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De enlutada a criminosa: misoginia no MP e Judiciário

Na hora exata em que tomei conhecimento da decisão do juiz de Maravilha, no sertão alagoano – acatando denúncia de um promotor do citado município contra uma mãe que se encontra em luto por uma filha de seis anos, estuprada e morta – precisei parar e sair um pouco do lugar onde estava.

O ímpeto de reagir com indignação em mais uma demonstração misógina vinda dos lados do judiciário, foi forte. Mas pausei o sentimento. Busquei nos arquivos mentais tantas outras injustiças cometidas contra mulheres pelos dedos (machistas) da lei e respirei fundo, já no domínio do asco.

Reli mentalmente o trecho que mais me chocou, exatamente pelo espectro do moralismo burguês que se dependurava nele, e pude identificar a sociedade inteira apoiando os dois homens que expuseram uma mãe/vítima de violência junto com sua filha por estar na rua em dada hora da madrugada e por se relacionar com o macho algoz.

Este “crime” igualou a mãe a um estuprador/assassino, retirando a mulher da condição de enlutada para a situação de criminosa, porque o Ministério Público e o Judiciário entenderam que ela cometeu crime de responsabilidade não cumprindo seu “papel de mãe”, inclusive por não não ter sentido falta imediata da filha.

Instituições que reforçam preconceitos antigos contra uma mulher e ao responsabilizá-la judicialmente passam para a sociedade a impressão de atenuar a culpa do estuprador/assassino. Desta vez não foi a sensualidade da roupa, nem a cor do batom, mas foi o fato de aquela “mãe” estar fora de casa e no meio das pessoas com quem partilhava esta saída estava o criminoso ( se ela estivesse em casa com a filha, não teria acontecido estupro nem assassinato da menina).

Portanto, uma mulher continua sendo culpada quando algum macho estupra e mata!

Parece uma roda que gira na mesma direção. Misoginia.

Não há como dormir em paz no Brasil do século XXI.

 

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