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Kafka tem muito das relações que o Brasil tenta esconder

O autor de A Metamorfose, O Castelo, O Processo completa 100 anos de morte neste 3 de junho de 2024. Foi-se tuberculoso, num sanatório da Áustria, alguns anos antes da ascensão do nazismo pelas mãos de Hitler, também austríaco, a esta altura preparando a semente do mal.

Olhando para o Brasil- e levando em conta o universo kafkafiano- temos as instituições desafiando a sanidade (O Processo, O Castelo), gente transformada em coisa absurda (A Metamorfose), a intolerância com quem pensa diferente, uma certa compreensão das pessoas com criaturas mais destacadas porém, elas estão enroscadas às instituições, seus olhos e emoções vigiam e viciam. Há medo e também aceitação, o temor da desobediência e cumplicidade.

Kafka tinha ânsia de agradar ao pai. Ora, o pai brasileiro é o Poder e seus instrumentos. Agrade-o, faça-o feliz e também seja feliz. Desagrade e sinta a angústia de Gregório Samsa ou K., a morte em vida por isolamento, sufocamento das ideias, silêncios intencionais, “sonhos intranquilos”.

O Poder distribui cetros a seus soldados. É um batismo de fogo das almas tolas e perigosas. Também o capitão do mato sentia-se especial por definir a vida, a morte, castigos e capturas, como seu senhor. O pistoleiro reúne um certo prazer na troca de olhares com quem lhe banca. O chão melado de sangue os iguala.

São instantes mínimos de equilíbrio de forças diante da desgraça. O PM que arrebenta o casco dos rendidos é juiz, promotor, acusação, pena de morte. O diretor há décadas em determinada função numa secretaria municipal ou estadual é o amor e o ódio, protege e revela, expõe e destrói, sabe tudo e, ao mesmo tempo, nada.

Nunca um professor terá sossego se um diretor na Educação lhe odiar. Ou o prefeito. Ou o governador. Professor vai para as fazendas, as bibocas, as terras de ninguém, até a mente fundir,  a tristeza borrar o sorriso. E o mundo ruir como a sentença contra K em O Processo.

Seja inimigo e experimente o mal; seja amigo e fiscal dos inimigos e divida, por um micro instante, a maçã do Poder.

A agonia do inseto em A Metamorfose também é um grito de esperança diante do caos.

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Boa sorte.

SOBRE O AUTOR

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