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A crítica como posição política: que Psicologia queremos em Alagoas?

O estudo da Psicologia no Brasil é indispensável a qualquer profissional que vise entender a realidade psicossocial que desponta atualmente e que estarrece muitos colegas pelo nível de indiferença social e falta de organização política da categoria profissional para se opor ao projeto hegemônico de Psicologia da Normalidade em curso no Brasil.

Sendo indispensável, este estudo precisa ter o cuidado e um rigor teórico-metodológico contundente para não cair em “mais do mesmo” ou em uma “crítica revoltosa” sem ecos em nosso meio.

É tendência comum, nesta conjuntura, toda inventividade para a fuga da reflexão a partir do real, do tangível e das (im)possibilidades da Psicologia enquanto ciência e profissão.

Mas é importante perceber, sobretudo, que nossas dificuldades são constitutivas de um processo de síntese a partir de uma tensão mortal entre antagonismos estruturais no movimento da sociedade burguesa à brasileira.

Ora, está quase insuportável a tensão subjetiva diante de “absurdos” e “coisas impensáveis” que acontecem quase que diariamente sob holofotes, na configuração de um jogo, de uma luta por hegemonia política e cultural.

Não podemos negar, entretanto, que um lado tem se estabelecido muito bem no Brasil a partir de 2014. Influências externas ao país tiveram papel importante na construção de uma subjetividade conservadora que reflete num cotidiano conservador, numa política e cultura conservadora.

Se não fosse uma tendência global, poderíamos olhar o país como anomalia, mas não é o caso.

Do mais sofisticado burguês e pequeno-burguês até o operário e trabalhador de aplicativos de entrega parece ser muito óbvio o caminho para ganhar a vida, crescer, ter o seu. O óbvio, o claro e o aparente é que o trabalho naturalmente vai garantir boa vida no futuro. O futuro, categoria bastante fluída e difícil de deduzir, aparece como um traço certeiro de sucesso. As coisas se movimentam, naturalmente, ao sucesso e é evidente que todos os obstáculos precisam ser superados para consegui-lo.

O efeito desta representação ideológica é massivo em todos os lugares da sociedade, do médico ao psicólogo. Não se enganem, não está claro para o psicólogo a referência de pertença a classe trabalhadora e não é “natural” que assim seja. Apesar de um Código de Ética Profissional progressista não é de se pasmar que psicólogos e psicólogas façam questão de se autoproclamarem conservadores e assim, reger, a seu critério, práticas e concepções de homem também conservadoras e extremamente problemáticas.

A questão primordial, está na possibilidade de o “homem” e a “mulher” continuarem sendo o que “sempre” foram e as coisas se normalizarem, centrarem-se num núcleo duro da “natureza”. A estes colegas, está claro que a felicidade é o eixo comum de todos os homens, independente das condições materiais que o determina e condições subjetivas que o também o movimenta.

O auge da ideologia neoliberal encontrou morada nos berços órfãos de radicalidade política da profissão. Foi muito fácil para o psicólogo deixar-se solto nesta criação doce da burguesia. O psicólogo, quando não se propõe crítico, é a ideologia funcionando a todo vapor, é o movimento contraditório da sociedade capitalista moderna. A sina de seu trabalho é a alienação, a docilidade e a normalidade, não rara eugênica, elitista e autoritária.

É fato no mínimo complicado que psicólogos doutores da UFAL participem de uma live no Youtube de um político conservador de Alagoas, para falar como é nocivo o feminismo para as mulheres, já que em sua natureza, elas se submeteriam aos homens e quando não fazem isso sentem-se perdidas, atordoadas e fragilizadas. Isto é, os entraves da sociedade modificaram sua “natureza”, sua essência emocional, carente, necessitada de energias masculinas. Notas de repúdio do CRP-15? Não.

Este fato é difícil de enxergar, é duro de lidar quando não se desvelam as raízes institucionais, políticas e culturais de uma Psicologia conservadora e de uma subjetividade conservadora construída no seio da sociedade alagoana. Psicologia Social em Alagoas é só para repetir frases legais da Escola de São Paulo? Aqui se constrói subjetividade ou é apenas um “não-lugar psicológico” de extremas dificuldades sociais irremediáveis? Seguimos procurando por respostas.

A partir disso podemos pensar que tudo se concentra em alguns eixos, aqui falaremos em dois: o conservadorismo estrutural da Psicologia em Alagoas e a tendência quase unívoca da categoria ao silêncio político, pois, aparentemente, não cabe ao psicólogo alagoano este “tipo” de Psicologia em específico. Apenas aquela que todo mundo gosta, calada, trancada e sem “magoar” ninguém.

Obviamente que as críticas a degeneração da natureza humana têm um alvo em específico: movimentos e partidos de esquerda. O que mais seria? O que os conservadores sempre quiseram conservar se não é a dinâmica do poder burguês, mesmo que a distância entre eles seja um abismo? Foi muito importante para os doutores psicólogos estarem em um evento cheio de revisionismos históricos e retóricas misóginas e machistas. Nada afetaria suas reputações pois a sociedade ardilosamente aceita, hoje em dia, qualquer absurdo. Tudo muito tranquilo.

Para a Psicologia? Nada. Para os psicólogos, vergonha. Em pouco tempo seremos chamados a votação para uma chapa que presidirá o CRP-15. Única entidade de representação profissional em Alagoas. Haverá entraves “naturais” da história? Não. Mas construções diárias em posições passivas e silenciosas. O caminho está sendo aberto para que o núcleo do absurdo tenha visibilidade política no cenário da profissão.

Se não fosse lugar comum entender que o absurdo tem sua razão de existir neste contexto, poderíamos achar que são pessoas más e cheias de ódio. Mas estas águas já vêm sendo navegadas a muitos anos e o ódio já não espanta mais ninguém. Que farão os psicólogos com o absurdo? Que lugar ele ocupará na cena política exposta com atores no mínimo vacilantes em suas posições políticas e ideológicas?

Quando o leite derramado já não é chorado resta apenas passar por cima? Limpamos ou fingiremos que ele nem está ali?

A gama de incômodos só aumenta e o saldo histórico dos trabalhadores da Psicologia está na conta de quem?

Os atropelos políticos pela “Psicologia Boa” não servirão aos psicólogos em poucos anos. Não servirá por razões muito claras: o pensamento psicológico crítico não está conseguindo gerar organização da categoria, não está conseguindo criticar onde deve e não está conseguindo cumprir o “compromisso social” que gentilmente esperou ter. Sendo assim, vale a pena conservar? Ou nada vale?

“Psicologia Boa” para a sociedade de bem ou “não-Psicologia” aos sujeitos “não-psicológicos” de Alagoas?

Eis a grande questão.

2 respostas

  1. Bom…. Não conheço o autor da matéria em voga e penso que ela seja um tanto quanto inoportuna e alienada, mas divagações sem nexo com relação organização de uma psicologia de direita ou de esquerda, em especial quando defende que deveria ser de esquerda. Não concordo com o ponto de vista do autor, que já vez que ideologias não deveriam ter a ver com profissionais, mas sim com o credo pessoal de cada um

  2. Parabéns pelo excelente artigo.
    Primeira questão mais séria e mais urgente que eu vejo. Como existir uma Psicologia em nosso país que não seja progressista?
    Nossa ação enquanto Psicólogo é política. Nossa fala é politica, nossa vida é política. Tão politica quanto puder ser.
    Psicólogos que não estão alinhados com o viés ideológico do nosso código de ética, código este que está comprometido e apoiado pela carta dos direitos humanos universal. Por uma Constituição Federal, democrática, que já não existe mais.
    Nesse sentido tais psicólogos estão alinhados a quê? Estão comprometidos a quê? Qual é o pensamento e o viés ideológico que eles assumem quando eles não estão comprometidos com o que diz e orienta o código de ética profissional do psicólogo, em um país com raízes históricas profundas de desigualdade e injustiças sociais?
    E quanto ao risco que nos atravessa com o empobrecimento da subjetividade em nossa sociedade, cada dia mais padronizada?
    Sigo também, procurando respostas.

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