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Eu mãe e o Estado criminoso: inconciliáveis

Mais um 30 de agosto que chega em meu peito ferido de dor sem cura, quando a triste memória do ano de 2007 rasga minha vigilância e se impõe guerreira, no território solitário da luta comum de uma mulher mãe.

Tinha o filho quase 13 anos quando o crime estrutural disfarçado de fatalidade se deu, sob a testemunha distante do luar de agosto em uma cidade pequena de Alagoas: pequena no território, na demografia, na perspectiva, na estima e no senso de justiça.

Pedalava com amigos, quando a corrente da bicicleta pulou do eixo, e para consertar na rapidez ele fez uso de uma pequena pedra de brita, a qual descartou aleatoriamente, indo esta bater na lataria de um carro da guarda-municipal que por lá passava.

Seu nervosismo o levou a fugir, mas foi perseguido pelo próprio chefe da guarda e por ele atropelado. Ao cair, corpo machucado, foi detido como um marginal, ajoelhado, recebendo um pisão de coturno no meio das costas e um cano de revólver na cabeça.

Algemado com as mãos para trás, foi lançado na viatura da guarda e levado para a delegacia regional.

Na delegacia, foi retirado da viatura da guarda sob um tapa forte na cabeça, e levado à presença do delegado. Este o acusou de inúmeros tipos de crimes e ordenou que fosse mostrar onde moravam os outros meninos.

Ainda com algemas meu filho foi conduzido até uma viatura da polícia civil alagoana e jogado dentro de uma cela que existia nela. Enquanto dava giros pela cidade, os policiais sacolejavam a viatura, para que o corpo pequeno que estava lá dentro fosse jogado de um lado para o outro, sem ter como se aparar, já que as mãos estavam algemadas para trás.

Passando pela casa dos meus pais, ele gritava que ali era a casa dele, mas recebia respostas violentas, xingamentos e mais solavancos.

Um anônimo foi avisar ao meu pai, que à época tinha 67 anos, o que tinha visto acontecer no meio da rua. Rumando o mesmo para a delegacia, encontrou o neto em estado deplorável, sendo humilhado pelo delegado que o acusava de drogadição e roubo, um impropério aos olhos do meu pai, que rogava para que o soltassem, mas a resposta do delegado foi jogar o menino em uma cela junto com os presidiários adultos que se encontravam nela.

Estando em Maceió, recebi a triste notícia e meu esposo, jornalista conhecido, apelou para todos os mecanismos que a sociedade civil e o governo dispunham, no intuito de retirar o filho daquele lugar onde nunca deveria ter entrado.

Acostumados a fazer este tipo de cometimento com meninos mais empobrecidos, os policiais receberam ligação até do Secretário de Segurança do Estado de Alagoas à época, para então liberar um garoto já destruído em seu emocional e ferido no corpo e na alma.

Quando cheguei até meu pequeno, ele era puro tremor. Dormi abraçada com ele aquela noite, e durante todo tempo sentia os disparos musculares que fazia, balançando toda a cama. Nunca mais seria o mesmo!

Ingenuamente, no dia seguinte levei a vítima para fazer exame de corpo de delito e denunciei na Corregedoria da Polícia Civil de Alagoas, porque ainda acreditava nos sistemas e na falácia de que somos cidadãos de direitos no Brasil.

Assim foi aberta a temporada de ameaças, perseguições e destruição pública da imagem de um garoto.

Transtornado, se tornou causa de muitos transtornos familiares. Um aprendizado que ainda não consegui processar em toda dimensão que verdadeiramente possui, porque a dor é lancinante e como mãe, também adoeci.

Sentia-se indigno até mesmo de usar o elevador social e entrar em casa pela porta da frente, fazendo sempre uso da porta de trás e do elevador de serviço. Passou quinze dias mudo e sem querer alimentos. Olhava o mar da janela do quarto, no sexto andar, com desejo de pular, mas eu ficava ao lado, faltava no trabalho e levava falta e todo cortejo de incompreensões.

Fiz denúncias e denúncias, onde existisse uma porta com a siga Direitos Humanos, mas…

Três anos de sofrimentos depois, outro telefonema anunciava o fim de uma dor para surgir outra ainda maior, infindável e combustível perene da luta por justiça que movimenta nossos dias.

Outro crime torpe, orquestrado, acobertado, nos levava o filho amado, aos 16 anos, com um tiro na cabeça e outro no abdômen. Morria um jovem para nascer um bandido, mas nós jamais permitimos!

Nasceu um mártir!

Minha luta de mãe nunca foi acolhida por nenhum tipo de movimento social, não virou emblema, nem comoveu multidões, mas nunca recuei!

Minha aparência não permitiu ser encaixada como mulher negra, não era mãe periférica, nem elite, portanto, um limbo político tentou absorver meus gritos, mas eu não me submeti!

Onde pude falar, eu incomodei. Onde pude escrever, eu registrei e Alexystaine virou miolo de livro, inspiração para o surgimento da escritora que não precisa de aprovação para escrever e publicar.

Arrasto esse fardo com dignidade e em cada oportunidade eu falo, grito, recito, escarro e vomito essa sociedade espúria que desfigura um rosto angelical para encobrir os próprios crimes.

Por Alexystaine, por todas as vítimas, eu mãe, sigo com uma bandeira de humanidade na mão, e sei que jamais estarei sozinha por tudo o que represento neste ato político de amor.

Respostas de 5

  1. Senti dor durante toda essa leitura, mas não sou capaz de imaginar a dor pela qual você e seu filho passaram e passam. O combustível da luta é a injustiça, mas o refrigério é o amor. Receba o meu apreço e consideração pelo seu empenho em lutar por um mundo melhor, apesar de todo esse fardo.

  2. Minha amiga, minha irmã. É muito difícil eu chorar. Muito mesmo. Mas cheguei às lágrima. Que sua dor seja um farol para a sociedade. Para todos nós. para lutarmos pela verdade e pela justiça.só assim o amor e a paz reinarão.

  3. Minha amiga, minha irmã. É muito difícil eu chorar. Muito mesmo. Mas cheguei às lágrima. Que sua dor seja um farol para a sociedade. Para todos nós. para lutarmos pela verdade e pela justiça.só assim o amor e a paz reinarão. Meu neto mais velho tem treze anos.

  4. Sempre q vejo a foto desse garoto imagino a dor da família. Que pesadelo interminável e luto infindável. Força, professora!

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