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Patrícia: voz da mãe natureza na Pátria Grande

Quem faz da escrita vida, assim como eu, saberá mais facilmente do que vou falar. Despetalando respiração e colhendo sensibilidade, fui guardando emoções, sensações, percepções. Por instantes longos dentro de mim era tumulto o conhecer tão belos e deslocados aspectos da realidade, trazidos à superfície do debate por uma mulher tão pequenina, tão gigante. Uma simbiose perseguida e maltratada que reúne Natureza/Mãe.

Este texto teve sua própria gestação. Pediu tempo. Não me permitiu transbordar seu conteúdo no pulo do ímpeto. Porque a vida que se reclama reparos perdidos está em cada esquina e quase ninguém consegue enxergar.

Precisei encontrar a luta de Patrícia García por Sama para ouvir estes trinados de liberdade contida, este rugido de leoa ferida, esta poética declaração de respeito que a cultura burguesa tripudia. Eu que já venho deixando pegadas de sangue ao longo do caminho sem poder mais abraçar o filho que a violência de mim separou, me sinto parte da luta de Patrícia, e passo a acompanhar seus dias na ânsia de vê-la vencer o mal social e jurídico que gera sua dor.

Saber que xenofobia existe é diferente de identificar práticas xenofóbicas. E todo etnocentrismo que envolve nosso país se materializa na insipiência de razões que justificaram a separação de Patrícia e Sama, movida por um personagem sem nome e sem rosto, mas assim mesmo conhecido por todas nós: o macho patriarcal branco.

Nossas discussões sobre o patriarcado levam sempre a considerar sua utilidade para o capitalismo e vice-versa.

Enquanto a voz maternal levanta debates úteis e necessários sobre amamentação e livre demanda como direitos da criança lactante, o judiciário brasileiro a puniu por ser vegana e com sua saúde corporal de nutriz contrariar o domínio alimentar que a indústria tem sobre nós e nossas famílias comuns.

Patrícia García é paraguaia e tem uma história de relação com a natureza que lhe é própria, focada na harmonia da vida e sua natural sustentabilidade.

O pai de Sama é brasileiro e utilizou acusações de riscos à vida da criança em decorrência da alimentação da mãe, recebendo de modo rápido o amparo legal para a guarda, separando o filho do corpo materno e todas as significações que esta proximidade gera em benefício do equilíbrio e desenvolvimento do bebê.

Patrícia não calou! Gritou sua dor e luta através das bocas de muitas outras mulheres!

Conseguiu com isso o direito de amamentar Sama por 3 horas e aceitou a luta de manter o corpo produzindo o néctar da vida através de ordenha, para não secar o leite.

Suas declarações de sofrimento são compreendidas por nós em uma dimensão muito acima da luta pela posse de uma verdade, mas por revelar uma luta de amor que desafia as estruturas da sociedade machista, misógina, etnocêntrica, xenofóbica e capitalista!

Luta grande. Mas muito maior se revela Patrícia, a mãe do Sama. Representação de inúmeras. Uma voz latinoamericana que se aninha em nossas histórias e nos faz gritar juntas: devolvam Sama para a mãe!

 

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