Conto: Adelmo Luz
“Quem não arrisca não petisca”, diz o afoito adágio popular. Repetido ao longo do tempo, o
provérbio apela para a crença de que a vida é um jogo e como tal deve ser encarada, incutindo no espírito dos apostadores o fascínio pelos riscos.
Estimulados pela recomendação da máxima, de caráter prático e popular, compulsivos jogadores apegam-se à possibilidade de ganhar o mundo ou o nada e mergulham nesse carrossel cheio de precipícios, indo às últimas consequências, ignorando que são imprevisíveis os caprichos da sorte e que nem todos que os desafiam logram êxito.
Nessa perspectiva, imagine o leitor, um larápio conhecido pela alcunha de “Negro Vamp,” que estava preso em um Distrito Policial, admitiu enveredar por uma arriscada empreitada no afã de conquistar sua liberdade, a exemplo dos antigos gladiadores, quando submetidos às ferocidades dos espetáculos, sob os apupos de uma plateia sedenta de beber o sangue derramado.
Após alguns dias na agonia da clausura, à espera da morosa burocracia, Vamp media o tempo pelo latejar da ansiedade que lhe devorava as entranhas. Sentia-se estressado como um pássaro silvestre aprisionado numa cumbuca. Ali, convivia com outros delinquentes, roçando-se uns nos outros pela falta de espaço, e combatendo uma praga de implacáveis percevejos que lhes tiravam o sono.
Tratava-se de uma criatura ainda jovem, mas com o futuro de antemão desfeito. Não era um delinquente feroz, mas nocivo, e de posse de um pé de cabra devassava, mesmo que trancado a sete chaves, o mais oculto tesouro.
Foi marcado pela miséria da fome e pela angústia da escassez, e desde tenra idade manteve contato com o mal semeado pelo mundo. Morava com a mãe promíscua, que tinha filhos de vários homens, numa rua de barro da periferia onde o esgoto corre a céu aberto e no inverno as águas engolem os barracos.
Preso em flagrante quando praticava um pequeno furto, delito no qual era reincidente, tentou evadir-se do local escalando um muro que lhe daria fuga por um terreno baldio, mas terminou surpreendido e cedeu diante do cerco que lhe armaram.
A delegacia para onde foi conduzido estava instalada em um prédio velho e mal conservado, e da cela exígua exalava um cheiro fétido, proveniente de uma vasilha que fazia as vezes de latrina.
Numa madrugada quente, quando os meliantes dormitavam um sono entrecortado de passarinho, foram despertados pelo roçar metálico das chaves abrindo o cadeado. Era o carcereiro, homem de gênio esquisito, semblante duro e braços pesados, que ordenava num tom de voz pouco amigável:
– Escutem aqui, seus pilantras, querem sair desse buraco? A princípio ninguém entendeu o sentido da pergunta, e permaneceram quietos à espera de explicações: – Sabem como é -continuou o guarda-, as festas se aproximam e nesta época do ano baixa o espírito natalino no doutor.
Referia-se ao chefe do distrito, o delegado Verdugo, que pronunciava palavras frias e circunspectas e era famoso por suas práticas aterrorizantes, infligidas aos detentos para obter confissões. Dizia-se que com ele à frente de um inquérito não havia mistérios, estabelecia-se a verdade de qualquer crime, determinando sua autoria, mesmo que para isso recorresse aos mais espúrios desígnios. “O segredo é não permitir que o cabra tenha sossego, senão ele articula álibis mirabolantes”, dizia, vangloriando-se da sua técnica. Naquela época, da qual muitos sentem saudades, a tortura proliferava como um expediente trivial nas delegacias, palco onde ocorriam escandalosas representações do gênero. Pela sua duradoura repetição, essa arte encontrou no passado muita serventia, persistindo ao longo do tempo como uma instituição do medo cujo cerimonial, embora revestido de ilegalidade, contava com a tolerância das autoridades, a despeito do seu caráter desumano. O ritual meticuloso dos carrascos durante os interrogatórios recaía de forma direta e implacável sobre o corpo indefeso, num confronto desigual e covarde entre o chacal e o supliciado, num eficiente modus operandi de se apurar a materialidade de um delito.
– Topam fazer parte na sessão da sova?
O carcereiro exortava os presos a participarem de uma famosa concorrência, estimulando-lhes o espírito de emulação:
– É só ter coragem de amortecer algumas pancadas… Nada mais do que isso… Quem se habilita? É pegar ou largar.
Quando o plantão transcorria sem maiores alterações os agentes, desejando espantar o sono, propunham a liberdade a quem se tornasse vencedor no certame. Aquele que suportasse os suplícios no prazo predeterminado estava livre; caso contrário, continuaria a mofar na masmorra, para onde retornava lambendo as feridas adquiridas na disputa. Mas o convite só era extensivo a quem havia praticado “broncas safadas”, de menor potencial ofensivo. Consistia numa “brincadeira” na qual o detento teria de suportar durante trinta minutos, preferencialmente sem intervalos, sob pena de haver prorrogação, uma variação de golpes desferidos no corpo de quem aceitasse o desafio.
– Eu topo, disse Nêgo Vamp, com a voz cheia de mansuetude.
– Passe para fora, ordenou o guarda.
– Alguém mais?
Recebeu o silêncio como resposta. Só Vamp, que tinha os olhos cheios de remelas e agastados pelo enfado, acompanhou o guarda, que atendia pelo nome de Macabro. Seguiram por um corredor escuro e, no final da via-crúcis, entraram na “Sala dos Conselhos”, onde havia, numa parede encardida, a seguinte inscrição: “Quem já passou por aqui e disse que não apanhou é mentiroso”.
Toda a turma de plantão estava presente. No canto da sala, um agente envergava um casaco de couro escuro e calçava botas lustrosas, ocupado em limpar sua pistola com o esmero semelhante ao dos caçadores. Chamavam-no de Nado Beretta, devido a sua ufana preferência por esse tipo de arma. Sobre um birô velho e escorado, repousavam alguns apetrechos que seriam utilizados no jogo insidioso. Embaixo de uma pia, disponíveis como os únicos instrumentos de primeiros socorros, um recipiente com água e um pano mais sujo que toalha de mecânico. Sem subterfúgios o Dr. Verdugo, homem que demonstrava uma severidade fatalista, apressou-se em esclarecer:
– Espero que entenda o espírito da coisa. Afinal de contas, você há de convir que aceita participar do certame amistosamente, não é verdade? Não se preocupe com os nossos métodos. Asseguro-lhe que as regras são convencionais, e pela minha experiência, adquirida ao longo dos anos (dizia isso com uma imoderada vaidade), posso lhe dar proveitosas sugestões. E a primeira é que despreze os dissabores. No mais, é procurar manter a tranquilidade como se estivesse numa atividade lúdica e esquecer que está levando uma pisa. Nos momentos agudos você até pode extravasar gritando, faz parte do jogo, mas lhe advirto que não haverá intervalo, exceto em situações extremas, senão esfria o corpo e esmorece o ânimo. E então, podemos começar?
Antes mesmo de responder, Nêgo Vamp ouviu alguém intimidá-lo:
– Tire a roupa, negão!
Vamp sentiu arrepios do medo comum aos condenados a caminho do cadafalso, mas não ousou desistir. Recuar naquela altura dos acontecimentos era sinônimo de fraqueza e não evitaria uma provável humilhação. Seu corpo foi aspergido com um líquido a que chamavam pejorativamente de água benta. Enfim, a contenda teve início com a sessão manicure, na qual um dos agentes utilizou-se de um alicate para lhe extrair algumas unhas.
Com as mãos ensanguentadas, Vamp teve de disponibilizá-las sobre a mesa para que lhe aplicassem uma sequência de bolos. O estalido dos golpes da palmatória o fez emitir gritos prolongados que atravessavam o ambiente lacrado. Resistia contra a dor e suportava os assaltos dos suplícios como Prometeu acorrentado por Zeus, no cume do monte Cáucaso. Foi pendurado no pau de arara, e à medida que um torturador lhe aplicava choques elétricos na cabeça, outro se ocupava em introduzir-lhe um cassetete no ânus. Até então, o embate prosseguia sem intervalos, mas com a aplicação de uma série de “telefonemas” ensurdecedores que estouraram seus tímpanos, caiu desacordado, e a contenda foi interrompida até que fosse reanimado pela água. A expressão do seu rosto desvanecido denotava que já havia chegado ao limite. Àquela altura da peleja eram visíveis as grandes chagas arroxeadas distribuídas pelo corpo, mas seguiu apanhando intensamente. Sem voz, os gritos já não saíam; apenas gemia enquanto os homens suados cercavam o titã como um bando de corvos, dilacerando-lhe as carnes. Num acesso irresistível de náusea, Vamp vomitou um líquido viscoso e esverdeado, o que provocou desagrado nos agentes por tê-los deixado com nojo.
Enfim, o tempo havia expirado, e Vamp foi salvo pelo gongo. Todos ficaram impressionados com a resistência do negro e felicitaram-no por isso. Até então, ninguém tinha conseguido realizar o feito. Suportou uma surra que mataria uma mula. A desenvoltura dos algozes na aplicação dos suplícios foi tamanha que certamente seria uma demonstração valiosa às observações de Beccaria.
Vamp venceu, mas perdeu a mobilidade das pernas, que secaram com rapidez, privando-o do direito natural de locomover-se livremente. O infeliz terminou seus dias arrastando-se pelas calçadas a pedir esmolas, lamentando ter apostado em circunstâncias tão adversas. Vislumbrou poder antecipar seu retorno ao convívio no mundo, em sossegada liberdade, sem ter de derramar lágrimas de sangue pelas baixas sofridas no campo de batalha.
Adelmo Afonso de M. M. Luz
*Cesare Beccaria – Marquês de Beccaria (Milão 1738/1794), jurista, filósofo, economista e literato italiano, autor da obra “Dos Delitos e das Penas”, onde denunciou as torturas empregadas como meio de se obter a prova do crime.









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Se esse conto não fosse tão vivo e atualizado, me causaria menor penar lê-lo até a última linha. Quando o crime salta do criminoso para as mãos do justiceiro, é menos pior do que o silêncio de quem ganha dinheiro para gerir esses sistemas.