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Da invisibilidade à luta: mulher lésbica e libertação por Alícia Cavalcante

Em comemoração a março, mês das mulheres e da luta contra a lesbofobia, convidei a psicóloga e historiadora Alícia Cavalcante para contar sua vivência de lutas pelo protagonismo de sua história. Ela que sempre se mostrou ativa na militância e no seu comprometimento com a saúde, através de sua atuação enquanto psicóloga, e na educação, como professora de História, hoje narra sua trajetória de forma breve, por conta do formato do Blog, mas com a irreverência e o orgulho característicos dos lutadores da libertação.

“Para discorrer sobre a vivência lésbica é importante abordar o papel social, historicamente construído da figura das mulheres que tiveram seu protagonismo apagado ao longo do processo histórico e entendidas como um ser frágil, submisso, recatado e com função voltada aos espaços privados.

Logo, as mulheres tinham a função de dar prazer ao homem e satisfazer suas vontades, assumindo uma função social invisível e convivendo naturalmente com a violação de seus direitos. Algo legitimado pela sociedade patriarcal.

A mulher lésbica, no entanto, sofre uma soma de opressões pois além da discriminação que o gênero feminino sofre, sua sexualidade se encontra fora dos padrões estabelecidos na norma social hegemônica. O preconceito aumenta ainda mais se a raça ou etnia da mulher também for desvalorizada socialmente.

Para grande parte da sociedade as lésbicas não são consideradas mulheres porque não servem ao sistema heterossexual compulsório pois não mantém relação de servidão com os homens, escapando de deveres conjugais, trabalhos domésticos e produção ilimitada de filhos.

Ser lésbica significa afastar os comportamentos estereotipados do ser mãe e esposa.

Minha identidade lésbica foi construída em cima de uma realidade dolorosa advinda de minha história, envolvendo expulsão de casa e rejeição pela família nuclear.

Devido ao estigma, mantive minha orientação sexual no anonimato até me inserir na universidade, a fim de não prejudicar minhas relações familiares.

Hoje vejo que me assumir mulher lésbica repercute na possibilidade de ficar vulnerável. Pois, denominar-se e entender-se lésbica é afrontar a norma, expor-se a agressão, se sentir marginalizada.

Eu não estava pronta para carregar essa responsabilidade antes da minha independência.

Assumir minha identidade lésbica provocou conflitos tanto internos como externos. O primeiro foi o interno, houve um grande conflito no processo de descoberta e aceitação. Vivenciei emoções e sentimentos como o medo, a culpa e a remorso ao me atrair por meninas.

Tive problemas na autoestima e autoaceitação por conta de crenças religiosas e cheguei a orar para que Deus removesse aqueles pensamentos que rotulei, de acordo com o roteiro religioso, como pecaminosos.

Experienciar os conflitos externos foram ainda piores, já que minha família foi educada para entender a homossexualidade como doença e transtorno. Até hoje esperam que eu mantenha comportamentos discretos que atendam as expectativas do meu gênero.

Como solução para vivenciar a homoafetividade, tomei a decisão de me afastar da família e dos amigos de infância. Sai de casa aos 17 anos, iniciei a vida profissional muito cedo, amadureci e quebrei os tabus que me foram inseridos na mais tenra idade.

Poderia ter desistido de tudo, mas minha decisão foi outra: iniciei o curso de Psicologia, pois entendi que saúde mental é direito nosso e o curso de licenciatura em História, pois aprendi a necessidade de resgatarmos a realidade de nossas lutas. Este foi o momento que tive que conciliar sofrimento, força de vontade, trabalho e família. Aos 22 anos, para inquietação das más línguas, sou psicóloga formada e atuante, licenciada em História e professora, além de dona da minha vida.

No contato com a Psicologia, aprendi a necessidade de pontuar sobre a visibilidade lésbica na saúde e não poderia deixar de citar aqui que a sociedade patriarcal enxerga a relação sexual centrada no pênis e, nesta lógica, sem penetração não há sexo. Se não há sexo não é preciso pensar em cuidados, métodos de prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ver Almeida, 2009)

Aprender a tomar conta da própria saúde é um desafio para nós e conheço lésbicas que por não terem acesso a informação, pensam que não contraem doenças através da prática sexual. O que é uma grande ignorância, porque as mulheres lésbicas estão suscetíveis a diversos tipos de infecções e doenças sexualmente transmissíveis.

Entretanto, não há divulgação de pesquisas que comprovem isso, não há disseminação de informações sobre a saúde da mulher lésbica. Não há interesse em abordar o tema. A saúde das mulheres lésbicas encontra-se invisível e se soma a várias situações de invisibilidade que temos que enfrentar

Como consequências da invisibilidade lésbica no campo da saúde podemos citar a dificuldade de achar profissionais preparados para lidar com as especificidades deste grupo. O que acaba por ser tornar comum o medo de passar por constrangimento ou julgamento. Assim, muitas mulheres lésbicas que vão ao ginecologista evitam dizer que se relacionam com outras mulheres.

O fato é que convivo com várias mulheres que não assumem publicamente sua orientação sexual, seja fatores internos e subjetivos ou externos e concretos, como a necessidade de sobreviver socioeconomicamente.

Hoje, enquanto psicóloga, tenho propriedade para verbalizar o fato do preconceito internalizado nos indivíduos, mas entendo, no entanto, que é criado socialmente, podendo se traduzir em adoecimento e sofrimento psíquico ao longo do tempo.

 Enquanto psicóloga, historiadora, professora e mulher lésbica, agora posso atuar em meu dia a dia na desconstrução do preconceito e do tabu seja no local de trabalho, nas universidades e escolas, na família e em meu círculo social.

Todos os conflitos que vivenciei são aqui ressignificados através da afirmação e do orgulho que tenho em me identificar como uma mulher lésbica e que por meio de muita luta consegui ser protagonista da minha história, que hoje se conecta a tantas outras que diariamente sobrevivem a dinâmica perversa da invisibilidade.”

Saiba mais:

ALMEIDA, G. Argumentos em torno da possibilidade de infecção por DST e Aids entre mulheres que se autodefinem como lésbicas. Physis Rev. de Saúde Coletiva, vol. 19, n. 2, p. 301-331, 2009.

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