A aliança entre Renan Filho e Rui Palmeira nas eleições deste ano contra um inimigo comum- o deputado federal JHC- repete apenas aquilo se conhece nos bastidores do poder: na política não existem amigos, mas interesses.

Renan Calheiros – pai do governador- e Guilherme Palmeira – pai do prefeito- levaram adiante uma das eleições mais baixas de Alagoas no século passado. Só não foram piores que o confronto entre Arnon de Mello e Silvestre Péricles na disputa ao Governo, no fim dos anos 40.
Anos depois, Arnon- pai de Collor- mirou uma arma em Silvestre. Disparou várias vezes e matou outro senador.
Mas isso é outra historia.
Guilherme e Renan, ao contrário, depois do confronto, voltaram a sentar em torno da mesma mesa de petiscos.
O passado
Em 1988, Guilherme e Renan mostraram algo bem atual: o vale tudo em busca dos votos.
A disputa pela Prefeitura em Maceió estava tecnicamente empatada. Na caça aos votos valia tudo: discursos com palavrões, gestos obscenos, distribuição de comida, denúncia de servidora desmaiando de fome na fila do pagamento do setor público.
O presidente do Brasil era José Sarney (PMDB). A inflação chegou a 1.037,6%, os salários dos servidores públicos alagoanos estavam atrasados.
Com a economia ruim e o racionamento de comida nos supermercados, falar mal de Sarney era quase uma obrigação.
Renan era lançado candidato a prefeito na maior coligação do país: 10 partidos. Tinha o apoio de Fernando Collor, então governador de Alagoas.
Um mês antes da eleição, 15 de outubro, o Jornal do Brasil estampa uma pesquisa: Guilherme tinha 49% das intenções de voto; Renan, 23%.
Mendonça Neto, também candidato a prefeito, fez um desafio público a Collor: chamou para brigar na rua, aos tapas. E citou a morte do senador acreano Kairala, assassinado com bala perdida, no plenário do Senado, disparada por Arnon de Mello (pai de Collor) contra Silvestre Péricles.
Collor não respondeu. Foi às ruas pedir votos para Renan. Registra o JB, em 23 de outubro, que, em discurso na praia, o então governador conclamava a população a “ganhar esta merda”, ou seja, a Prefeitura da capital.
Eleitores exibiam o nome de Guilherme. Diz o JB que Collor respondia com “sinais obscenos com os dedos”.
Uma viúva apareceu no guia eleitoral de Guilherme. Ela havia desmaiado na fila do Ipaseal. Tinha fome. O dinheiro da pensão não saiu.
Guilherme, então, associou a situação a Collor e, por consequência, Renan Calheiros.
Calheiros respondeu no guia: a mulher havia sido paga por Guilherme para fingir o desmaio.
A campanha ficaria pior.
Em 10/11/1988, o JB trouxe pesquisa Ibope: sete dias antes da eleição, Renan tinha 37% das intenções de voto; Guilherme, 36%.
No dia 13/11/1988, o JB mostrava o que aparecia no guia de Renan: o slogan (Acorda Maceió); os cochilos de Guilherme Palmeira em plenário; atacava Sarney (que apoiava Guilherme); e Guilherme atacava Collor, para atingir Renan.
Renan dizia que Guilherme se beneficiou de dinheiro público federal; Guilherme rebateu: “Ridículo, uma piada”.
Em 14/11/1988, o JB registrou caminhões distribuindo comida em Maceió, com santinhos de Guilherme.
Quatro dias depois, 16/11/1988, o Ibope divulgava nova pesquisa: Guilherme chegou a 43% dos votos, 38%.
Três dias depois, Guilherme foi eleito por uma margem de sete mil votos sobre Renan.
Collor perdeu em Maceió, mas isso não impediu que ele fosse eleito presidente da República, um ano depois.
Em 1990, Guilherme Palmeira renunciou à Prefeitura de Maceió e foi eleito senador.
Guilherme e Renan voltaram às falas anos depois. E Guilherme até indicou um filho para trabalhar no gabinete de Renan, em Brasília.
Um jovem recém formado em Direito era Rui Palmeira.





Uma resposta
Boa retrospectiva, Odilon. E, como nós sabemos, tudo feito “em prol do povo mais necessitado de Alagoas”.