Marcelo Henrique: Um socialismo espiritualista

Marcelo Henrique

Observando o mundo em que estamos, atualmente, coabitando, percebemos o desgaste dos modelos e sistemas de gerenciamento da vida coletiva, sejam os privados, sejam os públicos. Toda a deterioração do sistema social, fundado em múltiplas desigualdades político-econômico-sociais, tem aprofundado os abismos entre os indivíduos e, consequentemente, entre agrupamentos coletivos, como as nações independentes.

Se o capitalismo foi importante para a redefinição de alguns papeis no curso da história – e não podemos deixar de reconhecê-los, posto que em tudo o que vige no planeta, assim como nos indivíduos, há parcelas positivas e negativas, frutos da condição de progressividade dos seres e das coletividades, há que se projetar e construir um outro “regulamento” que permita a redução paulatina das desigualdades e das injustiças.

A sociedade capitalista, assim, envelheceu e deteriorou-se, abrindo espaços para uma série de práticas – muitas, até, legais – aéticas ou contrárias aos mínimos princípios de justiça social: os trustes, os monopólios, as multinacionais, as sociedades anônimas, os títulos de crédito, a usura, os juros abusivos, as garantias fiduciárias, as falências engendradas, as grandes fortunas, as concessões tributárias, etc.

Mas, não há fórmulas prontas, ideários ou filosofias completas e definitivas, que poderiam ser bulas ou manuais para a edificação do tecido social transformado e transformador, posto que nunca, ele, estará completo, acabado, definitivo.

Quem estuda os teóricos do Direito, os Filósofos e Sociólogos que foram influentes nas mudanças paradigmáticas dos regimes político-sociais, sobretudo aqueles que convergem para o alcance dos direitos por parte de todos os membros de uma dada sociedade, sabe que o trabalho (e as lutas) são permanentes.

Os desafios são convergentes para a superação da desumanização do homem planetário, acuado por práticas relacionadas ao apetite do ganho e do lucro e do proveito sem trabalho.

Por isso, devemos acessar todo e qualquer conhecimento técnico possível e disponível, para apreender conceitos, ideias e práticas que possam ser colocadas em prática nas mudanças possíveis, que, via de regra, só são materializadas à custa das revoluções – que não precisam ser, necessariamente, armadas ou violentas.

Um filósofo em especial, francês, do Século XIX, me vem à tela mental e busco nele alguma inspiração para este ensaio: León Denis (1846-1927). Em um de seus provocativos textos, Denis reúne os pontos principais do programa do que ele chama de “socialismo espiritualista” para a obra de regeneração da sociedade mundial:

1. Garantia do pão para os velhos e do abrigo (lar) para os trabalhadores (esgotados pela idade ou enfermidades), ou seja, o cuidado com a velhice e a dignidade dos aposentados;

2. Disponibilização do alimento intelectual necessário (instrução quanto aos deveres e a grande finalidade da vida) à criança, direcionado à formação do capital intelectual que lhe permita ter consciência de que faz parte de um todo harmonioso (Universo), sendo, deste, parte integrante, atuante e responsável;

3. Proteção à mulher, no cenário do emprego e das ocupações sociais, contra as fraquezas mórbidas e, inclusive, assegurando-lhe, durante a gravidez e depois desta, um trabalho que permita a vida familiar e a educação da prole;

4. Segurança para receber, pessoalmente, uma parte do bem-estar proporcional à tarefa realizada e aos serviços prestados na construção da obra social (previdência social digna para todos); e,

5. Acessibilidade a todos os ensinos, consolações, e ao culto do bem e do belo em suas diversas formas (democratização do acesso à arte, à literatura, à poesia e aos demais meios de elevação moral e aperfeiçoamento), ou seja, propiciando a todos o desenvolvimento das qualidades do espírito e do coração.

Estes cinco quadrantes já deveriam estar concretizados em grande parte dos cenários sócio-político-econômicos das nações desenvolvidas quanto em processo de alcance nas em desenvolvimento. Todavia, os retratos ou recortes do cotidiano social de nações de todo o mundo, sobretudo aquelas mais prósperas economicamente, registram, ainda, e por muito tempo adiante, a falência na administração da vida em sociedade, com inúmeros seres em condição de indigência social, abaixo da conceituada linha de pobreza.

Forçoso é, então, que nos disponhamos a elevar certas bandeiras – que nada têm a ver com as de representação político-partidária e que devem estar escudadas em legítimos movimentos sociais, sem aspiração eleitoral, mas que possam receber o engajamento de ocupantes de papéis públicos, sobretudo os legislativos e governamentais, além dos judiciários, para a diminuição das mazelas e imperfeições legais-sociais e para a construção, para as futuras gerações, de ambientes em que o socialismo espiritual seja real e efetivo.

Este socialismo almeja, a partir de sua construção permanente, a discussão e a reformulação do status social, para permitir ao homem, sempre, sua livre expansão, superando quaisquer opressões, as econômicas, as políticas, as sociais, as ideológicas, as sexuais e até as espirituais (leia-se religiosas) existentes.

Há tempo, ainda, para lembrar o Direito Natural, em que a Natureza, em destaque, como provedor da vida, nada nos cobra pela chuva que alimenta as lavouras, o sol que movimenta a vitalidade, o ar que respiramos, a água potável que nos dessedenta, e o equilíbrio das cadeias alimentares naturais, tudo com o elemento de gratuidade dos serviços e bens, sem nos perguntar quem somos, de onde viemos, que condição social, econômica ou identidade geográfica temos e, também, sem exigir-nos qualquer recompensa.

Por fim, podemos fazer coro com Einstein – um dos maiores de todos os tempos – que disse: “sou um homem quando meus sonhos, atos e desejos têm uma finalidade: a comunidade e o seu progresso”.

Muito temos que fazer, então, para que a fraternidade, a igualdade e a justiça social sejam realidades. Que tal começar agora?

Uma resposta

  1. Bom comentário Marcelo. Vejo que o capitalismo ainda vigora em todo mundo, apesar de alguns se denominarem socialista ou comunista. Porque isso acontece? Simplesmente porque o EGO dos governantes e criadores de opinião falam mais alto e por isso quaisquer que seja o modelo de governo é tudo igual.
    No entanto quando se percebe a deterioração dos modelos de governo, na verdade o que se observa é as pessoas estão deixando de ser egoista e passando para o altruismo. Este estado faz com que as pessoas percebam quão danoso é o modelo de negócio das empresas e do governo atual. Mas por conta disso e por conta da tecnologia vislumbra-se um novo modelo de negócio usando aplicativos e automatização das industrias. O modelo atual de negócios das empresas simplesmente não mais existirão pois as pessoas usam o ego para se manterem no emprego. O novo modelo de negócio será baseado no “Amar o próximo como a si mesmo” ou seja quanto mais pessoas puderem entrar no negócio mais todos vão ganhar.
    Assim há uma evolução da humanidade. Antes da revolução industrial o povo vivia muito na escravatura, Com o advento das industrias não mudou muita coisa. Houve melhoria de ganho material mas o homem continuou escravo de horas de trabalho, normas, regulamentos e Leis. O novo modelo de negócio as pessoas estarão livres para fazer do seu tempo o melhor para si compartilhado com outras pessoas de forma consciente.

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