Por Silvio Rodrigo
Jornalista, psicólogo e mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
A campanha permanente tornou-se um dos traços marcantes do universo político contemporâneo.
Mais do que uma reconfiguração do discurso político, esse fenômeno expressa a necessidade de sua reafirmação cotidiana em um ecossistema digital orientado pela economia da atenção.
A política já não se restringe aos períodos eleitorais, aos espaços institucionais ou às manifestações públicas.
Ela se prolonga nas telas, nas interações virtuais e na disputa constante pela interpretação dos acontecimentos.
Essa transformação também modifica o trabalho midiático, o exercício do jornalismo político e a própria organização do debate público.
As redes sociais assumiram uma posição central no agendamento dos assuntos de interesse coletivo, enquanto os mecanismos algorítmicos passaram a interferir nas formas de circulação, visibilidade e percepção das informações.
Estar presente no debate político tornou-se, em alguma medida, uma exigência permanente.
Mas estaríamos diante da formação de uma nova cultura política?
O conceito de cultura política compreende o conjunto de atitudes, crenças, valores, normas e sentimentos que orientam a relação de uma população com o sistema político e com seu próprio papel nele.
É a partir dessa dimensão que os indivíduos interpretam o poder, as instituições, os partidos, as lideranças e a própria democracia.
No ambiente digital, entretanto, essas relações passam a ser atravessadas por mecanismos de exposição contínua, estímulos emocionais e disputas pela atenção.
As consequências psicossociais desse processo merecem atenção.
A mobilização das emoções, a interferência nos mecanismos cognitivos e perceptivos e a construção de consensos por meio de dispositivos de comunicação não são novidades na história política.
O que muda é a escala, a velocidade e a continuidade com que essas operações acontecem.
As disputas eleitorais brasileiras, de 2014 até as eleições presidenciais de 2026, evidenciam como a força política se deslocou progressivamente para o cotidiano.
Esse cotidiano é hoje atravessado pelo uso constante de telas, pelas interações virtuais, pela formação de agrupamentos políticos e pela construção de pertencimentos simbólicos nas redes sociais.
O ato político, embora preserve sua dimensão presencial nas manifestações de rua e nos espaços coletivos de organização, também se desdobra em outras práticas: compartilhar uma publicação, reproduzir uma palavra-chave, mobilizar uma hashtag ou simplesmente percorrer o feed de uma rede social.
Nesse contexto, o gesto aparentemente banal de rolar a tela também pode integrar uma dinâmica de participação, identificação e disputa política.
Os dedos passam a integrar, metaforicamente, o campo de batalha algorítmico. Palavras-chave, imagens e marcações digitais tornam-se instrumentos de mobilização social, construção de visibilidade e reivindicação de protagonismo.
A disputa pela hegemonia também passa pela capacidade de estabelecer quais assuntos serão vistos, quais interpretações ganharão circulação e quais discursos permanecerão à margem.
É importante ressaltar, contudo, que mobilização digital não significa, necessariamente, conquista de hegemonia.
A circulação de uma mensagem, o engajamento em uma publicação ou a popularidade de determinada liderança não representam, por si só, uma transformação efetiva das relações de poder.
A dinâmica política continua atravessada por diferentes eixos de disputa, que envolvem instituições, organizações sociais, interesses econômicos e relações materiais de força.
A política da cognição e a herança da Guerra Fria
Essa transformação prepara o terreno para outra dimensão da disputa política: a ação psicopolítica.
A relação entre Psicologia, cognição e poder não é recente.
Pelo menos desde a Guerra Fria (1947-1991), diferentes instituições e agências passaram a reconhecer a importância estratégica dos conhecimentos psicológicos e comportamentais para a organização da vida política e social.
Para além da interpretação convencional do conflito entre Estados Unidos e União Soviética, a Guerra Fria também foi um período de disputas culturais, científicas e intelectuais.
Instituições privadas de fomento, universidades e organizações de pesquisa participaram da construção de agendas científicas que não estavam dissociadas dos interesses políticos daquele contexto.
O historiador Jamie Cohen-Cole* (referência no final do texto), em seus estudos sobre a formação das ciências cognitivas nos Estados Unidos durante a Guerra Fria, demonstra como determinados valores políticos foram incorporados às concepções científicas sobre o funcionamento da mente.
Em meados da década de 1960, a ciência cognitiva ganhou maior institucionalidade no país, impulsionada também pelo financiamento de fundações privadas.
Nesse processo, Cohen-Cole identifica a valorização da noção de openmindedness, traduzida livremente como mente aberta.
Entre os pesquisadores e intelectuais envolvidos nesse movimento, a abertura cognitiva, a tolerância à diferença e a rejeição ao autoritarismo foram associadas a um ideal de sociedade democrática.
A capacidade de aceitar novas ideias e rejeitar formas rígidas de pensamento passou a integrar uma determinada representação da identidade política norte-americana, em oposição ao comunismo e às alternativas socialistas consideradas radicais naquele contexto.
Essa relação entre ciência, valores democráticos e interesses geopolíticos revela que a produção do conhecimento psicológico também esteve inserida nas disputas ideológicas do século XX.
A cognição não era apenas um objeto de investigação científica: constituía igualmente um território de interesse político.
No século XXI, entretanto, a dinâmica apresenta outras configurações. Parte dos valores democráticos mobilizados durante a Guerra Fria convive hoje com práticas de ingerência política, repressão e pressão sobre a soberania dos povos latino-americanos.
Ao mesmo tempo, a concentração do poder comunicacional nas grandes empresas de tecnologia introduz novos mecanismos de interferência na circulação das ideias e na organização do debate público.
A mediação algorítmica e a concentração da infraestrutura digital nas chamadas big techs reconfiguram as condições de participação política.
A promessa de abertura e pluralidade convive com a desumanização do debate público, a redução de conflitos complexos a palavras-chave e a circulação de imagens falsas produzidas por inteligência artificial.
Nesse ambiente, a disputa política pode ser reduzida à identificação de adversários, à reprodução de rótulos e à mobilização de respostas emocionais imediatas.
O debate sobre projetos de sociedade perde espaço para uma dinâmica de enfrentamento permanente, na qual a capacidade de capturar a atenção frequentemente se sobrepõe à construção de argumentos.
O cotidiano como território de disputa
Os efeitos de longo prazo da campanha permanente ainda precisam ser investigados em profundidade. Entretanto, é possível identificar a emergência de novos esquemas de ação e participação política, marcados pela velocidade, pela instabilidade e pela necessidade contínua de posicionamento.
A experiência política passa a ser atravessada por estímulos sucessivos, mudanças rápidas de agenda e disputas que raramente encontram um ponto de encerramento.
O indivíduo não é apenas convocado a participar das eleições ou a acompanhar os acontecimentos políticos: é constantemente interpelado a reagir, compartilhar, posicionar-se e reafirmar suas identificações.
Isso produz consequências que ultrapassam o campo eleitoral. Alcança as relações sociais, os vínculos coletivos, a percepção dos acontecimentos e a própria experiência subjetiva da democracia.
Talvez um dos maiores desafios contemporâneos seja compreender como preservar a capacidade de reflexão em um ambiente que exige respostas imediatas; como construir pertencimentos políticos sem transformar diferenças em inimigos permanentes; e como recuperar a dimensão humana do debate público diante de mecanismos que recompensam a simplificação, a polarização e o conflito.
O contemporâneo é instável. Sua paisagem política se aproxima, em muitos aspectos, de um universo cyberpunk que até pouco tempo parecia restrito à ficção científica.
A tecnologia não apenas amplia as possibilidades de comunicação e participação: também reorganiza as relações de poder, os mecanismos de vigilância e as formas de intervenção sobre a experiência humana.
A política nunca sai de cena. O problema é quando a campanha se torna permanente e já não conseguimos distinguir onde termina a disputa pelo poder e onde começa a própria experiência de viver.
*COHEN-COLE, J. The Open Mind: Cold War Politics and Sciences of Human Nature. The
University of Chicago Press, 2014.







