Analisar materiais midiáticos relacionados às questões que envolvem Espiritismo é um desafio de grande responsabilidade, mas precisamos fazer análises, sim! Precisamos também questionar alguns pontos, refletir sobre outros, porque é deste movimento que a racionalidade desponta, com sua assertiva.
Deste modo, foi analisando um material escrito por Ana Carolina Soares, publicado na Veja São Paulo, que pontuamos a escrita trazendo mais uma vez o médium baiano (mas muito ligado a São Paulo) Divaldo Franco, que já conta com 92 anos e nesta encarnação não demonstra acompanhar os movimentos que sugerem atualização na compreensão da vivência espírita, que não se prende somente às ações assistenciais.
Mesmo sabendo que multidões de adeptos e simpatizantes do Espiritismo ainda não conseguiram deslocar o olhar das questões ligadas à assistência social como expressão única da fé, e por esta razão se tornaram combatentes contumazes de qualquer espírita que questione esta base única de salvação, é importante não se deixar intimidar por tais ataques, principalmente neste exato instante, no qual o nosso país voltou a plantar miséria em ampla escala.
Não é possível omitir o alto grau de personalismo que a matéria intitulada ‘ “Médium de direita”, Divaldo Franco ganha o segundo filme’ confere ao personagem. Algo que mistura egolatria com fascinação, mostrando aos bons entendedores o que não se deve fazer em nome da doutrina jamais.
Como posicionamento político ativo e assumido, contrário à midiatização de um médium com posicionamentos políticos reprováveis do ponto de vista humanitário e progressista – haja vista ser o mesmo apoiador de Moro e Bolsonaro – protagonistas da necropolítica que oprime nosso país- não fui assistir ao filme.
No entanto, a forma como a matéria repercute o mesmo, apenas confirma a idolatria a Divaldo Franco.
Em exibição numérica das ações assistenciais que a instituição criada e dirigida pelo médium oferece, a intencionalidade discursiva desloca a Mansão do Caminho dos nichos históricos e sociais da realidade brasileira, onde a desigualdade, exclusão e empobrecimento planejado por equipes políticas e econômicas (muitas delas incrustadas em São Paulo) mantém legiões de necessitados, em situação de ampla injustiça e encabrestamento eleitoral.
Por esta razão, não é dignificante louvar a prática assistencialista, em detrimento da consciência política; assim como, não é verdadeira caridade receber de ricos mantenedores de políticas predatórias, grandes somas em dinheiro para aplacar a miséria que eles mesmos construíram, pintando injustiça social com o verniz da caridade.
As referências que a matéria faz ao relacionamento de Divaldo com Chico, não motiva aprofundamento da nossa parte, pois intriga não é algo interessante para nossa reflexão, no entanto, a referência à Herculano Pires, pede um tanto mais de leitura, pesquisa e compreensão, para conhecer o que movia tão digno kardecista brasileiro quando questionava a mediunidade de Divaldo, fato este, exposto no texto.
A maneira como Divaldo folga em ser “de direita” e todo envolvimento que possui com a família Dória, nos leva a concordar com a fala de Dora Incontri, coordenadora da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, quando esta diz: ‘ Ele influencia muita gente, e como se porta como líder, parece que toda nossa comunidade segue seu pensamento, o que não é verdade’.
E se isto não é verdade, é graças à Doutrina codificada por Allan Kardec, que inclusive, orienta os médiuns sobre assédios e tentações.
O livre arbítrio nos permite a todos manifestar a presença no mundo como nos apraz, e nesta linha, a sobriedade de quem escolhe atuar na busca de justiça social, inclusão e libertação dogmática da fé, guia nossas escolhas; e declaramos que se Divaldo Franco é “de direita” o Espiritismo não pertence a “direita” nem nos impede de ser “de esquerda”.
Com amor e utilizando a inteligência para questionar representações infiéis, seguimos com Jesus e Kardec, por um mundo com justiça social.
