Desde aquele encontro penso na pessoa. Porque neste peito ainda pulsa um coração que verte sensibilidade. E apesar de todo asco que um discurso bolsonarista consegue me fazer sentir, neste caso o interesse foi por outra vertente de análise.
A pessoa não consegue disfarçar a dificuldade de encaixe nos padrões da heterossexualidade, e força um namoro com alguém do sexo oposto. Vi na apresentação um tipo de senha heteronormativa, após uma conversa confusa na mesa, onde tentava emplacar suas razões para ser “bolsonarista”.
O discurso fast food veio pronto, com todos os erros de lógica e ausência de nexo causal, próprio dos defensores de Bolsonaro, mas faltava o ódio na voz.
O círculo de amizade desta criatura é finamente trabalhado nas sete cores, e com sorriso amistoso zombava e repetia o descrédito em tudo aquilo que a pessoa dizia.
Assim também me expressei, desconfiada do que via e ouvia, quando aquele rosto pleno de trejeitos acusava a esquerda de crimes ilusórios, como um náufrago que busca se agarrar em algo.
O corpo que não gostaria de ter, a sexualidade que exigia um posicionamento de firmeza e a busca de respaldo no discurso tosco para afirmar a negativa sexual na expressão que lhe foge do controle consciente, mostrava um drama.
Como nós já sabemos que nem tudo é “pão, pão/ queijo, queijo” neste palco social diverso, mais uma vez somos convidados a refletir sobre estas motivações inexplicadas que ligam potenciais vítimas ao potencial exterminador, que neste caso é Bolsonaro.
Mas o pano de fundo daquilo que aparenta ser um transtorno comportamental, é a homofobia. O medo do que implica assumir uma identidade sexual perseguida, estigmatizada, e agora mais do que nunca, hostilizada e ameaçada.
A estranheza de ver uma pessoa jovem em relação de ódio consigo mesma, canalizando suas energias para apoiar a necro-política do próprio algoz, nos alerta para as tantas facetas da humanidade que se reúne em blocos fascistas.
Não colocaria meu pescoço de esquerdista ao alcance dos braços desta pessoa jovem, mas reconheço seus temores e desespero, em busca de uma identidade validada pela sociedade homofóbica.
Entre homossexuais, a pessoa busca elevar o tom da própria voz para elogiar Bolsonaro, o homofóbico declarado. Seus amigos não levam isso a sério e a história segue sem ponto final, ainda.
Precisamos falar sobre sexualidade, para este tiro não sair pela culatra.
Urge que possamos abrir espaço de diálogo sobre sexualidade, esta energia humana vital, que está na base da criatividade e das respostas renovadoras.
Nunca antes o palco político partidário demonstrou de maneira tão evidente a influência da sexualidade nas escolhas políticas desta nação. Será um sinal dos tempos?
É tempo de falar de coisas de gente.






Respostas de 2
Maravilhosa! Sou seu fã.
Li meros 2 textos seus hoje e já sinto que leria um salmo de sua autoria por livre e espontânea vontade. Obrigada por trazer reflexões implícitas no mais inteligente e elegante linguajar! Já pode me considerar como uma grande fã.