Espiritismo jamais será bolsonarismo

Discutiremos sem disputar, tal qual orienta Kardec aos interessados na ciência espírita. Mas buscaremos fundamentar argumentos em acordo com o próprio legado kardeciano em benefício da razão, energia de propulsão aos posicionamentos políticos desta hora grave.

O Espiritismo poderá ser ao menos confundido com o bolsonarismo?

Não o pode, pelas inúmeras imperfeições que norteiam pensamentos e atos dos que se envolvem neste esquema de seita política fundamentalista, que convoca demônios antigos na alçada nazi-fascista, esquemas ditatoriais e aplicações de políticas econômicas genocidas.

Nestas linhas tomaremos como guia para nossas análises a Revista Espírita, no uso comparativo de alguns trechos, sendo o primeiro abaixo transcrito:

“Façamos ainda uma consideração que não se deve jamais perder de vista: a de que entre os Espíritos, assim como entre os homens, há os muito ignorantes, de modo que nunca serão demais as cautelas que se tomem contra a tendência a crer que, por serem Espíritos, todos devam saber tudo.”

A orientação acima tomamos como ponto de reflexão alusivo às ditas comunicações mediúnicas que supostamente apontaram Jair Messias Bolsonaro como um “enviado” das hostes celestes para o “bom combate” na terra brasileira.

Se de fato existiram espíritos interessados neste feito, esta própria manifestação de “interesse” já serve de razão para despertar cuidados no espírita sério, comprometido com a preservação da pureza de ensinamentos trazidos pela doutrina que diz representar. Haja vista serem de compromissos exclusivos dos encarnados as suas escolhas políticas e sociais, mesmo que os espíritos benevolentes contribuam para a evolução do orbe com ensinamentos pertinentes e até conselhos que levem os humanos à reflexão. Porém, com as devidas precauções relativas à campanhas políticas no âmbito partidário.

Uma característica apontada como marca de seriedade nos espíritos encarnados e desencarnados é a forma como estes se expressam, seja no uso da linguagem como em atitudes. Neste quesito o criador do bolsonarismo encontraria imediata reprovação, pois é de contínuo em sua trajetória de aparição pública o uso de baixo calão no linguajar chegando aos gestos, posturas e posicionamentos pessoais.

Encontramos na Revista Espírita, esta afirmativa: “Não inventamos os Espíritos, nem seus caracteres, julgamos-los pelas suas palavras e atos, depois os classificamos pelas semelhanças.”

Talvez o meio espírita brasileiro tenha deixado passar em branco esta assertiva de análise do perfil espiritual de Bolsonaro, questão pela qual nenhum de nós poderá responsabilizar a ele mesmo, que não ocultou em momento algum o próprio linguajar ferino e desrespeitoso, assim como nunca negou suas intenções destruidoras.

Kardec nos diz que estudar os espíritos é também estudar o homem, haja vista a movimentação incessante de renascimentos e encarnações, desligamentos corpóreos e retomadas à condição de espíritos errantes, para outra vez encarnar pelos distintos mundos espalhados na grande casa do Pai.

Está na Revista esta afirmação: “O mundo dos Espíritos compõem-se de almas de todos os humanos desta Terra e de outras esferas, despojadas dos liames corporais; do mesmo modo, todos os humanos são animados por Espíritos neles encarnados. Há, pois, a solidariedade entre esses dois mundos: os homens terão as qualidades e as imperfeições dos Espíritos aos quais estão unidos.”

Tal compreensão nos anima a seguir buscando conhecer sobre os espíritos, envolvendo nesta saga de evolução cada um de nós, a quem pertence a história e a era vivida enquanto seres encarnados na Terra.

Analisando nesta via de compreensão, voltamos à motivação da escrita, separando irremediavelmente Espiritismo (vibração de luz e clarividência) de bolsonarismo, uma marca lodosa de enganos que impõe alto preço societário e individual aos que se enredam pelos caminhos traduzidos em palavras e atos de destruição do outro.

Na sequência da linha analítica, trazemos outro trecho:

“Como os atos dos homens são o produto do seu livre-arbítrio, carregam a marca da perfeição ou da imperfeição do Espírito que os provoca. Ser-nos-á, pois, muito fácil fazer uma ideia do estado moral de um mundo qualquer conforme a natureza dos Espíritos que o habitam; de algum modo poderíamos descrever sua legislação, traçar quadros de seus costumes, de seus usos e de suas relações sociais.”

Sim, nós espíritos encarnados ou desencarnados temos laços estreitos com coletividades atuantes. Regidas por esquemas de organizações elaboradas em acordo com a preponderância do bem ou do mal proceder. Por esta razão é muito importante ao estudioso da ciência espírita, conhecer as formas possíveis de organizações sociais e os móveis subjetivos que as engendram.

O período da ingenuidade deve chegar ao seu termo quando nos abrirmos ao tempo da razão e plenitude do conhecimento, rasgando os véus das distrações místicas, que costumam manter grilhões em forma de limitação moral sob a ordem autoritária, seletiva e distanciada do amor.

Nesta reflexão proposta seguimos equilibrando o comparativo entre a escrita de Kardec e nossa atualidade brasileira, com vistas ao clareamento necessário sobre o cenário político e seus reflexos no meio espírita.

“Suponhamos, então, um globo habitado, exclusivamente por Espíritos da nona classe, por Espíritos impuros, e para lá nos transportemos pelo pensamento. Nele veremos todas as paixões liberadas e sem freio; o estado moral, no mais baixo grau de embrutecimento, a vida animal em toda sua brutalidade; nada de laços sociais, porquanto cada um só vive e age por si e para satisfazer seus grosseiros apetites; o egoísmo ali reina como soberano absoluto, arrastando no seu cortejo o ódio, o ciúme, a cupidez e o assassínio.”

Assim posta a definição de um mundo atrasado, muitas vezes nós espíritas recorremos às imagens cristalizadas no mais comum moralismo para julgar as pessoas em acordo com as réguas do padrão social aplicado como majoritário, passando por cima de análises pertinentes às nossas vidas comuns, por não fazermos correlação com a violência praticada pelos poderes do mundo. Ou seja, traçamos sobre as individualidades as responsabilidades e liberamos os agentes societários das influências e exemplificações, inclusive quando estes ferem o cumprimento das leis que deveriam proteger a sociedade.

Poderíamos encontrar vários pontos de endurecimento relacional acima exposto no movimento bolsonarista, sem fazer esforço de retórica. Haja vista o ódio que expande em gritos e gestos, comprometendo a história desta nação.

Sigamos com a Revista Espírita: “Passemos agora a uma outra esfera, onde se encontram Espíritos de todas as classes da terceira ordem: Espíritos impuros, levianos, pseudo-sábios, neutros.[…] O egoísmo é sempre o móvel principal das ações, mas os costumes são mais suaves, a inteligência mais desenvolvida; o mal aí está um pouco disfarçado, enfeitado, dissimulado. Essas próprias qualidades dão origem a outro defeito: o orgulho, pois as classes mais elevadas são suficientemente esclarecidas para terem consciência de sua superioridade, mas não o bastante para compreenderem aquilo que lhes falta.”

Podemos vislumbrar uma sociedade familiar aos nossos olhos, ou seja, um conglomerado de espíritos em diferentes níveis de compreensão dos fenômenos acerca da vida e da razão das coisas, mas ainda pulsantes na individualidade e interesses em situações de privilégios. Egoístas, porém inteligentes. Capazes de camuflar as verdadeiras intenções construindo as máscaras da conveniência, legitimando padrões que refletem a rigidez e o desamor, porém, de maneira dissimulada, a enfeitar com palavras as atitudes de fundo perverso. Este tipo de sociedade capta o bolsonarismo como solução para muitos dos seus problemas, principalmente pela frouxidão de princípios salutares que a caracteriza.

Para concluir, analisaremos o último trecho escolhido:

“Suponhamos agora um mundo onde, entre os elementos maus […] se encontrem alguns da segunda ordem; no meio da perversidade veremos aparecer, então, algumas virtudes. Se estiverem em minoria, os bons serão vítimas dos maus; porém à medida que se aumente a sua preponderância, a legislação será mais humana, mais equitativa e para todos a caridade cristã deixa de ser letra morta. Desse mesmo bem nascerá outro vício. A despeito da guerra incessante que os maus declarem aos bons, não podem evitar que se estimem em seu foro íntimo; percebendo o ascendente da virtude sobre o vício, e não tendo força nem vontade de praticá-la, procuram parodiá-la; tomam-lhe a máscara, daí os hipócritas, tão numerosos em toda sociedade onde a civilização é imperfeita.”

Como não concluir que muitos destes espíritos que não toleram o chamado da virtude, atuaram no momento histórico brasileiro, no dado instante em que crescia o eco dos Direitos Humanos e os apelos ao respeito à diversidade e reparação de erros históricos através da implantação de políticas afirmativas, no intuito de “parodiar” a civilidade?

A esta paródia disforme chame bolsonarismo.

Nascida de uma simbologia de domínio, subjugação e destruição do outro através de uma arma apontada, esta vertente política funcionou como armadilha para pseudo-sábios espíritas, movidos por antigos sentimentos de referência com o mando e os sistemas de opressão social.

Nunca será Espiritismo, mas apenas um erro histórico e político grosseiro e genocida, o bolsonarismo.

Espiritismo é vitória da vida!

12 thoughts on “Espiritismo jamais será bolsonarismo

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    Não sabia que a militância estava agora usando o espiritismo para fazer política partidária!
    Texto com vocabulário totalmente tendencioso!
    Sem credibilidade!

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      Não sabia? Chamam Bolsonaro de enviado de Deus, Moro e a República de Curitiba de seres de luz. Tem muito material no YouTube para ver que a matéria tem razão.

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      Como nao? So porque não atende ao que voce pensa? concordo com o texto e digo, quem vai a centro espirita e abre a boca pra falar no Mestre Jesus, não tem noção do que faz na vida quando apoia criaturas como Bolsonaro.

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    Este texto é a prova de que as ideias de justiça, amor e caridade, norteadoras da Doutrina Espírita, podem não estar sendo lembradas, inclusive por parte do próprio movimento onde surgiu a ideia de relacionar trechos da literatura espírita para promover um viés de confirmação de ideologia. Será que se faz necessário mesmo analisar um “perfil espiritual de Bolsonaro”?! Que coisa! Lamentável mesmo! Só para lembrar: “Fora da Caridade não há salvação “.

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      Sim, faz-se mesmo necessário analisar esse perfil, que é uma mistura de tudo o que Kardec descreve em cada uma da partes do texto acima, mas que “misteriosamente” foi o perfil que encantou o Movimento Espírita, na última eleição, em detrimento de todos os outros que estavam na disputa eleitoral. Lamentável mesmo é o que a História contará, a partir daqui, em relação a esse apoio e aproximação com ideias beligerantes, preconceituosas, odiosas, de egoísmo e falta de empatia e solidariedade que, mais do que nunca, a gente vê escancarado no “Messias” enviado para salvar o Brasil, durante essa pandemia. Tenho amigos não espíritas que não conheciam o Espiritismo e agora nem pretendem mais, por conta disso.

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    Este texto é a prova de que as ideias de justiça, amor e caridade, norteadoras da Doutrina Espírita, podem não estar sendo lembradas, inclusive por parte do próprio movimento onde surgiu a ideia de relacionar trechos da literatura espírita para promover um viés de confirmação de ideologias. Será que se faz necessário mesmo analisar um “perfil espiritual de Bolsonaro”?! Só para lembrar: “Fora da Caridade não há salvação “.

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    Que alegria ler algo assim. Muito obrigado, Ana Claudia, por seu texto tão bem escrito, tão bem argumento, e embasado na Doutrina. De verdade, estou cansado de tanta gente usar religiões e crenças para justificar os atos genocidas daquele homem. Fico feliz de verdade quando encontro algo assim, honesto, ponderado e sensato. Obrigado, de verdade.

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    O espiritismo e um caminho para o inferno infelizmente as pessoas s conhecer as verdadeiras escrituras trilha por esse caminho de perdição Cristo pregou o evangelho e só pôr ele somos conduzido ao céu não existe esse negócio de espiritismo só Cristo e o mediador entre o paí celestial e nos humano não existe Maria , papa, pastor não nada disso só Cristo através do evangelho

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      Você se surpreenderia se se permitisse estudar o espiritismo que outra coisa não faz do que desdobrar e aprofundar o evangelho. Ali aprendemos que nossa relação com Deus é entre nós e Ele somente. No entanto aprendemos a respeitar sim os seus missionários na Terra…

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    O ESPIRITISMO COMO RELIGIÃO, FILOSOFIA E CIÊNCIA, NAO PODE SERVIR DE BRAÇO POLÍTICO/ PARTIDÁRIO DE QUAISQUER QUE SEJA O VIÉS IDEOLÓGICO. OBEDECE AS LEIS DE DEUS ENTRE AS QUAIS A DO ” LIVRE ARBÍTRIO ” COMO SINAL DE RESPEITO E DE AMOR PARA COM SEU PRÓXIMO. A DISSEMINAÇÃO DE MATÉRIAS COMO ESSA SÓ PREJUÍZOS PRODUZ A CAUSA ESPÍRITA QUE DEBW-SE MANTER EQUIDISTANTE DESSAS QUERELAS POLÍTICAS. QUE DEUS NOS PROTEJA!!!

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