autismo acabam tomando como referência experiências mais próximas dos grupos socialmente hegemônicos?
O que acontece quando a pessoa autista não corresponde culturalmente àquilo que se espera de um autista?
São boas questões a se responder.
Andando pelo bairro histórico do Jaraguá, já adulto, e procurando participar de uma noite boêmia como outros jovens da minha idade, penso que uma outra geração de autistas cresce nas periferias da capital ouvindo bregafunk e que seu universo cultural, além da clínica, da reabilitação e do considerado adequado por uma estrutura racista e elitista, pode contrapor uma forma ideal de autismo: aquele que é espelho de uma elite cultural.
Será que cabe nos tons da clínica a diferença simbólica de um autista concreto, alagoano e maceionense, contrastando com um imaginado nos manuais diagnósticos?
Se não cabe passinho do Jamal no DSM-5-TR e, por isso mesmo, é mais fácil acreditar no “falso autista do BPC” do que em um que dance bregafunk com seus colegas da escola ou com os amiguinhos da rua, teremos que ter muito Beethoven e Tchaikovsky para formatar o autista perfeito.







