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De analfabeta a liberta: 2018, Orixás e 2019

Está findando o ano que me transformou para além dos temores, porque derrubou estruturas mentais cristalizadas e eliminou clichês relacionais, me libertando para a vida consciencial mais plena que já consegui ter.

Vou começar este texto do fim: expresso publicamente minha gratidão aos Orixás que me permitiram adentrar pela primeira vez em um Terreiro e apreciar outras expressões e vivências de fé, liberta das cadeias darwinistas.

Agora volto ao início.

Fui criada no medo dos tambores. Aos 8 anos vi um despacho nas proximidades de casa e tudo o que tinha nele me apavorou, porque era “macumba”, e este termo trazia todas as feiuras de uma simbologia diabólica, impregnada no sistema de crenças que foi preparado para as crianças que como eu frequentavam as “aulas” de catecismo na igreja matriz.

Bastava ouvir os tambores pelas proximidades e me entregava a um frenesi instantâneo na reza do “Pai-Nosso”, porque sentia medo de dormir.

Estas barreiras me afastaram dos Terreiros e me tornei analfabeta neste território. Como ainda me sinto agora.

Na juventude, cheguei a acompanhar algumas pessoas que procuravam cura em algum trabalho da Umbanda, mas olhava o ambiente como um chão minado, com medo de tudo. Não tinha predisposição de compreender versões diferenciadas, embora sentisse que aquele assombro da infância diminuíra.

As yalorixás eram consideradas “bruxas” e “macumbeiras”, sobre elas pairava uma aura especial que revertia em muita discriminação, por esse motivo eu mal conheci pessoalmente aquelas sobre quem sempre ouvia as pessoas falarem.

Fui católica de Batismo, Primeira Eucaristia e Crisma, e obviamente eu sou muito grata pelas vivências de espiritualização que construíram o melhor da etapa juvenil junto às Pastorais, foi sendo jovem católica que desenvolvi noções comunitárias, que mais adiante me possibilitaram conhecer a militância política.

Sob a alcunha de “igrejeira” começava a ler os primeiros livros sobre Capitalismo e Socialismo. Conheci a Teologia da Libertação e as iluminações das Comunidades Eclesiais de Base e Pastoral da Juventude do Meio Popular. Contudo, a busca de circunstâncias novas me levou ao kardecismo.

Leitora, estudiosa, me afinei com as muitas portas de crenças que se me abriam, pois a derrubada da morte era um despertar de força íntima, a afastar medos. E assim como ocorreu no catolicismo, fui galgando acessos dentro do espiritismo, que negava dogmas, mas me ofereceu inúmeros.

Bebi nas fontes da ilustração, da iluminação e da ilusão; e como foi amargo o despertar! Mas a vida é operosa, quando nos permitimos sentir para decidir. Por subidas e descidas estive com identidade firmada na Doutrina Espírita.

Minha convivência com os santos do axé e encantados que se comunicavam nas mesas ecléticas foi sendo trabalhada pela razão, pelo senso de igualdade e liberdade religiosa, até ser amparada em momento de grande dor por um grupo de pretos, no qual Pai Zé permitiu minha chegada e ao seu modo, cuidava das minhas feridas sem jogar o carma na minha cara!

Foi um período regular e intenso, me ajudando a reerguer as forças! Cultivar poesias mais profundas. Me importar menos com a ignorância em nome do amor à luz, que é concepção libertadora!

Mas foi no último pleito eleitoral que as águas se abriram, e não consegui ladear com espíritas que apoiaram o eleito Jair, aquele que forjaram ser o Messias, mas nunca passou de um atormentado Bolsonaro, mergulhado em dolo!

Resolvi buscar amparo nas artes literárias, raio de resistência a iluminar estes dias de desconforto para a cidadania brasileira. E a modesta Academia Matrizense de Letras, em sua formalidade de posse, resolveu homenagear patrimônios culturais vivos, entre eles a yalorixá Marivá, que nos convidou a participar de um toque para os Orixás.

A vida é inteligente, é maravilhosa! Esse convite foi feito no momento certo e aceitá-lo também foi um gesto acertado. Pois o que os olhos viram e as emoções comunicaram, falou de força ancestral e energia de continuidade.

Não será a perseguição quem vai parar a nação! Os organizadores espirituais não permitirão que o toque se cale. Eu vi o futuro do país nos pés de quem dança, na garganta de quem canta, na entrega de quem recebe os nove Orixás e senti o doce do mel que Oxóssi  colocou na minha boca.

Eu me tornei esperança dentro do meu próprio ser ferido pelas violências de fora, porque olhei para dentro de mim mesma; parte desse movimento que esquece a morte para se ocupar com a vida.

Meu analfabetismo não impediu a sincronia com a alegre vivência, porque a acolhida da fé dispensa diplomas, pede energia.

Agora eu estou pronta para 2019.

SOBRE O AUTOR

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