Pandemia e machismo na esquerda

Não caminharei jamais pelo vale da sombra da morte que a direita brasileira ornamenta com espasmos de estupidez e bizarrices pelas vias ainda inominadas nas quais segue Bolsonaro.

Mas também não deixarei no vácuo esta reflexão que me desagrada fazer sobre o machismo (sempre arrogante) que a esquerda preserva, quando os masculinos expressam sua viril capacidade de transformação social, mandando mulheres calar a boca quando elas não endossam suas escolhas.

Deste modo, aqui registro minha decisão em não ir às ruas durante a pandemia do novo coronavírus como manutenção da escolha pela preservação da vida, na esperança de retardar ou mesmo evitar o contágio, seja em benefício da vida (pois sabemos que cada corpo humano tem uma reação diferente ao vírus, que revela alto teor de letalidade), seja para evitar o colapso da saúde pública que se mostra incapaz de acolher a demanda de contaminados.

Como cidadã alagoana consciente das condições reais de acolhida e tratamento dos infectados por coronavírus nas unidades hospitalares do meu estado, sinceramente farei o possível para evitar utilizar estes serviços nesta hora. Assim como assumo o luto coletivo que me abarca o peito quando tantos nomes conhecidos já engrossam a lista de desencarnados por Covid-19.

Não desejo ser infectada e muito menos infectar outras pessoas, e o isolamento social tem sido a alternativa mais aproximada para a obtenção dos objetivos traçados. Mesmo assim eu sei que o vírus pode me alcançar, mas não facilitarei para ele.

No lugar onde moro há um surto de negacionismo que já nos obriga a conviver com mortes diárias causadas pelo vírus, e as bizarrices inumanas de Bolsonaro surtem terrível efeito em sociedades interioranas, pois estas resumem inúmeros fatores que fermentam os obstáculos a todas as ações preventivas.

É uma guerra sanitária no túnel da ignorância mantida, calculada e manipulada. Os perdedores já estão sendo contados minuto a minuto.

Mas neste cenário cortado por variáveis que as redes sociais nos criam, eis que manifesto minha opinião de mulher-militante e destaco a decisão de manter o isolamento social.

Uma chuva de hostilidades me chega em nome de uma ação de esquerda mais legítima, que deve ir às ruas para combater o fascismo a despeito da pandemia, dos riscos trazidos pelas aglomerações e aumento certo de contágios.  Vozes majoritariamente masculinas que tentaram desqualificar meu perfil de pessoa de esquerda, chegando inclusive ao absurdo de sugerir que trabalhei para “desmobilizar” a militância.

Contudo a cereja podre deste bolo esteve posta em uma frase que com aparência de conciliatória dizia para não me posicionar publicamente.

Audácia do marmanjo, deve ser exposta e analisada. Não importa agora se o machismo veio da direita ou da esquerda, o que vi em exibição foi a truculência do patriarcado tomando o território do debate político.

Para estes tais, mulher na discussão política só deve assinar o que eles falam. Não toleram contra-argumentos vindos de mulheres.

Mas não estou para obedecer nem pactuar silêncio com esta linha de atuação, mesmo que esteja no espectro político da esquerda.

Quero viver bastante para manter a luta contra o fascismo e todas as políticas de morte, e por isso mantenho o isolamento social, cuido de incentivar os ingênuos ao despertamento e solidarizo intensamente com as vítimas da necropolítica e seus familiares.

Mas nem neste trecho singular da jornada deixarei passar em branco a hostilidade machista, porque continuo afirmando que política é coisa de mulher em igual liberdade de expressão.

Na luta contra Bolsonaro,  fascismo e racismo – por certo machistas não passarão!

4 thoughts on “Pandemia e machismo na esquerda

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    Amiga os preconceitos parecem viver num universo temporal paralelo às mudanças de mentalidades dos espíritos das épocas. Tanto a esquerda como o movimento espirita conservam no freezer questões do século XIX com muito apego. Estou vivendo a experiência da concentração de preconceitos: sou mulher, de esquerda, espírita que quer discutir racismo e elitismo na linguagem da doutrina e ainda por cima sou velha. Tem que ter muita garra para continuar a ter vontade de dialogar com outras pessoas, se não a criatura veste um pijamão e vira eremita.

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    Quanta amargura e rancor. Esqueceram de Dilma, a primeira presidenta mulher por quase dois mandatos, ex-ministra, aclamada pela esquerda e torturada pela direita militar? E também não estão cientes dos Espíritas Progressistas e Espíritas à Esquerda, grande e corajoso movimento que cresce diariamente à margem do Espiritismo conservador de extrema-direita?

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    Enquanto uns se acovardam, milhares resgatam o poder da democracia nas ruas Brasil afora, restintuindo as cores nacionais para quem de direito as merece, todos de máscara e mantendo a devida distância pacificamente.

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    Decisão absolutamente coerente com a posição de defesa da vida. Apenas gostaria de ressaltar que o machismo é uma das características do fascismo e que não pode ser admitido justamente por quem luta contra esse absurdo ideológico.

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