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Alagoas: Secretária estadual de Educação ameaça demitir professores na pandemia

Secretária de Educação de Alagoas Laura Souza ameaça demitir professores que não atraiam alunos para aulas on line. Veja vídeo e mais no portal www.reporternordeste.com.br

Publicado por Odilon Rios em Quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Durante uma reunião com professores, a secretária Estadual de Educação de Alagoas, Laura Souza, ameaçou demitir os monitores cujos alunos não apareçam em ambiente virtual para as aulas da rede estadual. (Veja aqui o vídeo)

Os monitores são contratados pela secretaria, recebem salário menor e têm poucos direitos trabalhistas, apesar de carga horária semelhante aos professores concursados.

As aulas são em ambiente virtual por causa da pandemia. As escolas estaduais estão fechadas, sem data para serem reabertas.

O vídeo foi obtido pelo Sinteal, o Sindicato dos Trabalhadores da Educação, que emitiu nota de repúdio (ver íntegra no final deste texto).

A Seduc respondeu, em nota (ver completa no final deste texto). Disse que o vídeo foi retirado de contexto mas não negou a ameaça de demissão dos monitores.

Na gravação, Laura Souza nega estar ameaçando os monitores, mas responsabiliza estes profissionais pela pouca quantidade de alunos no ambiente virtual.

“Se não tiver turma não tem como manter contrato temporário, não tem, isso não é assédio moral, é bom senso, é lógica”, disse. E emenda: “Não é ameaça, não é chantagem, é lógica”. E continua: “Como o diretor vai mandar ficha do professor para o RH se não tem aula?”

No vídeo, a secretária Estadual de Educação diz que o mais importante neste momento é atrair os estudantes para o ambiente virtual de ensino. A aprendizagem, segundo ela, “está em segundo plano”:

“Volto a repetir: neste momento, a aprendizagem, infelizmente, está em segundo plano porque a gente precisa trazer estes meninos primeiro”

De acordo com o Sinteal, Lauro Souza ameaçou demitir os monitores, apesar de não ser função deles incentivar os alunos para as aulas virtuais.

“A secretária queria ouvir os professores, mas acabou escutando muito desabafo. Sabemos que não é como ela pensa. A culpa não é dos professores, mas é dever do Estado dar garantias para que o serviço alcance a população”, disse a presidente do sindicato, Maria Consuelo Correia.

Ao portal Gazetaweb, a vice-presidente do Sinteal, Célia Capistrano, disse que compartilhou – nas redes sociais – o desabafo de uma professora da rede pública de ensino. O relato da educadora reproduz a angústia vivenciada por estes profissionais, durante o período de pandemia, além do esforço deles para conseguir cumprir o ofício.

“São cínicos, se fazem de doidos, é como se participar ou não de aulas online fosse uma simples escolha, uma simples questão de envolver os alunos… meus alunos estão em maioria desempregados, os que estão trabalhando tiveram que dobrar a carga horária para se manter no emprego, alguns tem 1 celular para uma família de 7 pessoas, algumas alunas o marido sai pra trabalhar e deixa ela sem o celular, alguns precisam na chuva encostar-se no muro do vizinho pra pegar a internet, outras só possuem dados de celular na primeira quinzena do mês, outros sequer possuem celular ou não tem um celular antigo que trava e não baixa nada. Mais uma vez nos culpam pela ausência do Estado, chega a dar náuseas (sic)”, escreveu a professora, no relato de Célia Capistrano ao Gazetaweb.

Consuelo diz que, em um dos áudios que recebeu, um aluno de Educação de Jovens e Adultos (EJA) afirma que não tem como utilizar o pacote de dados do celular, que compra por R$ 50,00, para os estudos. “Isto mostra a dificuldade que os estudantes têm, e o Estado precisa arrumar uma solução”, avalia.

Segundo o IBGE, em Alagoas, 67,1% dos 1,1 milhão de domicílios no estado tinham acesso a internet em 2018, bem abaixo da média nacional (79,1%). 99,6% destes domicílios com acesso a internet o fazem pelo celular.

Veja nota completa do Sinteal:

Vivendo uma realidade de pandemia, distanciamento social, adaptação e aulas online em um universo de exclusão digital e social, o Governo de Alagoas deu mais uma demonstração de descaso total com a educação pública e a vida dos/as trabalhadores/as (efetivos e contratados) e estudantes nesta quinta-feira (12).

Em reunião virtual realizada com trabalhadores/as da educação, onde deveria dialogar com a categoria, a secretária de educação Laura Souza utilizou o espaço para fazer pressão, cobrança e ameaças, responsabilizando os profissionais pela dificuldade de frequência dos alunos.

O Sinteal repudia essa atitude, lembrando que as condições para o atendimento são obrigação da gestão. “Esses mesmo profissionais, que estão com seus salários defasados sofrendo perdas há anos, e no caso dos contratados tem uma relação ainda mais precária, estão fazendo um grande esforço pessoal para manter as atividades, já que o Estado não forneceu formação nem instrumentos suficientes para realizarem seu trabalho. Ao invés de reconhecimento e empatia recebem isso”, disse a presidenta Consuelo Correia.

É momento de defender a vida, o emprego daqueles que por definição do Estado se submetem a uma contratação temporária, que vem desempenhando suas funções com dedicação e compromisso profissional, terem por parte da SEDUC as condições pedagógicas e tecnológicas que alcancem os nossos estudantes de forma que nenhum seja excluído do processo educacional.

Desde o início da pandemia, os institutos de pesquisa reforçam que um grande número de domicílios no país não tem acesso à internet, um problema que atinge tanto profissionais quando estudantes. Consuelo complementa: “O que a secretária exige dos profissionais é fora da realidade, é uma atitude irresponsável de um governo que assume um discurso correto na mídia de preocupação com os profissionais, e nas reuniões privadas causa adoecimento nos servidores/as públicos”.

Em pesquisa recente divulgada pela própria Secretaria de Estado da Educação, feita com os alunos, o formato de Ensino À Distância (EAD) adotado pelo governo estaria sendo um sucesso. Contrariando as críticas e questionamentos do Sinteal sobre as péssimas condições, as informações postas são de que tudo estaria funcionando. Mas quando é para dialogar com quem realmente está fazendo o trabalho no dia a dia, a secretária não apenas reconhece a realidade, como tenta transferir a responsabilidade do Estado para eles.

Assédio moral é crime, e afirmar que não está praticando não anula os efeitos nefastos de ter feito isso de forma tão cruel, expondo, constrangendo e agredindo trabalhadoras/es. O Sinteal vai apresentar denúncia nos órgãos competentes, e espera que o erro seja imediatamente reconhecido e reparado.

Veja nota completa da Seduc

A Secretaria de Estado da Educação Alagoas (Seduc) lamenta a atitude do recorte e compartilhamento de uma das falas da secretária da educação, professora Laura Souza, trecho esse retirado de contexto e utilizado de má-fé. O vídeo, com cerca de dois minutos, foi recortado de uma reunião virtual realizada com a participação de 250 professores da rede estadual e a secretária, que teve mais de duas horas de duração.

Os encontros virtuais, já realizado com os alunos, e agora com os professores, têm como objetivo aprofundar o diálogo entre a Seduc, professores e alunos sobre o atual cenário da educação e os passos para retomada.

A Seduc reitera que, perante a situação de suspensão das atividades escolares presenciais, se faz necessário a aplicação das atividades remotas na rede estadual de ensino. Sendo assim, o esforço deve ser feito por todos que fazem parte da educação estadual e da sociedade civil para acolher e manter o vínculo dos alunos com as unidades de ensino e professores, reduzindo a possibilidade de evasão e abandono escolar neste período, além de contribuir para manutenção e redução de impactos da aprendizagem.

 

2 respostas

  1. Ela Já deu aula online? Ela Já tentou atrair os alunos? Ela sabe o que realmente quer dizer processo educativo significativo? Ela sabe elaborar um instrumento de avaliação que valorize esforço ? Ela sabe o que é educação? Ela Já trabalhou numa sala de aula com 40 alunos? Ela sabe que os alunos não tem acesso à educação híbrida? Ela Já deu formação à professores? Se ela respondeu não a pelo menos 5 dessas perguntas, deveria ser demitida. Hipócrita e classista.

  2. Quem é professor sabe o quanto é difícil atingir essa meta de 80%, onde que nem 70% dos lares alagoanos possuem internet. Além disso, temos que ver como é a internet desses que possuem. Nós professores estamos tirando do nosso bolso para trabalhar, usando aparelhos e espaços pessoais para ajudar na aprendizagem dos alunos. O Estado até agora somente cobra e cobra, mas não fornece nenhum subsídio ou formação para atuarmos nesse ensino remoto. Essa senhora se comporta como uma Senhora de Engenho.

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