Será fácil recordar em qual esquina da história fomos convencidos a dissociar corpo e espírito?
Dividindo a integralidade humana em duas esferas de permanentes confrontos, como conciliar uma identidade mais aproximada daquilo que realmente somos, objetividade e subjetividade?
Por mais que insistamos na divisão o resultado sai torpe. A materialidade não precisa negar a espiritualidade.
As necessidades da alma são reais como as do corpo.
Por essa razão, há sempre um sentido pessoal e coletivo nas mensagens de transcendência, de intangibilidade, a espalhar uma proposta de força sutilíssima, a aguentar o peso das adversidades.
O martírio do corpo fere tanto quanto a dor que se impõe no emocional humano. Haveremos que aprender a respeitar essa integralidade, a defender os direitos da integridade física e psicológica que todos possuímos, em outras palavras, começar a conhecer nossas reais nessidades para romper paradigmas antigos.
Pecado é crucificar a identidade alheia, numa culpa coletiva pela qual ninguém parece responder, mas que todos somos obrigados a carregar.
A via-crucis da baixa-estima do nosso pobre, a nossa própria via.
Sem direito de participar, sem a garantia das coisas básicas. A humilhação da aparênca feia, a má sorte da vizinhança perturbada, a caricatura da vida; a rua esburacada, a casa destruída, o lar violentado. Pobreza crucifica corpo e alma!
Como resistir, organizar, denuncir, defender, lutar…quando a identidade humana está confundida com os farrapos, na jornada de cada dia?
Quem politiza a miséria?
Se os letrados que ousam ocupar estreitos espaços de cidadania, são perseguidos, julgados e condenados, qual analfabeto irá fazê-lo?
O voto em Barrabás está justificado.
A miséria é bruta. A dor persistente destrói tudo o que encontra pela frente, salvo o inexplicável sentimento que chamamos amor, ao desdobrar-se, aparentando ingenuidade sobre a face infantil, ainda que em chagas.
A humanidade, estranha e silenciosa, não desiste de si. Todas as mazelas vão sendo depuradas em longos dramas.
Por essa razão eu acredito em Crucificação, Ressurreição e Páscoa. Só por isso.





