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Fenômeno Bolsonaro e as relações familiares

Se você tem uma família que segue unida após as eleições presidenciais de 2018, você pode ser um privilegiado, ou não! Mas se houve “racha”, nosso intuito não é fomentar nenhum tipo de sentimento de culpa ou responsabilidade, creia.

Apenas paramos para olhar um pouco na direção do ontem, e perceber que muitas relações deixadas à margem do caminho, podem indicar crescimento pessoal, maturidade ou ética conviviológica, e explico:

A explosão de Bolsonaro como líder destampou uma força antiga, embolorada de tanto ter sido reprimida, mas que existia, atuava e influenciava condutas nos meios sociais, incluindo famílias e agrupamentos religiosos: a possessão do alheio, como motivação da cultura de mando! Chame de machismo, misoginia, homofobia, darwinismo social, eugenia, intolerância religiosa e outras mazelas morais.

Indivíduos que desenvolveram senso de coletividade, alteridade, sororidade, solidariedade e, inclusive, autoamor, não conseguiram manter incólumes relações antes vistas como “sagradas” quando a avalanche de posicionamentos pró-bolsonaro invadiram as relações cotidianas, pois o sofrimento causado pela realidade “nova”, inviabilizou solenes cafés da manhã, pois na fala ou no silêncio, Bolsonaro começou a fazer parte deles.

De repente, a pessoa homossexual começou a ver seus próprios pais declarando intenção de voto no presumível matador de corpos LGBTs, e isso foi impossível degustar sem doer a garganta.

O humanista ouvindo em seu próprio meio familiar os jargões do Jair e seus elogios da morte, sentiram o peso da expulsão, como peças que não conseguissem mais se encaixar, e de repente trouxesse uma percepção fugaz de que na verdade o que parecia “encaixe” era apenas tradição.

Amizades riscadas por comentários odientos nas redes sociais, foram obrigando as pessoas a escolherem o alimento da guerra ou da paz; comungar a violência como se nada estivesse acontecendo e violentar a própria natureza, ou buscar o paulatino afastamento.

Assim, tivemos linhas marcadas, como imperativo de sobrevivência ética e paz na mente. Mas e a culpa? Acusações levianas, enxertadas de moralismos de fundo religioso e até mesmo a solidão e o isolamento como motivadores de dores morais visitaram muitos indivíduos.

É crescimento pessoal reconhecer que há um abismo entre o ontem e o agora, mas não existe culpa por isso ter acontecido, afinal, por mais que trilhemos coletivamente, as escolhas são pessoais, levando em conta determinantes de afinidades, resultado de aquisições espirituais pregressas; mas estamos em plena atividade pedagógica, e não suportar conviver com quem nos oprime também faz parte deste movimento.

Maturidade ou ética conviviológica significa optar por não fazer sofrer, nem acatar receber sofrimento imposto por outrem, em nome da manutenção de uma relação, seja ela qual for.

Se a terapia não ajudar a encontrar os melhores caminhos, o afastamento físico ajuda a entender melhor, e escolher a melhor forma de aceitar que o outro seja o que é, sem acatar infelicidade.

No geral, Bolsonaro moveu as “placas tectônicas” das famílias, e raras não sofreram abalos, mas este fenômeno não é de todo negativo, pois o joio e o trigo crescem juntos, mas chega a hora da separação.

E sem superação, renúncia e enfrentamentos, raros de nós evoluímos; pois se a linearidade é referência de conforto, são as provas que desestabilizam o psiquismo viciado que nos possibilitam renovar mentalidades e subjetividades.

Sem culpa, amor é liberdade e respeito. Amemos, nos amemos!

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