“Falso autista”: quando uma fala antiga vira munição política

Por Silvio Rodrigo, repórter, autista nível 1 de suporte.

Talvez você tenha visto nas últimas semanas publicações afirmando que o neurologista José Salomão Schwartzman questionou a existência de pessoas autistas de nível 1 e afirmou que haveria quem se declarasse autista para obter supostas “benesses”.

Há um detalhe importante: essa entrevista não aconteceu agora.

Schwartzman esteve no Roda Viva em 6 de abril de 2026. A fala que voltou a circular em agosto é antiga. A entrevista está disponível no próprio acervo da TV Cultura.

Então a pergunta que me interessa não é apenas o que o médico disse.

É: por que uma fala de abril está sendo reapresentada em agosto como se fosse novamente uma notícia?

Os prints que acompanham este texto mostram um fenômeno que merece atenção. Diferentes páginas voltam a publicar trechos semelhantes, com chamadas semelhantes e, em alguns casos, sem deixar suficientemente evidente para o leitor que se trata de uma entrevista realizada meses antes.

 

Foto: Reprodução Instagram

Não estou afirmando, sem provas, que exista uma central coordenando essas publicações. Mas existe algo que pode ser observado: a formação de um ecossistema digital de recirculação de um mesmo discurso.

E esse discurso não é politicamente neutro.

Do diagnóstico à suspeita

Existe uma diferença enorme entre discutir critérios diagnósticos e transformar pessoas autistas em potenciais fraudadoras.

É legítimo discutir mudanças nos critérios diagnósticos, expansão das identificações e dificuldades de avaliação. Mas quando se afirma que pessoas estariam “se fazendo de autistas” para obter vantagens, a discussão muda de natureza.

O autista deixa de aparecer como sujeito de direitos e começa a aparecer como suspeito de fraude.

É especialmente perigoso quando isso se dirige aos chamados autistas de nível 1.

Ainda existe no senso comum uma interpretação profundamente equivocada de que nível 1 significa “autismo leve”, quase sinônimo de “quase não autista”. Não significa.

Menor necessidade de suporte em determinados contextos não significa ausência de deficiência, sofrimento ou necessidade de políticas públicas. Uma pessoa pode trabalhar, estudar, falar fluentemente, constituir família e, ainda assim, enfrentar barreiras significativas e precisar de adaptações.

A deficiência invisível produz justamente esse paradoxo: se você não parece suficientemente deficiente, sua deficiência passa a ser colocada em dúvida.

E é aí que nasce o personagem do “falso autista”.

O sujeito que “não parece autista”. O adulto que estudou, trabalha, dirige, fala bem, tem autonomia e, portanto, seria suspeito de estar “se aproveitando” de um diagnóstico.

Esse imaginário é capacitista porque exige que a pessoa com deficiência prove continuamente que merece ser reconhecida como pessoa com deficiência.

Quando direito vira “benesse”

Há uma palavra particularmente importante nessa discussão: “benesse”.

Quando um direito é apresentado como benesse, ele deixa de ser percebido como direito e passa a ser entendido como vantagem concedida a alguém.

E, se é uma vantagem, surge a pergunta: será que essa pessoa realmente merece?

Assim começa uma cadeia perigosa:

direito → privilégio → suspeita → fraude → restrição.

Isso interessa muito além do debate sobre autismo.

Políticas de saúde, educação, assistência e acessibilidade dependem de uma determinada concepção de Estado: a ideia de que pessoas que enfrentam barreiras sociais precisam de políticas capazes de reduzir essas desigualdades.

Quando essas políticas passam a ser apresentadas como um conjunto de “benefícios” que pessoas estariam tentando obter fraudulentamente, abre-se espaço para outro discurso: o de que o Estado está “dando demais”.

É aí que a discussão sobre autismo encontra uma disputa política maior.

Por que isso volta agora?

Estamos em agosto, a poucos meses das eleições de outubro, em um período de intensificação da disputa política e da formação das narrativas eleitorais.

Não é possível afirmar, apenas a partir da circulação dessas publicações, que exista uma operação eleitoral coordenada. Mas é perfeitamente legítimo perguntar que tipo de opinião pública está sendo produzida por essa recirculação.

Porque uma publicação não precisa ser falsa para ser politicamente poderosa.

Ela pode simplesmente retirar uma informação de seu contexto.

A entrevista aconteceu em abril. Mas, quando volta a circular sem destaque suficiente para sua data, ela pode ser recebida pelo público como acontecimento presente. A controvérsia antiga ganha uma nova vida.

E o resultado pode ser a produção de uma atmosfera em que autistas — sobretudo aqueles com menor necessidade de suporte — passam a ser vistos com desconfiança.

Quem ganha quando o direito de uma pessoa com deficiência passa a ser apresentado como uma possível fraude?

Essa é a pergunta que deveríamos fazer.

Não apenas “quantos estão fingindo ser autistas?”.

Mas por que estamos tão interessados em encontrar falsos autistas justamente quando os direitos das pessoas autistas estão sendo disputados?

Não quero que minha existência seja transformada em uma investigação permanente.

Não quero precisar parecer suficientemente deficiente para que minha deficiência seja reconhecida.

E não quero que direitos conquistados sejam chamados de “benesses”.

Direito não é favor. Acessibilidade não é privilégio. E uma pessoa autista não precisa performar sofrimento para provar que merece ser respeitada.

É por isso que os prints dessas publicações não devem ser vistos apenas como posts isolados.

Eles precisam ser interrogados.

Quem publica? Quando publica? O que omite? Quem compartilha? Quem amplifica? E que interesses encontram terreno fértil quando pessoas com deficiência passam a ser tratadas como suspeitas?

Porque talvez a questão mais importante não seja o retorno de uma fala antiga.

Talvez seja o que essa fala está sendo utilizada para produzir agora.

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