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Preâmbulo da minha luta contra depressão e fibromialgia

Há quase nove anos lido com o chamado da depressão. Tenho aprendido muito com esse desafio pontual.

Primeiro ponto: é proibido falar em depressão e continuar vivendo!

Existe um apelo para a entrega, a quase obrigatoriedade de perder a luz do olhar e deixar os movimentos sem coordenação pessoal levarem nossos dias, como os demais esperam que seja.

Resolvi não ceder! Tenho feito isto dia após dia.

Conheço as vilanias do que me deprime, do que tentou me jogar para dentro do fosso fundo, de onde nem eco pudesse incomodar a normalidade; e foi este saber também a razão do meu impulso originário: a defesa do amor, da justiça e da vida!

Quem me adoeceu sabia o que estava fazendo e porquê o fazia. Restou-me reagir à intencionalidade perversa do sistema que já havia me roubado pedaço de vida, mas ainda não estava satisfeito porque meus respiros continham denúncias.

Resolvi sobreviver para rasgar os véus possíveis e dizer que as vítimas são somente vítimas mesmo!

Ninguém é culpado de se tornar vítima!

Gritar poderia parecer loucura, e com isso corroborar para a imagem do desespero como algo que tira credibilidade. Mas como não desesperar quando a morte fere seu coração e depois outras mortes são derramadas friamente sobre a sua dor?

Eu desesperei nas madrugadas insones e dormi durante longos dias de solidão profunda. A violação do meu jardim se transformara em normalidade diante das bocas ruins dos cúmplices cotidianos da violência do poder. O rosto da minha dor era caricato diante da intencionalidade da lei, através das autoridades imundas que se manifestavam.

Eu deprimi e senti ódio do mundo. Mas o conhecimento das Ciências Sociais foi meu salva-vidas e nem mesmo a religiosidade foi mais justa e assertiva, era a Ciência quem me socorria. Me falava das leituras feitas no subsolo da biblioteca, das linhas subversivas de Michel Foucault e desafios de Simone de Beauvoir, a força feminista geraria uma nova face de mulher no novo papel que me dispunha a assumir perante a minha consciência: mãe em luta!

Jamais recebi condecorações por lutar em defesa da memória do meu filho vitimado, mas nunca tive nesse ponto um objetivo, sou das comuns, vivo e comungo as lições e dores das mães enlutadas, mas não deixo que me calem porque essa luta não tem fim.

A fibromialgia é uma cruz permanente, que dói a vida e as pressões do mundo em meu corpo, para combater seus efeitos apenas o tônico da poesia faz valer a fórmula.

A escrita precisa ser firme e tantas vezes dura como uma pedra, mas nasce da fonte poética do meu coração que pulsa humanidade.

Eu escrevo o caminho pelo qual passamos, eu escrevo para que as experiências ajudem a libertar.

Os que fizeram pouco caso e aqueles que riram do tombo, passarão como a poeira contaminada e virulenta, levada pelos ventos da renovação. Mas nós que lutamos nos reproduzimos uns nos outros, impingindo sonhos nas pedras e nas árvores antigas.

A depressão me acossa, me machuca e não me envergonho de falar assim sobre ela, pois a localizo na fresta da minha humanidade torturada e rediviva na ânsia de continuar.

Relato este fato com a honesta intenção de chegar aos corações oprimidos que não aceitam os episódios depressivos, dificultando assim o próprio alívio.

Mas também para assumir que aceito minhas reações diante de um sistema perverso e grande, que manipula verdades e define vida e morte, invadindo sacrossantos espaços de amor, em nome do vil poder baseado no ódio.

A efemeridade é característica do corpo, mas a sublimação é poder do espírito.

Em nome do amor, eu continuo.

Em nome da vida, eu recuso a morte.

Para você que também luta, eu estendo minhas mãos.

 

SOBRE O AUTOR

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