
O trabalho louvável do jornalista espanhol Juan de Sola, nos traz o suicídio de Amina sob uma ótica que transpassa a barreira do sexo e da nacionalidade, a da humanidade.
“Amina era cidadã de Larache, no norte do Marrocos. Tinha duas opções. Enterrar-se em vida ou acabar com uma tortura assegurada por uma das maiores injustiças conhecidas pelo ser humano: a agressão sexual. ”
“É tanto o dano gerado que o nascimento de sentimentos positivos cai anulado pelos negativos. Recompor um espírito lesionado pela pior perversão conhecida não conta com uma cura de sensível aplicação.”
“Dizem algumas ousadas teorias que optar por acabar com a vida “é um ato de covardia”. Resultado paradóxico que ilustre esta série de asseverações acadêmicas ou teológicas, aos que desconhecem, em muitas ocasiões, o porquê de uma decisão tão drástica e nem sequer tenham em seu saber uma mínima experiência com a qual possa argumentar sua tese vital…”
“É de se supor que quando se determina transpassar a linha vermelha o desespero já tomou conta de tudo. Não é estranho que uma jovem recém iniciada na adolescência evitasse uma tormenta crônica de irreparáveis consequências em sua vida. Foi valente do princípio ao fim. Seu caso não é uma exceção em uma sociedade machista até o mais fundo de suas raízes. “O homem é autônomo em seus atos. E a mulher é uma mercenária do capricho masculino”.
“Amina só tinha 15 anos quando foi violada por um tal Mustafa. Teve a valentia, apoiada por sua mãe, ao denunciar seu agressor. Fez o mais dificil para uma mulher em condições muito críticas: reconhecer a agressão e buscar o castigo legal para seu agressor”.
“Sem dúvida, todo o sacrifício não se traduziu na detenção e posterior acusação. Ao contrário. Recorrendo ás tradições próprias de um estilo medieval, as famílias pactuaram um matrimônio de conveniência para que se evitasse a prisão e a família conseguisse limpar a questionada “honra”.
“Resumindo, vítima e agressor conviveriam em umas dezenas de metros quadrados. Uma nova vida, que sem dúvida, Amina se negou afrontar. Optou por tomar um veneno para ratos e apagar a vitalidade como remédio a seu escravismo social e cultural. Um determinação imprópria a seus 16 anos”.
” Uma ingestão venenosa com apáticos efeitos secundários para uma comunidade internacional obrigada a condenar um novo caso de violência machista, e viver um estremecimento por algumas horas. Porém, tal como marca outras tradições, com o amanhecer se impõe o esquecimento coletivo porque “algumas coisas nunca mudam”.





