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Não há amor, há peixe seco

Dried salted fish at market display

Tem dias que o desânimo afeta a criatividade e as letras se escondem na alma, enroscadas como um caracol dentro dos pensamentos. Em tempo assim o escrevinhar não vinga!

Dia seguinte vem a ressaca de tudo o que não bebemos, só de ver imagens de festas da morte espalhadas pelo país, até em Brasília teve a festa da condenação que os brasileiros carregam nas costas porque não ouviram os avisos.

Nessas horas eu lembro de Luzinete, uma companheira muriciense (natural de Murici, nas Alagoas) que já partiu para outras paragens (melhores que as nossas, com certeza!) quando falou profeticamente um dia: Esse povo já esqueceu a fome! Mas vai lembrar! O peixe seco vai voltar!

Sim, já voltou. Eu mesma constatei na feira da cidade.

O que tem o peixe seco com este contexto para entrar no texto? Vamos conhecer:

Nos tempos da infância a fome era muito presente na vida do povo dessa região, e trabalhador de partido de cana ganhava pequeno salário e geralmente sustentava grande família, comendo o que fosse mais barato. Carne era um luxo de final de ano, e o peixe mais barato era o seco!

Refugo das pescarias, o material é salgado e posto no sol para secar. Pequenos peixes, geralmente descarnados, ficam leves, e o quilo garante alimento para comer ao longo da semana. De cheiro forte ao ser assado em óleo fervente, já não era tão comum encontrar os montes pelas feiras, nos tempos em que o nosso país saiu do mapa da fome.

Em 2020 já pude localizar o crescimento da oferta. Por certo em 2021 adentrará mais casas brasileiras, sendo possivelmente apresentados às gerações que cresceram comendo carne.

Isso é uma triste constatação, porque não há romantismo no empobrecimento calculado de uma nação!

O chão dessa vida real se torna mais batido. Os velhos envergados voltarão a catar os cachos de bananas verdes pelas matas e os pequenos brejos que sobraram já estão recebendo anzóis e puçás entre suas águas escondidas e capinzais afogados.

Qualquer dez reais trocados por trabalho mal pago servirá para levar um quilo de peixe seco para comer com farinha. As outras necessidades correrão atrás do político eleito que cabrestará o voto pagando recibos de água e luz, tudo mais caro por causa das privatizações.

Um livro antigo e conhecido foi reaberto.

Não há como falar em cidadania. Aqui há fome!

Não importa ao povo o que acontece em Brasília. Nessa parte de mundo só chega o que é permitido e nas noites o eco das igrejas entope de moralismo o fiel.

Em casa o peixe seco vigia o estômago para que não morra agora o eleitor de Bolsonaro, ávido por 2022.

É a fome. É o horror.

Mas eu gostaria de poder escrever sobre amor…

 

 

 

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