Dos 4 trechos hoje concluídos do Canal do Sertão, apenas um tem perímetros irrigados.
Nos outros vive-se um sebastianismo ao contrário: ao invés da espera por um rei que morreu, aguardamos um grande empresário que nunca existiu para transformar a segunda maior obra hídrica do Nordeste em riqueza.
A Secretaria de Infraestrutura é quem toca o Canal do Sertão.
Esta semana, ao jornalista Geraldo Câmara, o secretário Rui Palmeira se encarregou, ele próprio, de propagar este sebastianismo invertido.
E defendeu um modelo de gestão de Canal pela iniciativa privada, citando como exemplo a cidade de Petrolina.
Grandes fortunas sobrevoam, em helicópteros, o sertão lambido pelas águas do Canal do Sertão desde a era Teotonio Vilela Filho.
Nenhum deles mostrou interesse em investir em uma região que conta com um mega-projeto de transposição absolutamente exclusivo.
Não existe explicação oficial para isso: afinal, há água, energia elétrica, as mais bem cuidadas estradas do Brasil para escoar a produção.
O governador e o ministro Renan Filho insistem no início das obras do trecho 5. Mas para quê se as águas do Canal são subaproveitadas?
Pode existir uma solução.
Bem quisto pelos movimentos sociais, o governador Paulo Dantas poderia incentivar a construção de projetos para que pequenos agricultores familiares transformassem o sertão alagoano em ouro verde.
E, finalmente, existiria uma data mais próxima para o fim da fome na terra com maior proporção de famintos no país.
Há tempos o MST insiste que o objetivo do Canal do Sertão é servir aos interesses da mineradora Vale Verde, em Craíbas.
O governo nunca desmentiu.
É difícil de entender que, todos os anos, prefeituras decretem emergência por causa da seca e carros-pipa do Exército colham água potável de um Canal que ironicamente serviria para transformar a promessa de Antônio Conselheiro em realidade: o sertão virar mar.
“E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono” (Euclides da Cunha, Os Sertões).





