
Foto:Marco Antônio/Secom Maceió *** Local Caption *** Retirada Favela Jaraguá
Dois anos após a retirada das famílias da favela de Jaraguá e nada de data para a inauguração do Centro Pesqueiro (seria em dezembro de 2015), o bairro histórico de Maceió- uma joia arquitetônica no Centro da capital alagoana- serve de reflexão para algumas dezenas de estudos que circulam no ambiente acadêmico.
Um deles é de Fátima Maria Lyra Cavalcante, advogada e professora da Seune em Maceió. No interessante artigo “A Vila dos Pescadores de Jaraguá e sua Interação com a Política de Revitalização do Centro Histórico: A Reurbanização do Espaço Público e a Exclusão Social”, publicado na revista Olhares Plurais, ela mostra como a favela acabou se transformando em um obstáculo para a já pretendida atração de investimentos privados.
Algo que começou na década de 90, com a proposta de revitalização de Jaraguá, atraindo comerciantes, órgãos públicos, estacionamento, centro de convenções e transferir os moradores da favela (alguns registros indicam que ela esteve lá por 70 anos) para a parte alta de Maceió.
“Entretanto, esse viés consumerista da revitalização do Centro Histórico não é devido a qualquer um: consumir um espaço urbano privilegiado é benefício para grupos seletos e solventes. Para isso, a imagem da pobreza não pode permanecer na mesma localidade”, explica a pesquisadora.
Por óbvio, Jaraguá é um lugar privilegiado. A poucos metros da praia de Pajuçara (início da área nobre de Maceió), rota para a Barra de São Miguel (endereço de luxo da elite alagoana), o espaço da favela (na enseada do Porto de Maceió) é local dos sonhos da especulação imobiliária. Em especial de algumas famílias de usineiros e seus trapiches abandonados do outro lado da rua, ao longo da Sá e Albuquerque, que pretendem vender alguns galpões para ali instalar prédios com moradores mais endinheirados de visão privilegiada para a praia da Avenida.
Derrubada a favela há dois anos, o tal sonho tornou-se real.
Onde estão os moradores da favela que sobreviviam da pesca?
Viraram invisíveis.
“Se pela lógica do mercado e empresarial, os espaços urbanos privilegiados não devem ser usufruídos pela população vulnerável, ela também não deve participar da construção desses espaços. Essa faceta ideológica ficou demonstrada nos procedimentos da SPU para a cessão da área da Vila dos Pescadores para o Município, nos documentos formalizados pelo MPF e nas notícias veiculadas pela imprensa local. Em todos esses meios comprovou-se a exclusão da comunidade pesqueira no projeto turístico que, em tese, iria lhe beneficiar”, entende a pesquisadora.
A derrubada da favela de Jaraguá para “se cumprir a lei”- essa lei tão a favor dos amigos- serviu para mostrar o que acontece aos pobres auto-suficientes no Brasil. E, em nome da assepsia das cidades, gente de pé no chão não convive com sapatos lustrados.





